Estados Unidos vs. Billie Holiday

A voz suprema da dor*

O diretor Lee Daniel guardou seu novo projeto para os últimos momentos da corrida rumo ao Oscar. Estados Unidos vs. Billie Holiday apareceu na disputa muito recentemente nesta temporada atípica e só conseguiu uma indicação para Melhor Atriz (Andra Day), que acabou não levando a estatueta para casa. O filme chega agora para o púbico brasileiro através do Amazon Prime Video.

Como uma cinebiografia convencional, Estados Unidos vs. Billie Holiday dá conta de narrar a trajetória de altos e baixos da diva do jazz moderno. Vai da fama e estrelato a partir dos anos 1930, sendo uma mulher negra dentro de uma sociedade extremamente racista, aos diversos casos de violência, abuso, o vício em álcool e drogas, problemas que a acompanharam até sua morte por complicações cardíacas e hepáticas em 1959.

É um dos casos em que vida e obra se complementam de forma simbiótica já que sua música e sua voz inconfundível cantaram a tristeza e a dor, coisa que faz parte de sua vida desde a infância. Nasceu de pais adolescentes e foi criada por uma tia. Estuprada quando tinha apenas 10 anos de idade, voltou a morar com a mãe no submundo do Harlem, onde foi obrigada a se prostituir antes de completar 15 anos.

Mas a música lhe salvou, ou pelo menos lhe tirou daquele ambiente, quando buscou emprego em um bar da região e começou a cantar na noite. Foi ali que produtores da CBS a viram e lhe convidaram para gravar seu primeiro disco, sendo ela apenas uma cantora amadora sem educação formal na música. O talento estava no sangue e seu destino estava traçado.

Todo esse retrato é composto por Daniels no filme. Mas, para além de uma vida atribulada, sendo explorada por seus muitos maridos e empresários seguintes, e sem conseguir se desvencilhar das drogas e álcool, Billie Holiday também foi perseguida e vigiada de perto pelo governo norte-americano.

O título do filme faz referência a esse tipo de embate sorrateiro que se deu contra ela, muito por conta dos problemas com narcóticos, uma das frentes contra as quais a polícia lutava à época. O longa mostra, por exemplo, como o agente federal Jimmy Fletcher (Trevante Rhodes), que era negro, foi usado como um infiltrado a se passar por fã de Holiday para lhe vigiar os passos. Mas o filme destaca ainda que a cantora incomodava muito por conta da sua polêmica canção Strange Fruit.

Encarando o racismo

Gravada em 1939, Strange Fruit tornou-se um sucesso e ajudou a consolidar a carreira de Holiday. Por outro lado, é uma canção lírica que narra um linchamento contra pessoas negras, retrato tenebroso que era muito comum naquela época nos Estados Unidos – o filme começa com um letreiro informando que uma lei contra linchamentos de pessoas afroamericanas foi avaliada pelo Senado, mas recusada.

Era então uma música de protesto que fazia o público lembrar – aqueles que conseguiam interpretar bem suas metáforas – os casos de agressão e bestialidade contra pessoas negras, suprassumo do racismo introjetado naquela sociedade. A partir disso a cantora passou a ser perseguida pelas forças do Estado que não queria que ela contasse aquela música nos seus shows, apesar dos pedidos do público.

O filme mostra momentos em que Holiday chegou a ser detida e presa por desacatar esta ordem, tendo sua licença para se apresentar publicamente suspensa por algum tempo. Soma-se a isso as perseguições e acusações de uso de entorpecentes, algumas vezes plantadas, o que a levou ao tribunal e uma tentativa de destruir sua carreira.

Billie Holiday, portanto, pode ser vista como um símbolo da luta contra o racismo, já naquela época, em que poucos artistas e pessoas públicas se envolviam em questões de caráter político – especialmente pessoas negras, simplesmente porque poucas delas viviam no estrelato. E Strange Fruit tornou-se um símbolo, um libelo antirracista, sendo gravada por diversas vozes após a morte de Holiday.

Pulso fraco

Parece bem difícil contar a história de Billie Holiday sem passar pelo sofrimento, pela humilhação e toda sorte de violência e abuso que faz parte de sua biografia. E é uma pena que essa missão tenha caído nas mãos de um cineasta tão limitado como Lee Daniels (diretor de Precisa: Uma História de Esperança e O Mordomo da Casa Branca).

Seu filme não consegue se desvencilhar desse ar pesaroso, ultrapassar o retrato da grande diva sofrida e refém dos seus próprios demônios. Não se trata aqui de querer desviar de temas e questões de difícil digestão em prol do talento e da maestria musical da cantora. Porém é sempre muito delicado tratar tais assuntos sem que o filme não pareça se escorar neles, em uma tentativa de angariar a atenção e a compaixão do espectador através do miserabilismo.

Andra Day faz o que pode para conferir dignidade ao papel. Sua presença é, de fato, bastante forte no filme, muito embora ela seja dirigida de modo a sempre parecer lamentosa e entristecida, por vezes durona, com olhar baixo e pouquíssimos momentos de genuína felicidade.

Isso se mostra mais fragrante quando o filme volta no tempo para marcar as experiências traumáticas da cantora na infância e juventude. Ou quando se dedica aos seus desastrosos casamentos e casos românticos – ela chegou a ter um affair com a atriz de cinema Tallulah Bankhead.

É certo que a vida e a obra da cantora conduzem muito para este lugar de desacordo e instabilidade, mas mesmo aí falta um pulso mais forte na direção. Estados Unidos vs. Billie Holiday não sai do modo mais básico de se fazer uma cinebiografia, ainda mais uma que carregue um discurso revanchista.

Estados Unidos vs. Billie Holiday (The United States vs. Billie Holiday, EUA, 2021)
Direção: Lee Daniels
Roteiro: Suzan-Lori Parks e Johan Hari

*Publicado originalmente no Jornal A Tarde (edição de 09/05/2021)

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