Curtinhas

Entre Irmãos (Brothers, EUA, 2009)
Dir: Jim Sheridan

Talvez meu erro foi ter visto esse filme depois de conferir o longa original do qual foi adaptado. O filme dinamarquês de Susanne Bier (que realizou o excelente Depois do Casamento) é um bom trabalho somente, mas possui um ótimo material que a versão norte-americana copia descaradamente, numa adaptação vazia e sem emoção. O tipo de trabalho mecânico que é filmar uma mesma história de um mesmo jeito. O irlandês Jim Sheridan podia muito bem não ter manchado sua filmografia com esse trabalho.

A história gira em torno de uma mulher (Natalie Portman) cujo marido (Tobey Maguire) é mandado para uma missão no Afeganistão como líder de uma equipe militar, mas acaba sofrendo um atentado e é dado como morto. Assim, sua esposa acaba se aproximando do cunhado (Jake Gyllenhaal), recém-saído da cadeia. Mesmo que a adaptação seja bastante fiel, fica explícita a falta de intimidade com o material original porque os personagens são todos complexos, mas o filme parece não saber o que fazer com eles e com as situações nas quais esbarram. Tudo soa frio e distante demais.

PS: num ano em que vimos Werner Herzog se apropriar de um filme para fazer uma versão totalmente pessoal e pertinente a seu projeto de cinema, Entre Irmãos é mais uma vergonha da onda de remakes atual.

Mary e Max – Uma Amizade Diferente (Mary and Max, EUA/Austrália, 2009)
Dir: Adam Elliot

No longa Nunca Te Vi, Sempre Te Amei, Anne Bancroft e Anthony Hopkins, ela nos Estados Unidos, ele na Inglaterra, travam uma longa amizade através de cartas. É justamente essa a premissa de Mary e Max, animação australiana, esnobada no Oscar, sem motivo aparente. O tom do longa é um tanto diferente, mas traz um roteiro tão gostoso e, ao mesmo tempo, complexo na construção de seus personagens, que é, desde então, uma das grandes produções do ano.Mary é uma garotinha australiana solitária que por acaso resolve escrever para alguém nos EUA.

Esse alguém é o problemático e sociofóbico Max. A troca de correspondências entre os dois serve não só para que eles “desabafem” suas preocupações um com o outro, mas também para que o espectador passe a conhecê-los melhor. A riqueza de características, bem como seus medos, anseios e angústias diante do mundo, são revelados através de boas doses de humor. Mas o filme nunca pesa a mão no drama nem na comédia. O trabalho de direção de arte é primoroso em detalhes, caracterizando bem o estilo de vida dos dois. No fundo, são duas pessoas que mostram o quanto precisamos uns dos outros. Mas não de qualquer um.

Tulpan (Idem, Casaquistão/Alemanha/Suíça/Polônia/Rússia, 2008)
Dir: Sergei Dvortsevoy

Filme que fez enorme sucesso na Mostra de São Paulo em 2008 (depois de ter vencido o prêmio no Um Certain Regard, no Festival de Cannes), chegou aos cinemas brasileiros sem muito alarde. A própria narrativa do longa é mais contemplativa e sem clímaxes ou arroubos dramáticos. Mas é uma grata surpresa vinda, inesperadamente, do Cazaquistão, país de pouca tradição cinematográfica. A aridez dos desertos e as famílias pobres que vivem no meio do nada dão conteúdo para acompanharmos a história de Asa (Ashkat Kuchencherekov), jovem recém-chegado da guerra e que busca uma esposa. Mas a única pretendente do local, a Tulpan do título, lhe esnoba por causa das enormes orelhas que ele tem.

O filme possui aquele ritmo lento e atmosfera de contemplação, uma vez que praticamente nada acontece naquelas bandas. O filme segue como observação de um certo tipo de vida parada no tempo, mesmo que o protagonista esteja à procura de um rumo para sua vida (ele mora com a família da irmã, sob o olhar mal-humorado do cunhado). Mesmo assim, o filme nunca assume um viés panfletário de crítica social pedante, muito embora deixe espaço para esse tipo de indagação, a cargo do espectador (o mesmo tipo de sensação causada pelo documentário Camelos Também Choram). Mais vale ao filme acompanhar os descaminhos de Asa em busca dessa promessa de felicidade.

Import/Export (Idem, Áustria, 2007)
Dir: Ulrich Seidl

Merece um prêmio a pessoa que conseguir assistir a esse filme todinho de uma só vez. Import/Export passa como obra autoimportante para denunciar como os imigrantes europeus passam por maus bocados longe de seus países natais, na tentativa de conseguir vida melhor, mas só encontram humilhação e desprezo. O problema é que a gente já sabe disso há muito tempo e o filme acaba por se tornar um apanhado de lugares-comuns, filmado com uma câmera estática que valoriza longos planos como se isso fosse uma comprovação de uma certa estética para esse tipo de produto.

A ideia de importar/exportar pessoas, como se fossem mercadorias, é interessante, mas passa batido devido à falta de um mínimo de complexidade para os personagens. Cenas pornôs tentam conferir potência (e polêmica) ao filme, agregadas a uma sensação de humilhação, mas tudo soa raso demais. O filme de pouco mais de duas horas de duração parece ter cinco, tão maçante que é.

9 thoughts on “Curtinhas

  1. Finalmente atualizando…
    Gostei dos comentários sobre Mary e Max – Não de qualquer um – . Me deu vontade de ver esse "nunca te vi, sempre te amei", que você compara.

    Os outros não vi!

  2. Caramba, não vi nenhum desses filmes que você comentou! Mas o último, por mais polêmico e tedioso que possa ser, me chamou a atenção. Nem que seja pra depois dizer que é uma merda, deu vontade de conferir.

    Abs!

  3. Concordo, Wallace. E a beleza de Tulpan não é aquela exótica que se beneficia da paisagem, mas a beleza melancólia da busca por uma certa felicidade possível em meio àquela realidade. Muito bom!

    Elizio, da mesma forma que Mary e Max é sua cara, esse outro filme também pode te agradar muito. Recomendo. Dos outros filmes, Tulpan pode ser um boa dica, apesar de uma certa lentidão na narrativa. Mas é um belo filme e bastante sincero.

    Dudu, Import/Export, para valer a pena, precisaria se desvencilhar de um certo quê de denuncismo ultrapassado para ter alguma validade maior. Mas veja o filme para tirar a prova. Só espero que consiga chegar até o final.

  4. Matheus, não acho o elenco mal escalado, mas mal direcionado. Parece que nenhum deles sabia o que fazer, não havia consistência nas atuações (como em todo o longa). A impressão é que eles se acomodaram no material original, sem tentar oferecer nada de novo. E Mary e Max precisa mesmo ser decoberto porque está passando batido por muita gente. O filme é sensacional.

    Tomara, Gustavo. Também gosto do Sheridan, mas esse remake não me desceu.

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