51º Festival de Brasília: Los Silencios

Um dos primeiros filmes da mostra competitiva do Festival de Brasília e já temos aí um dos grandes longas desta edição: Los Silencios, da diretora Beatriz Seigner. O filme chega ao Brasil depois de ter estreado na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes. É um curioso caso de coprodução entre Brasil, Colômbia e França, falado em espanhol e em línguas indígenas, e se passa na Ilha da Fantasia, localizado numa tríplice fronteira (Peru, Colômbia e Brasil, na região amazônica).

É mais curioso ainda por trafegar com muita propriedade por uma atmosfera que mescla o realismo social e o realismo fantástico, entre a ficção e o documentário. Porém, antes de ser um filme que utiliza esse artifício cênico de dupla apresentação para certificar algum tipo de capricho narrativo, como uma espécie de fetiche pelo tom fantasioso, Los Silencios reforça uma belíssima história de resistência, de coexistência entre mortos e vivos e sobre o que significa fugir e carregar consigo cicatrizes.

O filme nunca vai se deslumbrar pelas possibilidades do fantástico justamente porque sabe muito bem aonde quer chegar. A Ilha da Fantasia, a despeito do nome, de fato existe. É uma região que calhou ser porto para muitas famílias a fugir da pobreza e da guerrilha que assola os países e regiões vizinhas. Mas é também um lugar circundado por energias ancestrais, de forte tradição indígena, que confere cores especiais ao local. É desse encontro de atmosferas, entre o místico e o perigo terreno, que Los Silencios constroi um rico estado de dor e resiliência dos povos que se tornam refugiados em sua própria América Latina.

Ali na ilha formou-se uma coletividade de pessoas que possuem histórias similares de fuga. É o caso de Amaparo (Marleyda Soto), fugida da Colômbia, país que vive uma violenta guerra civil. Seu marido (interpretado por Henrique Diaz), brasileiro envolvido diretamente no confronto armado, é dado como morto, e de lá ela escapou com seus dois filhos, Nuria e Fabio. A garota é uma presença muda, revelando uma sensibilidade que lhe permite enxergar o espírito do pai a transitar pela casa da avó, já residente na ilha, lugar onde eles passam a morar.

É aí que Los Silencios trafega pelo campo do fantástico sem fazer disso um fim em si mesmo, sem levar o filme a um lugar muito marcado de gênero. Em certos momentos, questionamos se determinados personagens estão mortos ou vivos, e não há mesmo coerência em certas passagens que envolvem a interação entre eles – o que pode ser um despiste plantado pelo filme para nos colocar em dúvida. Mas isso importa menos enquanto proposição rígida de gênero e mais como entendimento emocional e afetivo sobre aquela família que passa por um processo de reconstrução de vida, lidando com suas dores e ausências.

Nesse mesmo sentido, seria possível apontar em Los Silencios certo porém narrativo na trama, mas que aqui é contornado a fim de reforçar a dimensão emocional da história. O filme deixa para a parte final uma surpresa, uma virada de roteiro um tanto previsível. Por outro lado, não parece que o filme trabalha em cima disso a ponto de escondê-la, muito menos de torná-la a grande chave da trama. Ou seja, essa virada nunca é usada como muleta. Pelo contrário, ela é revelada justamente numa das cenas mais bonitas porque carrega uma força emotiva importante para o entendimento do percurso daquela família. É essa segurança, a confiança numa força maior e transcendente, que faz de Los Silencios um filme especial, para além de resgatar um sentimento de irmandade no seio latino-americano, de nós tão próximo e ao mesmo tempo tão distante.

O filme possui um ritmo muito particular e próprio que reflete o cotidiano enquanto eles começam a se adaptar à vida na ilha e às possibilidades de interação com os mortos e também com os demais moradores do local. A ilha é tão concreta e viva quanto o desejo daquelas pessoas em serem amparadas e de encontrarem paz e tranquilidade em meio a uma realidade cruel.

A violência permeia Los Silencios, mas ela nunca é vista, nunca se torna concreta aos nossos olhos. Somente a sentimos nas sequelas que trazem os personagens – uma conversa em particular entre marido e mulher diz respeito à situação atual deles, enquanto refugiados, ser uma consequência direta da decisão do marido em se envolver na luta armada. Podemos depreender daí que um dos temas centrais do filme é sobre como levamos conosco nossas dores e determinações, e de como lidamos com o legado de nossos mortos.

Los Silencios (Brasil/Colômbia/França, 2018)
Direção: Beatriz Seigner
Roteiro: Beatriz Seigner

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