Festival Varilux de Cinema Francês – Do cômico ao trágico

O Homem que Ri (L’Homme qui
Rit, França/República Tcheca, 2012)
Dir:
Jean-Pierre Améris
Apesar
do título, não há muito de comédia em O
Homem que Ri
, a despeito de uma cicatriz cruzando a boca do protagonista
que lhe empresta a feição de alguém que ri constantemente. Esse é o grande
drama de Gwynplaine, abandonado quando criança, visto como uma pequena
aberração. Vai com ele uma bebezinha, que mais tarde se descobre ser cega, encontrada
por ele nos braços da mãe morta.
Mas
eles irão encontrar acolhida junto a Ursus (Gérard Depardieu), um apresentador de
shows de variedades. Apesar do nome e do jeitão bravo e arrogante, ajudado pelo avantajado corporal do ator, carrega um
bom coração. Essa família que se forma a partir daí seria uma representação das
coisas puras, especialmente quando o filme precisar confrontá-los com uma
realidade que expõe injustiças e diferenças sociais, num exercício pobremente
maniqueísta que o filme forja na sua segunda parte.
Até
porque, no fundo, há dois filmes aqui: começa com essa descoberta de um lar que
essas duas crianças perdidas encontram via mundo do entretenimento e da graça,
ao mesmo tempo em que Ursus os transforma em novos companheiros de palco. A
marca facial de Gwynplaine se torna um elemento de atração. É quando o circo de
horrores se transforma em encantamento, e a “imperfeição” de Gwynplaine passa a ser
explorada a fim de manter o trabalho do grupo.
Esses
são os melhores momentos do filme, quando se percebe o diretor de Românticos Anônimos (trabalho anterior
de Améris), espirituoso e flertando com a comédia romântica. Agora já crescidos,
não é de se estranhar que os dois jovens surjam como par amoroso. Há algo de
fantasioso também no estranho dom de Déa (Chista Theret) em prever o futuro, a
despeito de sua cegueira.
Mas logo o filme se transforma e perde o encantamento. O passado de
Gwynplaine, (agora interpretado por Marc-André Grondin), bate à porta,
abrindo-lhe a possibilidade de viver em outra realidade social. É quando o
filme abusa do maniqueísmo, tenta fazer crítica social, se aproxima do drama
trágico, e se sai pior.

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