Dilili em Paris / Entrevista com Michel Ocelot

Aventuras na Cidade Luz*

Michel Ocelot é o célebre diretor e animador francês responsável pela maravilhosa série do personagem Kirikou (um garotinho africano que nasce numa aldeia e vive muitas aventuras fabulares). Agora, Ocelot aporta em Paris pela primeira vez em sua carreira (depois de muitos filmes que lidam com lendas de tempos remotos) com Dilili em Paris, mantendo intactos os mesmos predicados que marcaram seus filmes: um cuidado ímpar na representação infantil e o gosto pelo lúdico.

Mas não é a Paris atual que encanta o realizador. O filme aporta na Belle Époque, período de apogeu cultural, artístico e urbanístico parisiense, momento de glória que antecede a Primeira Guerra Mundial. Ali conhecemos a jovem Dilili, uma garotinha proveniente da Nova Caledônia, uma das colônias francesas na Oceania. Negra de pele clara, ela é vista por muitos como personagem exótica.

Mas não o é para Ocelot, como a própria Dilili faz questão de provar no filme. Em conversa via email com o A TARDE, o cineasta falou sobre sua criação: “Eu gosto de tudo na Paris da Belle Époque, com uma exceção: todo mundo era branco (embora de países diferentes). Eu sentia falta de alguma variedade. Graças a retratos da época, encontrei um garçom chinês, um palhaço negro, um poeta tunisiano, e acrescentei uma de minhas invenções, a pequena “mestiça” de um lugar longínquo”.

Dilili é filha de mãe francesa e pai nativo. Assim como seus melhores personagens, as crianças de Ocelot estão longe da ingenuidade. Dilili é inteligente, sagaz, não se deixa enganar fácil; apesar do tamanho, tem língua afiada e um ótimo senso de observação. Nas suas andanças pela cidade, ela que vai comentar, com certa acidez, os costumes da época. “Foi divertido ter essa menininha ‘nativa’ julgando a prestigiosa capital”, complementa o diretor.

Luzes e trevas

Ao se situar na Belle Époque, Dilili em Paris acaba retratando todo o glamour e a efervescência cultural de uma época. Mas é capaz também de acontecer coisas atrozes ali. Nas andanças de Dilili pela cidade, junto com um jovem parisiense com quem trava amizade, eles irão descobrir uma gangue de homens maus que estão sequestrando garotinhas na cidade.

“É a configuração habitual: o bem e o mal. Estou impressionado com as coisas ruins que alguns homens fazem para mulheres e meninas, as coisas ruins em uma escala relativamente pequena, a vida cotidiana, e as coisas ruins em grande escala e relativamente aceitas por alguns grupos”, pontua o animador. Ocelot observa que este grupo, apelidado no filme de Mestres do Mal, é fictício, não corresponde a nenhuma organização verídica, mas reflete comportamentos re prováveis de homens que certamente existiram, lá e em qualquer época e lugar.

O filme trabalha, portanto, nessa contradição. Ao mesmo tempo em que se passa num momento de esplendor cultural, há algo de aterrador acontecendo nos subterrâneos da capital francesa. Os avanços nos costumes e comportamentos são contrapostos a certo conservadorismo que ainda era muito comum não só em Paris, como em todo o Ocidente, especialmente em relação ao papel das mulheres na sociedade.

Mas Ocelot pensa pelo lado positivo: “Mostrei o que acho que é o antídoto: a civilização e os homens que inventam, criam, em todas as direções, em vez de serem maus para as mulheres. Foi exatamente o que aconteceu naquela Belle Époque: muitos homens fazendo seu trabalho bem e respeitando as mulheres – e mulheres que se afirmaram, ao mesmo tempo que criaram e inventaram”.

Engajamento lúdico

O filme, aliás, vai fazer questão não só de mostrar esse apogeu cultural, como torná-lo parte da narrativa. Dilili e seu amigo vão contar com a ajuda de uma série de personalidades que se tornaram ilustres na época palas criações e produções que legaram ao mundo. Estão lá figuras como Marie Curie, Louis Pasteur, Jean Renoir, Rodin, Monet, Picasso, Camille Claudel, Emma Calvé, Proust. Até mesmo o brasileiro Santos Dumont tem papel importante no plano de resgate das garotas sequestradas.

“Estudar esses grandes indivíduos era, acima de tudo, um prazer. Admiro e amo essas pessoas, elas são ótimos exemplos para mim. Aprender mais sobre eles e desenhá-los (fazer um retrato é um assunto muito íntimo) foi uma grande alegria”, comenta Ocelot.

O traço de animação de Ocelot sempre teve um tom lúdico, e ainda remete aos desenhos feitos à mão em 2D (ainda que, atualmente, já se conte com a ajuda de artifícios digitais para facilitar o trabalho). Dilili em Paris, assim como seus demais filmes, não busca essa realidade da representação, apesar dessa vez ele lidar com uma matéria-prima palpável, que são as personalidades reais.

Mas é com essa proposta inventiva que ele irá criar esse conto de forte teor feminista. “É claro que era normal eu escolher uma garota para defender garotas”, conta o diretor que insere no filme um pensamento muito duro e retrógrado sobre como muitas pessoas enxergavam o lugar das mulheres naquela sociedade, algo que será amplamente combatido pela nossa heroína casual.

Por fim, Ocelot também registra seu interesse por outros espaços e culturas: “Ao longo dos meus filmes, tentei explorar lugares interessantes do mundo, tão ricos e emocionantes. Não está terminado! Dois países, que me inspiram, estão faltando: Itália e Brasil… estou trabalhando nisso”, confidencia o animador, deixando no ar a expectativa de possíveis aventuras em terras brasileiras.

Dilili em Paris (Dilili à Paris, França/Bélgica/Alemanha, 2018)
Direçao: Michel Ocelot
Roteiro: Michel Ocelot

*Publicado originalmente no Jornal A Tarde (edição de 15/02/2020)

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