Festival Varilux (parte III): Tons de negro


Vênus Negra (Vénus Noire, França/Itália/Bélgica, 2010)
Dir: Abdellatif Kechiche

Os filmes anteriores do tunisiano Abdellatif Kechiche sempre estiveram interessados em mostrar a forma como imigrantes árabes lutam para viver na Europa contemporânea (como revelou no ótimo O Segredo do Grão e em A Culpa é do Voltaire), em especial na França, país onde o cineasta cresceu e se formou.

Em Vênus Negra ele faz um caminho mais audacioso. Retorna a inícios do século XIX para contar a história da sul-africana Saartjie, de porte físico avantajado, principalmente nas nádegas, trazida para Londres onde era exibida num espetáculo grotesco como uma selvagem. Junta-se a isso o fato dela possuir uma genitália deformada e protuberante que posteriormente será explorada também como mais um fator exótico a ser exposto.

Por mais que suas apresentações sejam uma farsa (nos espetáculos ela fingia ser uma besta fera que só entendia seu idioma natal e estava sendo domesticada por seu dono, embora tivesse plena consciência do que estava fazendo), é visível na personagem toda a humilhação e sofrimento que tem de passar. Nesse sentido, a personagem encontra na novata Yahima Torres, principalmente através de seu olhar, a expressão exata do rebaixamento, numa atuação que exige muito de entrega física e emocional.

Se os primeiros espetáculos em Londres eram feitos para plateias populares, ela será confrontada também com a alta sociedade francesa, da mais fina e rica à mais vulgar, num freak show dos mais aviltantes. Seus aportes físicos eram comuns nas mulheres da tribo hotentote, da qual fazia parte, mas era tratada como aberração, servindo não só para a curiosidade racista europeia, como também para estudos científicos que tentavam provar a semelhança dela e de seu povo com primatas, forma de atestar a inferioridade dos negros (ela, inclusive, é batizada e recebe um nome católico, Sarah). É bom lembrar que poucos anos depois a Europa avança no processo de neocolonização da África e Ásia.

Com a força de suas imagens, Vênus Negra se estende por mais de 2 horas e meia, como se Kechiche quisesse imprimir um tom geral de desconforto, muito embora se mais enxuto, o filme teria um ritmo mais palatável. De qualquer forma, o efeito é potencializado pelo constrangimento que somos obrigados a presenciar. Por isso é que quando o filme chega ao fim, o silêncio é mortal na plateia.

PS: Cenas exibidas durante os créditos finais são importantíssimas e sintomáticas da tentativa de fazer justiça a uma mulher retirada do continente africano, seu lar, para se expor e servir ao bel-prazer do homem branco, representativo latente de milhares de tantos outros negros que tiveram o mesmo destino trágico, também por caminhos diferentes, mas da mesma forma desolador.

Um Gato em Paris (Une Vie de Chat, França/Holanda/Suíça/Bélgica, 2010)
Dir: Alain Gagnol e Jean-Loup Felicioli


Um Gato em Paris se apresenta como o “primeiro filme policial de animação para crianças”, como diz o material de divulgação. Nesse sentido, já de início percebemos um tratamento mais infantil dada à história do gato de vida dupla que de dia vive com uma garotinha e de noite acompanha um ladrão em suas aventuras pelos telhados de Paris.

O público-alvo do longa justifica a cópia dublada em português (embora não tenha visto nenhuma criança durante a exibição) e um texto bastante mastigado e redundante na forma como desenvolve os personagens e seus dilemas, além de distinções bem maniqueístas entre eles. O roteiro inclui um perigoso assaltante e sua gangue numa tentativa de roubar uma peça cara de museu. Por coincidência, esse mesmo criminoso matou o pai da menininha cuja mãe é policial e faz de tudo para prender o homem e fazer justiça.

É aí que o tom policial toma conta da história fazendo com que os personagens se cruzem no meio do roteiro, apostando numa série de coincidências. Ainda assim, não há nada de absurdo na trama que se desenrola com ritmo envolvente e bom senso de aventura, ajudado pelos econômicos 60 minutos de duração e embalada por uma trilha sonora digna dos melhores thrillers e muito bem utilizada na narrativa.

Num momento em que se celebra tanto a animação digital, Um Gato em Paris possui um traço bastante tradicional, se utilizando disso para dar forma a seus personagens; o ladrão, por exemplo, por sua enorme agilidade e senso de movimento, possui contornos físicos mais arredondados. Além disso, há um uso muito interessante da projeção de sombras nas paredes, reforçando o efeito sombrio da obra. Os diretores utilizam com muita inteligência a técnica da animação. Numa sequência, por exemplo, em que os personagens estão numa casa imersos na escuridão total, todos são desenhados somente com linhas brancas sobre um fundo preto. O efeito é dos melhores.

Por mais que se disponha a agradar as crianças com sua trama, há, por exemplo, uma inusitada referência ao cinema de Tarantino: um dos membros da gangue se revolta porque não quer que seu codinome seja Sr. Banana, da mesma forma que o personagem de Steve Buscemi não queria ser chamado de Mr. Pink em Cães de Aluguel. São detalhes assim que fazem ver uma animação não só direcionada para crianças, mas que pode e deve agradar a outros grandinhos por aí.

3 thoughts on “Festival Varilux (parte III): Tons de negro

  1. É, parece mesmo que perdi Vênus Negra, mas o horário era complicado. Fiquei ainda mais interessada depois da crítica.

    Quanto ao gato, é isso mesmo, simples, sem ser simplista. Eu gostei, só achei exagerado aquele final…

    bjs

  2. Gustavo, é bem forte e emocionalmente desgastante, o diretor parece querer nos que equivale ao peso da história que ele está contando. Tô pensando até em aumentar um meia estrelinha nele.

    De fato Amanda, um final artificial e apaziguador demais. Mas o restante do filme já faz valer. Vênus Negra não chegou aqui esse final de semana, mas vamos esperar.

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