Druk – Mais uma Rodada

Beber para viver mais*

A premissa do filme é um tanto estapafúrdia: um pequeno grupo de professores de uma escola de ensino médio acredita em uma tese de que o teor de álcool no sangue, acima do normal, melhoraria seu desempenho em sala de aula, preparando assim melhor seus alunos para os exames de admissão nas universidades. Os professores passam, portanto, a beber durante todo o dia, desde que acordam.

Druk – Mais uma Rodada é o novo filme do cineasta dinamarquês Thomas Vinterberg, que alia certo tom de absurdo, um pouco de comédia farsesca e também os dramas pessoais de seus personagens nessa história descabida, mas levada a sério pelos quatro amigos. Martin (Mads Mikkelsen) é o personagem principal que guia essa trama, e sua atual falta de concentração e perda de foco em sala de aula, além do desânimo no casamento, o levam a embarcar na tal ideia de encher a cara.

O curioso é que o plano deles dá certo: Martin e seus amigos começam a dar aulas muito mais animadas e interessantes depois que tomam umas e outras no café da manhã, conquistando a atenção dos alunos e despertando seu interesse nos estudos. Fazem isso escondidos, por motivos óbvios, mas vão se tornando cada vez mais dependentes do novo “método”.

O filme encerrou a programação da Mostra de São Paulo ano passado e chega agora às plataforma de streaming (NOW, iTunes/Apple TV, Google Play e YouTube Filmes), depois de conquistar uma vaga na categoria de Filme Estrangeiro. Mas conseguiu também uma indicação como melhor diretor, para Vinterberg, ele que já filmou em Hollywood (Querida Wendy, Longe Deste Insensato Mundo), o que o torna franco favorito na categoria dos estrangeiros.

O ator Mads Mikkelsen também é uma figura carimbada em Hollywood (já foi vilão em filme de 007 e protagonizou a série Hannibal), além de já ter trabalhado antes com Vinterberg no premiado e duro A Caça, em que vivia também um professor, mas dessa vez acusado de abuso sexual.

Agora, ao repetir a parceria, o ator confere mais uma vez a dimensão dramática a um personagem angustiado e desanimado pelos rumos da vida, entediado profissionalmente e vendo a idade chegar. A saída que a bebida lhe oferece parece mais uma forma de tapar o sol com a peneira, em prol de uma autoestima passageira. Mas a tática, surpreendentemente, começa a funcionar.

Armadilhas

É certo que o filme cria essa premissa estranha, um tanto cômica e traquinamente irresponsável, mas escora-se demais em situações e detalhes da trama pouco verossímeis. A própria ideia de que os níveis elevados de álcool no sangue ativam uma percepção maior para o mundo é um tanto difícil de acreditar por si só.

O roteiro força um tanto o sucesso dessas ações para que os personagens realmente acreditem que eles estão no caminho certo e passem a se afundar ainda mais nas suas convicções e conflitos internos, além de “entortar o caneco”.

Um exemplo disso é quando a diretora do colégio – depois das suspeitas de que alguém está consumindo bebidas alcóolicas nas dependências da escola – faz uma reunião para expor a situação junto aos professores. Neste momento, um dos amigos de Martin entra na sala visivelmente embriagado e trocando as pernas; o que poderia ser a comprovação das suspeitas da diretoria, torna-se apenas um momento engraçado e constrangedor que passa batido e só terá consequências futuras para o professor.

O filme precisa que esses momentos funcionem, seja como força dramática ou como comédia involuntária e descabida; do contrário, a trama não decolaria. As intenções são ótimas, mas necessita de um suporte narrativo um tanto frágil para alcançar seus intentos.

Cair e levantar

No entanto, Druk – Mais uma Rodada consegue oferecer uma virada no terço final da trama capaz de sustentar muito melhor suas ideias e reais propósitos – que claramente não passam por um puro elogio à embriaguez. A realidade cai no colo daqueles homens até então autoenganados por suas próprias vontades.

É quando o filme diz de fato ao que veio e revela seus temas: é sobre saber envelhecer ou sobre encarar de vez o envelhecimento que se avizinha; é sobre a pulsão de vida e o vigor das pessoas, algo que independe da idade de cada um; é sobre ser exemplo para os mais jovens (no caso, família e alunos) e, em troca, pegar emprestado um pouco de sua juventude e vitalidade.

Não à toa, o filme se inicia com uma farra de bebida com jovens, provavelmente os estudantes daquela escola, muito livres e um pouco inconsequentes, em contraposição ao comportamento careta dos adultos.

E isso faz um paralelo muito interessante com a sequência final do filme, este sim um momento memorável e pulsante, também surpreendente na maneira como consegue traduzir esse ímpeto de frescor e energia de vida. Não é preciso dar detalhes, mas basta dizer que o filme promove uma catarse libertadora ali. Esse momento final é realmente o ponto alto do filme, cena maravilhosa. Pena que o filme todo não seja tão bom quanto esta cena, mas termina a trama muito melhor do que começou.

Druk – Mais uma Rodada (Druk, Dinamarca/Suécia/Holanda, 2020)
Direção: Thomas Vinterberg
Roteiro: Thomas Vinterberg e Tobias Lindholm

*Publicado originalmente no Jornal A Tarde (edição de 28/03/2021)

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