7º Festival Internacional de Cinema de Salvador – Parte 1

Pouquíssima coisa eu pude conferir desse festival promovido pelo circuito Sala de Arte, que trouxe para a cidade filmes recentes e inéditos, além de uma bela retrospectiva do cinema de Andrzej Wajda. Aqui, um primeiro post sobre alguns filmes que conferi.

Budrus (Idem, EUA/Israel/ Palestina, 2010)
Dir: Julia Bacha


Quando a cidade de Budrus, entre a Cisjordânia e Israel, passa a ser alvo das intenções israelenses de delimitação de fronteiras com a construção do Muro da Separação, que passaria por uma importante região da cidade, seus moradores resolveram não ficar calados. Sob a liderança de Ayed Morrar, começam uma manifestação de caráter popular que vai crescendo e ganhando apoio, inclusive, do Fatah e do Hamas, facções palestinas rivais, e também de israelenses sensíveis à situação dos moradores locais.

É esse contexto de enfrentamento que a diretora brasileira Julia Bacha, radicada nos Estados Unidos, documenta em seu filme, tendo a bandeira da manifestação pacífica daquele povo como grande particularidade da história. Os moradores querem impedir que suas oliveiras (árvore sagrada para os palestinos e de onde vem o sustento da região com a comercialização de azeitonas) sejam destruídas. Mas como em todo o confronto, a violência não demora a aparecer, pelo próprio tensionamento dos conflitos, muito embora não seja intenção pegar em armas.

Mas é muito impactante ver civis, dentre eles mulheres e crianças, peitando soldados israelenses e impedindo o trabalho dos tratores que tentam aterrar o lugar por onde passaria o muro. É essa tensão, filmada como puro registro documental in loco, uma das grandes forças do filme.

Ao mesmo tempo, por mais que fique claro o posicionamento pró-manifestantes, o documentário procura ouvir os dois lados da questão, desde os moradores até os militares israelenses, os mesmos que aparecem em confronto direto nas imagens, conferindo nuances necessárias a essa história que se junta a tantas outras que marcam os conflitos no Oriente Médio e sua complexa rede política, social e econômica.

O Moinho e a Cruz (The Mill and the Cross, Polônia/Suécia, 2011)
Dir: Lech Majewski


Numa tomada de licença poética das mais corajosas e belas, o cineasta polonês Lech Majewski usa a pintura A Procissão para o Calvário, do artista flamengo Pieter Bruegel, O Velho, para compor esse seu filme que se concentra na própria feitura do quadro pelo artista (interpretado por Rutger Hauer).

A vida cotidiana de um povoado em Flandres, atual Bélgica, dominada pelos espanhóis no século XVI, é descortinada para compor a ambientação retratada na figura, tendo os próprios moradores locais como modelos. Bruegel observa a todos e parece se apropriar do olhar do filme que invade a vida daqueles “figurantes” e seu dia a dia para dotar de naturalidade sua criação. O filme tem pouquíssimos diálogos e prefere observar o movimento daquelas pessoas no quadro.

Com isso, Majeswki dá a dimensão de humildade e sofrimento que cerca a vida daquelas pessoas, acentuada ainda pela dominação estrangeira que inflige ao povo severos castigos sem motivo aparente. Essa noção de martírio é intensificada, principalmente, na crucificação do filho de Maria (personagem de Charlotte Rampling), simulando assim a paixão de Cristo.

Numa época em que tanto se celebra a tecnologia do 3D, O Moinho e a Cruz tridimensionaliza o espaço somente ao contrapor atores em movimento à frente de imagens ora pintadas à mão, ora compostas de grandiosas paisagens reais ou mesmo criadas virtualmente, mas que simulam as da pintura original, criando um efeito espetacular de composição. Com isso, dota o filme de imensa beleza plástica que se contrapõe ao peso da aflição que ronda essa história.

Triângulo Amoroso (Drei, Alemanha, 2011)
Dir: Tom Tykwer


Os relacionamentos extraconjugais ganham aqui ares inusitados e polêmicos. Isso porque o casal Hanna (Sophie Rois) e Simon (Sebastian Schipper) começam um affair, em separado, com o mesmo homem, Adam (Devid Striesow). Tykwer compõe o relacionamento de um casal em crise ao mesmo tempo em que eles buscam em outra pessoa um pouco mais de emoção em suas vidas.

Mesmo com a pitada singular desse relacionamento triplo, o filme demora demais em estabelecer essas conexões, algumas vezes se detendo em assuntos que pouco contribuem para história (como o caso de câncer sofrido pela mãe de Simon). Talvez a tradução do filme para “triângulo amoroso” dê uma falsa ideia de que essa relação seja o grande foco da história, mas o filme ensaia mais que isso até que ela se concretize.

Tom Tykwer, depois de uma carreira internacional que conta com o ótimo Perfume – A História de um Assassino e o thriller Intriga Internacional, volta a sua Alemanha natal depois do sucesso feito com Corra, Lola, Corra (que acabou lhe abrindo as portas do mercado mundial).

Mas não deixa de ser um retorno um tanto frio. O filme tem umas boas pitadas de humor (na verdade, está sendo vendido como comédia romântica!), mas nem sempre funcionam. Há também boas cenas, como a inicial com os fios dos postes, ou a dança com os bailarinos que representam a relação tripla dos personagens. Porém o recheio demora a engatar. O final deixa tudo mais soft ao investir numa virada que parece coisa de novela mexicana, além de uma resolução fácil demais de engolir.

6 thoughts on “7º Festival Internacional de Cinema de Salvador – Parte 1

  1. Antonio, interessantes mesmo. Principalmente os que eu perdi, hehe. Tomara que mais filmes da programação entrem no circuito comercial.

    Amanda, também queria ter visto mais, mas final de semestre tá matando a gente. hehe

    Gustavo, tem essa pegada mesmo, embora não seja legal tachar os filmes assim. E visto no cinema é uma maravilha para os olhos e ouvidos!

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