Destacamento Blood

Desarmando bombas*

Faz pouco tempo desde que Spike Lee lançou o petardo que era Infiltrado na Klan (2018), um resgate histórico do que significou os movimentos de supremacia branca e sua política de opressão contra a população negra dos Estados Unidos, sob o ponto de vista de um policial negro que conseguia adentrar nos círculos da Ku Klux Klan.

Sendo um dos cineastas negros norte-americanos mais engajados na luta e na representação da cultura negra no cinema, Lee continua na pegada “revisionismo histórico”, agora para mirar na Guerra do Vietnã, especialmente a partir da história de soldados negros que foram enviados aos montes para a linha de frente de uma guerra fracassada.

Na trama, cinco amigos ex-combatentes que serviram naquele conflito retornam nos dias atuais ao país asiático com duas missões pessoais: primeiro, encontrar os restos mortais do amigo Norman (vivido por Chadwick Boseman, visto nos cinemas recentemente como o Pantera Negra); e também para resgatar um carregamento de barras de ouro que eles encontraram e esconderam à época.

Destacamento Blood é um filme que intercala os dois tempos narrativos. De um lado, vemos os momentos da guerra em que Norman era uma figura centralizadora do grupo, enquanto eles se arriscavam pela selva nas missões; e no presente, o reencontro entre os amigos, sempre a sentir a ausência de Norman, acrescidos das intrigas, cicatrizes e vicissitudes de cada um nesse retorno ao Vietnã contemporâneo, também marcado pelos embates armados e pela colonização.

Esta não é a primeira incursão de Lee nos enredos de guerra. Em 2008 o cineasta lançou Milagre em Sta. Anna que revisitava a Segunda Guerra Mundial, também a partir da experiência de soldados negros que serviram ao lado do Aliados, sendo desprezados depois. Apesar do tom politizado, o filme possuía certo tom incômodo de melodrama e pieguismo, algo que não encontramos no filme atual.

Metralhadora

Destacamento Blood, por sua vez, é um filme muito mais firme nos seus propósitos políticos. Em certa medida é um filme também um tanto desconjuntado, cheio de elementos e questões que Lee joga na tela sem ampliar. Porém, é nessa metralhadora de discussões que reside a sua força.

Os veteranos de guerra são homens mais velhos que carregam suas dores pessoais e familiares. Um deles é eleitor de Trump e defende a construção do muro contra estrangeiros. Outro possui uma filha desconhecida no Vietnã. Em certo momento, eles encontram um grupo de franceses que desarmam minas enterradas nos campos, o que aponta para a colonização francesa que também se deu no país.

Há ainda o guia vietnamita que os acompanha e os ajuda a chegar aos pontos exatos da floresta, sendo o pai dele também um combatente de guerra, do lado de lá. É também coma ajuda de uma ex-prostituta vietnamita, hoje uma mulher rica e independente, que eles buscam meios de sair do país com todo o ouro que pretendem resgatar.

Por todos os lados, Destacamento Blood encontra desdobramentos políticos e comentários ácidos e perspicazes para fazer sobre os traumas deixados pela guerra, o processo colonizador e sobre as implicações de sujeitos negros naquela situação – o que reflete o momento atual e sempre conflituoso da população afro-americana, especialmente em tempos de protestos atuais por conta do movimento “Black Lives Matter” nos Estados Unidos.

Nem sempre o filme consegue aprofundar todas essas questões, elementos e os dramas de todos os personagens a contento. O roteiro, aliás, tem alguns pontos um tanto questionáveis e forçados, o que faz de Destacamento Blood esse corpo por vezes desconjuntado, mas sempre muito potente na sua finalidade de colocar o dedo nas feridas. Muitas delas estão bem abertas.

Spike Lee faz do filme esse panfleto político sem pudores e lança mão de uma estratégia narrativa que o aproxima da realidade histórica. O filme é recheado de materiais de arquivo, cenas e excertos documentais, do passado e do presente, que vão desde depoimentos de Muhammad Ali, Angela Davis e Malcolm X, até registros de falas de Trump em meio à campanha presidencial em que ele sugere o apoio da população negra a sua candidatura – algo que um personagem mais adiante irá questionar. São cenas que aparecem em meio às falas dos personagens, o que reforça esse lado militante e pedagógico de Lee e sua preocupação com a formulação da História.

Mentor intelectual

Nessa colcha de retalhos que o filme promove, é interessante pensar na figura de Norman como figura aglutinadora daquele grupo de amigos, sendo ele um verdadeiro mentor intelectual. Um dos personagens diz: “Ele era nosso Malcolm e nosso Martin”, em referência aos dois grandes líderes e ativistas da causa negra nos Estados Unidos.

Daí que o retorno ao Vietnã também para encontrar os restos mortais de Norman acaba sendo muito simbólico narrativamente porque sugere uma necessidade de resgate das memórias e aprendizados que a população negra nutriu e continua forjando, em conjunto, a fim de combater as mazelas da opressão.

Em outra medida, Destacamento Blood é ainda um filme sobre a amizade e sobre os laços fraternais que se fortalecem em comunhão nos espaços de luta – seja nos campos de batalha, seja na vida cotidiana nos centros urbanos –, mesmo que tais relações precisem levar em consideração as diferenças de pensamento e comportamentos.

A América (os Estados Unidos, em suma, mas também qualquer outro país que vive e foi forjado por duros conflitos raciais) é, no fundo, essa grande bomba, acoplada a um barril de pólvora, que precisa ser desarmada. Lee, apesar do discurso afiado e combativo, parece apontar para algum tipo de conciliação e integração, a partir das diferenças individuais, que seja forte o suficiente para combater as opressões. O problema mesmo é que são muitas bombas ainda a desarmar.

Destacamento Blood (Da 5 Bloods, EUA, 2020)
Direção: Spike Lee
Roteiro: Spike Lee, Danny Bilson, Paul De Meo e Kevin Willmott

*Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 28/06/2020)

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