Carnaval / Entrevista com Jean Pedro

Correndo atrás do trio… de likes*

Uma influenciadora digital (dessas cuja grande preocupação de vida é aumentar o número de seguidores no Instagram) descobre a traição do namorado e, para superar a crise, parte para o Carnaval de Salvador. Mas nem tudo são flores na vida de Nina (Giovana Cordeiro), já que ela aceitou participar de uma ação como influenciadora digital apenas para bancar a viagem.

Ela nem faz parte do grupo das grandes influenciadoras nacionais (como sua maior rival, Luana de Sertanzo, vivida por Flávia Pavanelli), afinal, ela não tem nem mesmo um milhão de seguidores no Insta. Mas Nina tem amigas, que vão seguir a viagem com ela para ajudá-la na sua conquista profissional e, de quebrar, curtir a tão badalada festa com todas as regalias possíveis.

Dirigido por Leandro Neri, Carnaval é uma produção original da Netflix e já se encontra disponível no canal de streaming. O filme busca atingir o público mais adolescente e/ou jovem adulto a partir dessa trama de amizades, romances e comédia, explorando um ambiente reconhecível: a Salvador que pulsa de alegria, axé, azaração, sol e mar.

Não deixa de ser flagrante nessa representação o tipo de imagem que o filme constrói sobre o próprio Carnaval: lugar de curtição, badalação e uma oportunidade de ser visto, reconhecido e alçado ao posto de celebridade das redes sociais – tudo que Nina mais deseja.

Isso porque a festa, como vista no filme, aparece muito mais como espaço de disputa de popularidade, especialmente para aqueles que conseguem se aproximar da estrela maior, o cantor baiano Freddy Nunes (Micael Borges). De qualquer sorte, as personagens do filme vivem aquarteladas, seja nas festas dentro do hotel cinco estrelas em que o anfitrião está hospedado junto com as grandes influenciadoras, seja nas baladas de camarote VIP.

A cor da cidade

Salvador é um verdadeiro personagem em Carnaval. Mas eu não estou falando da cidade em si (apesar dela ser ponto de discussão fundamental), mas do guia turístico que tem o nome da cidade. Salvador é interpretado pelo ator e cantor baiano Jean Pedro, que conversou com o ATARDE sobre sua participação no filme.

“É uma responsabilidade muito grande ter esse nome, aquele que salva a cidade e carrega o nome da soterópolis mesmo. A ideia desse Salvador, que também passa pelo meu olhar, é personificar a nossa alegria, nossa força de encarar os problemas e adversidades, mesmo estando numa festa de rua e sermos os anfitriões. Nós sabemos como fazer essa festa. Nós trabalhamos, damos conta de tudo e ainda assim nos divertimos”, afirma o ator.

Jean Pedro é um dos poucos atores baiano no elenco – além dele, Rafael Medrado faz um receptivo tímido que se envolve com uma das amigas de Nina, e Genário Neto interpreta o assessor da influencer Luana. Isso lança luz sobre o fato do diretor e dos roteiristas do filme serem quase todos de forma do Estado (exceção feita ao baiano Audemir Leuzinger que, junto com Luisa Mascarenhas, Peu Barbalho e o próprio diretor, assina o roteiro do longa).

Isso se reflete no próprio filme, na maneira como ainda permeia um olhar que busca alcançar lugares-comuns da representação da cidade e da festa. Por outro lado, Jean Pedro nos oferece outro ponto de vista em relação à construção da narrativa e a busca por escapar desse exotismo: “Nós fizemos um trabalho de base, batendo o texto na fase de preparação do filme, para poder deixar muito claro qual rumo a gente queria dar para aquela história”.

O ator também acentua um espaço de trocas e de escuta nesse processo prévio de filmagens: “Eu pude falar de uma visão mais contemporânea das coisas que estão acontecendo na cidade, do que poderia ser entendido de forma duvidosa ou não pelas pessoas. Um dos roteiristas é baiano e nós compartilhamos muitas ideias, assim como eu pude perceber o cuidado com o ouvir”, pontua Jean Pedro.

Carne de Carnaval

Ainda assim, o filme não parece fugir muito de uma visão comum que está a serviço de uma trama de entretenimento, na busca por uma identificação imediata do público – seja o local, sejam os turistas que por aqui já passaram ou aqueles que só conhecem de ouvido (e imaginário audiovisuais) os detalhes da vida soteropolitana em dias de folia. Mesmo quando busca mostrar às garotas outro lado da cidade, pelas mãos de Salvador, o filme ainda martela seus estereótipos.

Nesse sentido, o filme faz uma escolha confortável, e nada contestadora, dessa projeção exótica com que a cidade e a festa são normalmente tratadas no cinema e no audiovisual. Parece mesmo uma escolha muito consciente e destinada a criar um produto reconhecível e facilmente identificável.

Carnaval aposta em saídas fáceis, na concepção de um roteiro com ideias e viradas previsíveis e um tom de comédia muito primário e pouco engraçado de fato. Aliado a isso, tem-se um grupo de personagens que acompanham esse tom de tipos personificados.

Michele (Gessica Kayane – ela própria uma influenciadora digital conhecida) é a amiga nordestina mais serelepe; Mayra (Bruna Inocencio) é uma veterinária que possui fobia de multidões; e Vivi (Samya Pascotto) é uma veterinária nerd que anda disparando referências pops por aí – e procura um homem que saiba reconhecê-las.

Os caminhos que essas personagens, junto com Nina, vão percorrer na cidade e no Carnaval passam pela superação dos traumas ou pela afirmação de seu lugar no mundo, ainda que dito dessa forma soe bastante elevado. No fim das contas, é tudo muito simplório porque, desde o início, o filme pretende chegar a um lugar de afirmação da pura amizade, algo até mesmo dispensável porque já estava concretizado como tal.

Carnaval (Brasil, 2021)
Direção: Leandro Neri
Roteiro: Leandro Neri, Audemir Leuzinger, Luisa Mascarenhas e Peu Barbalho

*Publicado originalmente no Jornal A Tarde (edição de 06/06/2021)

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