Fim de Festa

Na ressaca do Carnaval*

Todo Carnaval tem seu fim, e com ele vem a ressaca. É nesse clima um tanto modorrento que tem lugar Fim de Festa, novo longa-metragem do diretor e roteirista pernambucano Hilton Lacerda. O longa venceu os prêmios de Melhor Filme e Roteiro na última edição do Festival do Rio e foi lançado estrategicamente agora que a festa de Momo tem fim – na Bahia a folia termina um pouco mais tarde que nos demais lugares.

Num clima de ressaca que põe a todos que se esbaldaram na festa em estado de letargia e preguiça, um crime acontece. Uma turista francesa, casada com um brasileiro, é morta brutalmente. Isso faz com que o policial Breno (Irandhir Santos) antecipe seu retorno das férias para assumir o caso. Encontra sua casa ocupada pelo filho adolescente e mais três amigos que curtiam o Carnaval livremente.

Antes de se apresentar como um thriller policial tradicional, Fim de Festa está mais preocupado em investigar os dilemas emocionais desses personagens, em especial de Breno e o filho. Um drama do passado não muito bem esclarecido na trama ronda aquela família, ligado à esposa e mãe que não habita mais aquele lar e tem a sua ausência sentida de formas diferentes.

Breno é visto como um pai amoroso, compreensível, policial eficiente, mas emocionalmente abalado, sentindo a idade e querendo desacelerar. Por outro lado, seu filho (Gustavo Patriota), na flor da idade e desfrutando da juventude ao lado dos amigos, é o elo um tanto questionador, que por vezes põe o dedo na ferida – ganhou um concurso de literatura com um conto autobiográfico sobre o passado de sua família, citado em muitos momentos do filme.

Não fica exatamente claro o que de fato aconteceu, mas o filme lida com as marcas que ficam no presente e em como os personagens tentam se reinventar – ou estagnar – nos seus próprios caminhos de vida. É como se esse momento pós-Carnaval, a calmaria depois da tempestade, fosse também um período de reflexão e entendimento de si mesmo.

Quarta de cinzas

O filme tem início justamente na quarta-feira de cinzas em que a cidade está suja, tentando voltar à normalidade, e os excessos do Carnaval são apenas lembrados, enquanto o corpo descansa. O próprio filme assume esse ritmo meio sonolento, lânguido, com os personagens meio que se arrastando pelos cantos. O caso do assassinato é que tira Breno desse torpor.

Enquanto isso, Breninho, seu filho, curte os últimos dias com os amigos, prestes a deixarem o Recife. Apesar de estarem também contaminados por essa melancolia agridoce, é esse grupo que representa uma possibilidade de movimentos e relacionamentos mais abertos, adeptos do amor livre.

Inicialmente, Breno está com a amiga já conhecida da família, Penha (Amanda Beça). Juntam-se a eles o casal Indira e Ângelo (os atores baianos Safira Moreira e Leandro Vila). Mas até o final do filme, os casais vão se reorganizar de acordo com os desejos momentâneos de cada um, ainda no clima poliamor desse Carnaval glorioso que só acessamos através de imagens passadas – Penha coleta uma série de imagens para sua pesquisa sobre o corpo no Carnaval.

Breno, o pai, é muito diferente do personagem vivido por Irandhir em Tatuagem (2013), longa anterior de Lacerda, e são os jovens os responsáveis por imprimir esse espírito libertário em contraponto ao conservadorismo que parece reinar mesmo no Recife da folia – conservadorismo esse que tem mostrado cada vez mais as suas garras em qualquer lugar do país, reflexo do governo Bolsonaro.

Ainda que por vezes faça essa crítica de um modo um tanto pedante e expositiva demais – como na cena da abordagem policial na praia quando as meninas fazem topless –, o filme parece mesmo refletir um tempo de incertezas e atrasos em relação às conquistas democráticas e à construção de um Estado mais igualitário e diverso.

Hipocrisias sociais

Por outro lado, o caso policial da francesa assassinada surge como um pano de fundo nebuloso, ainda que tratado sem pressa ou urgência na crônica policial brasileira. Mas o filme aproveita essa situação não só para perturbar ainda mais a rotina de Breno, como também para apontar certas hipocrisias sociais, tão ao gosto do diretor de Tatuagem.

A francesa, que só vemos através de imagens, é casada com um jovem rapaz brasileiro (Ariclenes Barroso), de origem burguesa – junto com a mãe (Susy Lopes), também casada com um francês (participação inusitada do produtor Jean Thomas Bernardini), formam a típica família classista branca e endinheirada, que adora soltar o verbo e destilar seu desprezo contra o Brasil.

Vale notar a inclusão inusitada de uma mídia alternativa que possui certa relevância na trama, o podcast Dracma. Tal como um programa jornalístico underground que investiga os casos policiais nebulosos da cidade sob uma ótima mais ácida e sem amarras políticas, ele também serve para espezinhar a vida pessoal de Breno, fazendo voltar também os conflitos familiares, acentuando seus erros do passado.

Fim de Festa é esse conto melancólico que encontra um país emaranhado em uma (eterna?) luta de classes, assim como descobre seus personagens mergulhados em seus tormentos particulares. O macro e o micro se fundem num retrato de Brasil que ama festejar – ou que precisa disso para continuar suportando a realidade –, mas precisa também despertar quando a festa acaba.

Fim de Festa (Brasil, 2019)
Direção: Hilton Lacerda
Roteiro: Hilton Lacerda

*Publicada originalmente no Jornal A Tarde (edição de 09/03/2020)

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