51º Festival de Brasília: Temporada

Há tempos é possível comprovar e há tempos eu venho dizendo que André Novais Oliveira é um dos grandes talentos do cinema brasileiro recente. Com uma trajetória incrível no curta-metragem e depois de já ter lançado seu primeiro longa, ele apresentou agora Temporada no Festival de Brasília, vencendo o prêmio máximo. Ao mesmo tempo que o filme evidencia as marcas de seu cinema, em especial o tom hipernaturalista, Temporada é também um claro amadurecimento do cinema do jovem realizador mineiro e é mesmo uma felicidade vê-lo, junto com seus fiéis parceiros da produtora Filmes de Plástico, serem agraciados com o Candango de Melhor Filme no festival.

Acostumado a trabalhar com atores não profissionais e de utilizar seus próprios familiares nos filmes, interpretando versões muito próximas de si mesmos, incluindo o próprio André – como modo também de enunciar um rico entrelaçamento entre ficção e documentário –, dessa vez o cineasta juntou-se a um grande talento da atuação: Grace Passô. Ela dá vida a Juliana, mulher que se muda do interior de Minas Gerais para Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte, onde passa a trabalhar como agente sanitária de pragas e endemias.

Atriz mais próxima do teatro, onde também atua como dramaturga – ela apareceu na telona recentemente em Praça Paris, de Lúcia Murat –, Passô é tida como uma força da natureza. Mas aqui em Temporada ela incorpora magnificamente um tom super natural e nunca exagerado de atuação. A força da atriz esconde-se naquela sutileza dos mínimos gestos e olhares, na compreensão do tamanho da concisão que sua personagem pede. Ainda assim, sua presença na tela é hipnótica – não à toa ela saiu do festival agraciada com o prêmio de Melhor Atriz. Todo o filme carrega essa atmosfera, com gosto de vida cotidiana, mas tendo em Passô uma personagem em processo de deslocamento – geográfico e emocional.

Juliana deixa na cidade natal um marido e problemas no relacionamento, sem falar nos perrengues financeiros que os perseguem. Dificuldades em se conectar com a família deixada para trás também são sentidas. No novo emprego, vai conhecer colegas de trabalho receptivos, como o divertidíssimo Russão e a chefe gente boa (Rejane Faria). Já aí Temporada rompe um lugar-comum: a novata que chega a um novo emprego geralmente passa aperto, sofre perseguição, quando não é hostilizada pelos demais; mas no filme de André o lugar do trabalho, ainda que árduo, é também lugar de afeto e encontro – principalmente um encontro consigo mesmo.

Uma vez que sua função consiste em andar de casa em casa para combater os focos de mosquito da dengue, Juliana se depara com uma série de situações, boas e desagradáveis, desde ter que superar o medo de subir em escada até a acolhida generosa da dona de casa que insiste em lhe servir bolo e café (a saudosa Maria José Novais de Oliveira, mãe do diretor, atriz casual que nos deixou este ano). Esse flerte com um mundo mais possível e humano, também ele perigoso – exemplificado na cena em que a chefe encerra a função por conta de conflitos com a polícia na região onde a equipe trabalha –, dota o filme de uma verdade muito latente, uma apreensão de real que está em tudo que circunda o filme.

Temporada é um desses raros trabalhos que registram um momento singular da vida de alguém, filmado como uma observação palpável do cotidiano quando esse mesmo cotidiano é uma grande novidade, com seus pequenos abalos e também com os inusitados caminhos que começam a se abrir. O filme se faz como um grande estudo de personagem na medida em que confere muitas camadas à vida de Juliana, sua personalidade e a rede de relações que se formam e se formaram ao seu redor, todas elas plausíveis, coerentes, nunca taxativas ou limitadoras.

Para quem acompanha a carreira do diretor, é notável a maneira como ele interligou o real e a ficção em obras anteriores, usando dados da sua realidade familiar para compor suas tramas – o memorável Pouco Mais de um Mês e Ela Volta na Quinta são os maiores exemplos (e mesmo Quintal, com seu delicioso desvio místico-fabular, também seguia caminho similar). Mas em todos esses filmes pulsava uma veia ficcional que só pegava emprestado detalhes da vida real, reapreciados em tramas totalmente recriadas, com aquele típico humor mineiro, um humor-come-quieto. Agora, em Temporada, o pulo foi de cabeça. O tom documental é presença, não mais dispositivo. A ficção domina, e a maturidade, como escrita e mise-en-scène, é coisa linda de se ver na tela. O fluxo narrativo, o tempo do corte, a sobriedade dos planos, tudo perfaz um conjunto muito revelador da segurança com que André conduz a obra.

E ainda assim, o filme não precisa se amparar em um grande arco dramático que tem de se fechar ao final da projeção. O que importa é o percurso, e Juliana descobre ali, entre ruas tortas e ladeiras, entre xícaras de café e flertes no portão, pequenos grandes agentes de transformação para que, aos trancos e solavancos, ela possa tomar de vez a direção de sua vida.

Temporada (Brasil, 2018)
Direção: André Novais Oliveira
Roteiro: André Novais Oliveira

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