51º Festival de Brasília: Domingo

Começo aqui a cobertura da 51ª edição do Festival de Brasília que contou com a exibição do longa-metragem Domingo, codireção de Clara Linhart e Felipe Barbosa, na noite de abertura. Junto com o curta Imaginário, de Cristiano Burlan, a sessão inaugural do evento trouxe à tona a veia politizada que promete ser a tônica desta edição, num ano tão conturbado politicamente.

E Domingo possui um ponto de partida bem factual: a data em que Lula tomou posse de seu primeiro mandato em janeiro de 2003. Nesse momento, uma família de classe média alta se reúne para um churrasco inofensivo de ares dominicais em uma propriedade rural no interior do Rio Grande do Sul.

É claro que não demoram a surgir os muitos conflitos entre os personagens, as rusgas internas e desentendimentos, em que entram em jogo não somente os sentimentos pessoais de uns pelos outros, quanto os choques de classe e em alguma medida certas discussões políticas mais evidentes.

O filme tem o claro objetivo de lidar com um retrato de Brasil a partir de um microcosmo familiar, apontando as hipocrisias de uma classe privilegiada que se revela tão corroída e mesquinha em seus princípios e ideologias. Junta-se a isso a relação com os empregados da casa, tipo de tensionamento que sempre vai render problematizações significativas sobre o modelo de estratificação social sob o qual vivemos. E isso é louvável enquanto retrato de uma sociedade desigual. No entanto, Domingo não consegue ir muito longe nesse tipo de discussão para além de ilustrar tais situações de embate familiar e social, uma vez que o ponto de chegada é tão previsível: fazer um comentário sobre a falência e o cinismo dos valores de um grupo social.

Muitos outros filmes brasileiros já fizeram isso nos últimos anos (O Som ao Redor, Aquarius, Que Horas Ela Volta?), com resultados bem melhores, incluindo produções dos próprios realizadores. Não dá para não pensar nas similaridades com Casa Grande, por exemplo, filme com direção do Felipe Barbosa – inclusive porque Domingo é quase como um desdobramento da famosa (por que divide opiniões) cena do churrasco de Casa Grande, como se aquela cena ganhasse vida e um filme só dele aqui.

Também Clara Linhart dirigiu um curta precioso há alguns anos chamado Luna e Cinara, que registra o cotidiano de uma patroa e sua empregada e a relação de proximidade entre elas. Na mesma medida em que há carinho e gentileza entre as duas, há diferenças que são inegáveis, escancarando ali o conflito de classes de forma muito sutil, mas potente, justamente por conta de uma sutiliza que faz um tanto de falta nesse novo filme.

Agora, em Domingo, trafegam por aquela casa muito mais personagens, e talvez resida aí uma outra dificuldade do filme: tentar dimensionar cada um deles, lhes trazer mais complexidade. Na maior parte das vezes, eles acabam soando como estereótipos fáceis – a dondoca folgada e estripulenta, a matriarca ultraconservadora, o filho que é um artista desprezado, os adolescentes com hormônios à flor da pele.

E nem mesmo certas pitadas de afeto, demonstradas aqui e ali, conseguem esse feito. Isso, aliás, é uma marca que já aparecia lá em Casa Grande: apesar de colocar em xeque os valores de uma burguesia brasileira cheia de preconceitos, o filme nunca os ridicularizava, nunca ou punha em situação de desprezo. É um modo de olhar com mais verdade para nossa realidade, algo que não nos pode escapar quando queremos fazer um comentário crítico sobre o comportamento do outro, sem caricaturas simples.

Em Domingo, algumas cenas chegam perto disso (como no momento em que o pai sugere que vai brigar com o filho pequeno porque ele está vestido de mulher, e a cena acaba numa cumplicidade surpreendente – ainda que seja forçoso que antes disso o pai pareça tão agressivo). Mas o que sobressai são esses lugares cômodos em que o filme só consegue comentar um traço já demarcado de cada uma daquelas pessoas.

O jogo de encenação que os diretores constroem é realmente muito bom, criando uma polifonia de vozes curiosa, com grande parte das cenas em que vários atores disputam a atenção no quadro. Essa “confusão” cênica acaba reforçando também uma dificuldade de atenção: ao querer explorar muito, pouco se sobressai. Existe um louvável esforço para jogar sobre tais personagens discussões que, a contragosto, o filme não consegue avançar. Tanto já se falou e mostrou antes sobre essas mesmas questões que Domingo só consegue ficar à sombra.

Domingo (Brasil, 2018)
Direção: Felipe Barbosa e Clara Linhart
Roteiro: Lucas Paraízo

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