Vidro

É difícil precisar em que momento M. Night Shyamalan resolveu ampliar o universo de Corpo Fechado, lançado no longínquo ano de 2000 – se por um desejo que já estava latente lá atrás ou se por capricho e pelo sucesso de Fragmentado, surpreendentemente um filme que se conectava com o anterior por um fio, de modo a pegar muita gente de surpresa. E colou. O fecho para uma trilogia parecia irresistível, pois. De qualquer sorte, Vidro é um belo desfecho, muito coerente com tudo que vem sendo construído em termos de projeto de cinema por parte de Shyamalan, mas talvez um filme menos necessário em termos narrativos, para além de aparar arestas soltas deixadas pelo antecessor.

Se Unbreakable (título original de Corpo Fechado) pertencia ao herói indestrutível que Bruce Willis descobria em si e Fragmentado nos apresentava outra criatura incomum e poderosa, Vidro seria a oportunidade de destacar o personagem genial de Samuel L. Jackson – isso se ele já não tivesse sido apresentado no primeiro longa, com tanto destaque, o bem e o mal como lados da mesma moeda, a existência de um condicionando a do outro, Yin e Yang. É certo que a intenção maior de Vidro é destacar a genialidade do personagem – o que não era segredo para ninguém – e revelar sua superioridade. Curiosamente, ele demora a aparecer já que o filme inicia na tentativa do Vigilante de encontrar e deter a Fera.

Porém, mais que encerrar uma trilogia e arredondar uma história, a pretensão de Shyamalan, em sentido lato, é revisar e por em evidência os preceitos, regras e engrenagens solidificados nesse subgênero que é o da história de super-heróis, consolidado já há algum tempo nas páginas das graphic novels – espertamente o diretor não se contém em criar uma cena com uma personagem, dentro de uma loja de quadrinhos, perguntando ao vendedor quando surgiu a primeira HQ – e que vive hoje um apogeu no cinema hollywoodiano.

Só que ao contrário das produções de grande orçamento e da máquina de efeitos especiais, lutas mirabolantes e perigos cada vez mais tenebrosos a ameaçar a vida no universo, Shyamalan está muito mais preocupado em fazer de sua trilogia um complemento de sua própria obra, e nunca fazer frente à batalha de titãs entendida na rixa “Marvel vs. DC”. E ele elege aqui, mais uma vez, a noção de crença que permeia grande parte de seus filmes: a crença na fábula e na potência da ficção (A Dama na Água); a crença na fé religiosa que, no fundo, significa crer na força da família (Sinais); a crença na possibilidade de vivermos em harmonia social (A Vila); a crença na sensibilidade infantil e na necessidade de se deixar ir (O Sexto Sentido); a crença na força interior que cada um de nós carrega em si (Depois da Terra).

Pois bem, em Vidro essa noção não poderia estar mais bem colocada do que no próprio discurso da doutora Ellie Staple (Sarah Paulson), a psiquiatra que acaba prendendo os três heróis da trama num hospital especializado para impedir a manifestação de seus poderes. Estamos diante de uma ampliação do universo diegético que o diretor criou, o que é sempre muito estimulante. Ela então tenta convencê-los de que eles sofrem de um distúrbio mental que os leva a crer que têm super-poderes, mas tudo não passa de uma projeção da mente. Está posto, portanto, a interrogação sobre os limites dos nossos poderes.

É certo que Shyamalan vai chacoalhar essas convicções (crer é poder!) e reserva para o final as já habituais reviravoltas que fazem o sucesso das suas produções. É aí que o Sr. Vidro ganha destaque e se eleva como a grande mente por trás de tudo (seria ele um alter-ego do próprio Shyamalan? Certamente o diretor pensa que sim). Ainda que isso soe prepotente e maneirista na medida em que sempre parece haver um toque de superioridade em relação ao público, é impossível não reconhecer que tudo apresentado aqui é bastante coeso e coerente com o conceito que o diretor construiu para a série e para o desenho dos personagens, estendido sem atropelar nada, e indo até aonde precisa ir para que Shyamalan dê sua última cartada de mestre.

De toda a trinca de filmes, esse é o mais equilibrado em tom. Há alguns toques de suspense e terror no começo que logo são abandonados no decorrer da trama. A luta inicial entre o Vigilante e a Fera promete mais pancadaria, mas o filme também deixa para trás esse tipo de confronto. Existe mais espaço para o aparecimento das demais personalidades de Kevin, o que também abre brechas para momentos de alívio cômico.

Certamente Vidro não está no mesmo patamar dos anteriores (o miolo do longa tem ritmo demorado e muito falatório, sem falar que esse é o roteiro mais didático do diretor), e penso que talvez seja até mesmo um filme dispensável, se não fossem as pontas soltas deixadas lá atrás. Mas essa pitada de pretensão, mais o talento e a disposição do cineasta pelo risco de derrapar e cair no ridículo – como já aconteceu antes –, significam fazer um filme de super-heróis conceitual num momento em que a cada mês surge nos cinemas um filme do gênero a esbanjar milhões e milhões de dólares, antes e depois. O que Shyamalan faz já é um mérito em si. Chegar aqui com um final digno e fiel – às origens, às várias origens – é um feito e tanto.

Vidro (Glass, EUA, 2019)
Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan

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