A Vida Invisível

Dilemas do feminino frente ao patriarcado*

Desde que A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, venceu o prêmio principal da mostra paralela Um Certo Olhar do Festival de Cannes em maio deste ano, já se antevia ali um filme muito forte. A obra, que tem viajado para participar de diversos festivais no mundo, mira também um destino muito sonhado: Hollywood. A Vida Invisível é o representante brasileiro para a próxima premiação do Oscar e, apesar do páreo duro, as chances de indicação existem.

Independente disso, A Vida Invisível é um belo filme, melodrama cru e contundente que acompanha a vida de duas irmãs nos anos 1950, separadas pela força das circunstâncias. Jovens e cheias de vida, Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler) possuem uma amizade singular.

Elas vivem no seio de uma família de imigrantes portugueses cujo pai durão tenta manter as normas da casa de acordo com as regras da sociedade conservadora da época – e isso significa que, para a mulher, seu destino não é outro senão a vida como dona de casa, para cuidar do marido, criar e educar os filhos.

Guida, de personalidade mais arredia, logo se apaixona por um jovem aventureiro grego e foge de casa. A Eurídice resta seguir os passos da tradição e se preparar para casar com um “bom partido” (a ser vivido por Gregório Duvivier). Depois disso, as vidas das duas nunca mais serão as mesmas e elas sonham em poder se reencontrar novamente. O filme ainda conta com uma participação especial de Fernanda Montenegro.

Apesar de cearense e de morar atualmente em Berlim, Karim filmou a história no Rio de Janeiro, cenário original da trama escrita por Martha Batalha no livro A Vida Invisível de Eurídice Gusmão. As tramas das duas obras possuem desdobramentos bastante diferentes, mas o cerne dessa história permanece inalterado: o retrato angustiante de mulheres que abdicaram de seus desejos e anseios pessoais para viver uma vida pré-condicionada socialmente.

Dilemas femininos

Muito se tem falado sobre como A Vida Invisível é um retrato pungente da condição feminina, amargo no que possui de mais impositivo sobre a vida das mulheres. No entanto, o próprio Karim faz uma observação importante: “este não é um filme feminista, mas sobretudo anti-machista”. O diretor e duas das atrizes do filme fizeram uma rápida passagem por Salvador, já que o filme abriu o Panorama Internacional Coisa de Cinema no final do mês passado. Na ocasião, eles conversaram com A TARDE sobre o longa e a chances do Brasil no Oscar.

Ao pontuar o caráter anti-machista do filme, o cineasta propõe um olhar para as estruturas sociais que acabam ditando os caminhos tortuosos daquelas mulheres e os dilemas que fazem parte do cotidiano feminino. “Eu sou muito mais próximo do universo feminino do que o masculino. É um lugar onde eu negocio com muito mais fluidez”, afirma o diretor. Filho de mãe solteira, ele conta que sempre foi cercado por muitas mulheres na família. “Os personagens femininos são os que eu mais conheço e com os quais eu mais me conecto”, observa.

A Vida Invisível perpassa por temas que são muito caros às mulheres – maternidade, casamento, laços familiares. Mas tais obrigações, impostas às mulheres como imposições sociais são, muitas vezes, contrárias aos seus desejos pessoais. Eurídice apaixona-se pelo piano e pela música, sonha em entrar para o conservatório e ser uma grande pianista, mas tem uma casa para cuidar. Logo estará esperando por um filho não-planejado, além de aguentar o comportamento regulador e limitante do marido.

Guida, por sua vez, é iludida pelo amante e grego e precisa voltar, grávida, para o Rio de Janeiro. Renegada pela família, vai morar num cortiço e pena para sobreviver e criar um filho também indesejado – uma das cenas mais duras do filme se passa no hospital onde ela tem a criança. “Mais do que ser sobre mulheres, o filme revela como funciona o patriarcado, que é através da naturalização da violência”, observa Bárbara Santos, atriz que interpreta Filomena, mulher que acolhe Guida depois dela ser rejeitada pelo pai.

Força do melodrama

Com isso, A Vida Invisível alcança um tom agridoce porque equilibra muito bem a dureza e a doçura. O desejo do reencontro é o que move aquelas mulheres, enquanto elas tocam suas vidas da maneira como podem, não como desejaram que fosse. Guida e Eurídice escrevem cartas uma para a outra na tentativa vã de que essas comunicações cheguem à outra irmã, e isso dota o filme de uma delicadeza que contrasta com as agruras que elas vivem, traço muito comum no melodrama.

“Me interessa usar o melodrama não como algo sedutor, mas que é contundente politicamente. O melodrama lida com personagens que possuem dramas cotidianos, e o gênero nos ajuda a expor essas questões para causar angústia, gerar raiva”, afirma Karim.

O filme costura com muita fluidez os rumos que a vida de cada uma das protagonistas toma – e mantém até o fim o mistério sobre se elas se reencontram ou não. Há um olhar muito sensível do diretor para esses dramas que se inserem numa tradição de dramaturgia popular, mas que não significa condescendência, muito menos aposta na vitimização dos personagens.

“Era muito importante que a gente pudesse fazer uma obra que não parecesse um filme de época, que se passasse numa época tal, mas tivesse relevância hoje”, pontua o cineasta. “Com o que vem acontecendo no Brasil nos últimos anos, era fundamental negociar com um gênero que as pessoas entendam, com o qual elas são familiarizadas, e ao mesmo tempo ter um olhar crítico sobre o que está acontecendo”, completa Karim.

A Vida Invisível parte desses pressupostos para atualizar o melodrama e, com isso, expor as fraturas da sociedade. Com paixão, sensibilidade e boas doses de crueza. Se isso nos levará ao Oscar, não sabemos. Mas as cartas estão na mesa. “Eu tô muito feliz de como a gente pode fazer dessa campanha uma maneira de mobilizar o cinema brasileiro, pra gente se unir, e trazer mais visibilidade para o nosso cinema lá fora. Existe toda uma comoção em torno disso porque, no fundo, a gente precisa de algo que nos una, uma forma de resistir a todos os ataques que estamos sofrendo”, conclui o diretor.

A Vida Invisível (Brasil/Alemanha, 2019)
Direção: Karim Aïnouz
Roteiro: Murilo Hauser, Inés Bortagaray e Karim Aïnouz

* Publicado originalmente no Jornal A Tarde (edição de 23/11/2019)

 

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