Festival do Rio – parte II

Os Exilados Românticos (Los Exiliados Románticos, Espanha, 2015)
Dir: Jonás Trueba

 

Gratíssima surpresa esse filme espanhol meio que perdido na programação do Festival do Rio. Os Exilados Românticos é drama minimalista sobre pequenos enlaces amorosos, do ponto de vista masculino, que não tem pressa de contar sua história, nem quer que ela ganhe cores intensas. Três amigos viajam para Paris como se estivessem de passagem, mas cada um deles guarda um amor mal resolvido, uma questão de coração que vai ter seu tempo para ser posto à prova, de florescer ou secar.

Não há aqui grandes amores impossíveis ou avassaladores. O tom é sempre ameno, os encontros podem ou não render futuros casais apaixonados, mas nos deixa ver possibilidades amorosas ali. Interessante como o filme reserva um tempo para que cada um dos três personagens estabeleça seu encontro com uma mulher, discuta e ponha em questão seus sentimentos, da forma mais franca e palpável possível.

Pode ser visto como um filme de três segmentos distintos, ainda que exista um clima de conjunto que funciona muito bem numa espécie de road movie casual. Além da sintonia entre os atores, os diálogos apostam no prosaico, sem traços de pretensão. Algumas das muitas escolhas musicais podem deixar a desejar, mas o que vale é o espírito de melancolia e companheirismo que o amor permite e que o filme capta tão bem.

 

Grandma (Idem, EUA, 2015)
Dir: Paul Weitz

 

Divertidíssima essa comédia dramática de tons familiares que acompanha duas personagens no percurso de um dia, batendo-se no caminho com questões e conflitos que não estavam na superfície. Quem aciona essa bomba relógio é a jovem Sage (Julia Garner) que precisa apelar para a avó Elle (uma inspiradíssima Lily Tomlin) a fim de conseguir dinheiro para fazer um aborto.

Não demora muito para que as personagens e suas relações conflituosas venham à tona, nem demora muito também para percebermos o quanto de rancor e desavença existe entre aquelas pessoas. Mas Grandma faz disso uma narrativa também hilária, no melhor estilo agridoce. A história avança com precisão e sem pontas soltas e só perde a força quando aposta no drama mais gritado.

Parece um filme feito para Lily Tomlin brilhar. Ela encarna magistralmente a avó rabugenta, desbocada e independente, de difícil trato por conta de uma personalidade forte e explosiva, capaz de machucar qualquer um com algumas poucas frases ácidas e super sinceras, cospe na cara de qualquer um verdades evidentes, sem piedade. Esse espírito irascível já se mostra presente desde a primeira cena quando ela termina o relacionamento amoroso com a jovem Olivia (Judy Greer) de forma duríssima.

A avó também está mal de dinheiro, mas para ajudar a neta sai de carro com ela visitando amigos que possam conseguir a grana de imediato. O filme pode ter uma estrutura convencional, narrativa indie com pitadas de road-movie que mais vale pelo percurso percorrido e pelas pedradas dadas e recebidas no meio do caminho do que necessariamente pelo resultado final. O roteiro assinado pelo diretor Paul Weitz é um grande acerto de precisão e fluidez, com tiradas impagáveis, sabendo também ser carinhoso com seus personagens mesmo quando eles não são com os demais.

 

Rainha do Mundo (Queen of Earth, EUA, 2015)
Dir: Alex Ross Perry

Alex Ross Perry continua em sua inclinação indie-retrô criando personagens excêntricos em meio a uma atmosfera de fotografia setentista, o mesmo que vemos no recente Cala a Boca, Philip. Rainha do Mundo é um tour de força entre duas atrizes, donas de personagens que se passam a conviver juntas depois que Catherine (Elizabeth Moss) é abandonada pelo namorado – uma cena inicial ótima. A outra é sua amiga Virginia (Katherine Waterston), que acolhe a moça em sua casa de campo. Os dias passam, o verão é ameno, o clima ao redor é de paz e tranquilidade, mas as farpas surgem entre elas com a mesma facilidade com que se diz “bom dia”. Esse embate poderia enriquecer uma história que apostasse no aprofundamento de duas personalidades realmente fortes, mas o resultado parece o oposto: elas vão se tornando cada vez mais impenetráveis, distantes.

Parece mais interessante à narrativa que os altos e baixos das personagens surpreendam sempre na próxima atitude a tomar: amigável, agressiva, irônica, brincalhona? Ross Perry brinca o tempo todo com essas expectativas e corre o risco de soar muitas vezes vazio, desgastando o filme.

A presença de algumas figuras masculinas, como o namorado de Virginia, só acrescenta mais alguma excentricidade nas relações de convivência que o filme apresenta. Se Moss e Waterston têm muitos momentos para brilhar, juntas e separadas, o filme também abusa de certos tiques e comportamentos esquisitos, o que enfraquece uma construção mais potente dessas mulheres que acabam como simples garotas mimadas.

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