Vida adulta

O Grande Momento (Idem, Brasil, 1958) 
Dir:
Roberto Santos
Para
encerrar as atividades deste ano do Cineclube Glauber Rocha, um longa
brasileiro: O Grande Momento, de
Roberto Pires. É um achado e tanto poder exibir um filme desses, em cópia
digital restaurada (e linda!), ainda mais sendo de um de nossos cineastas clássicos
de obras tão pouco vistas, discutidas e reverenciadas. Talvez as atenções
concentradas em torno de Glauber Rocha, ainda mais aqui na Bahia, ofusque muita
gente boa que fez coisas tão interessantes e importantes na nossa
cinematografia.
Filme
de uma fase que se possa chamar de pré-cinema novista, trata-se do primeiro
longa-metragem dirigido por seu talentosíssimo diretor. Impressiona mesmo a
segurança que Pires demonstra na construção narrativa de uma história que traz
muito de um conceito neorrealista, tão forte no Brasil em fins dos anos 1950, ainda
que haja muito de narrativa clássica na encenação do filme.
Esse
é O Grande Momento, condizente
com o seu tempo, tanto em termos narrativos quanto naquilo que coloca em questão
na história que conta. Acompanhamos as desventuras de Zeca (Gianfrancesco
Guarnieri, sua estreia no cinema), no dia de seu casamento, tendo de se virar
para arcar com as últimas dívidas do casório. A família passa por apertos
financeiros, o rapaz só vê as contas se acumulando. Ainda jovem, não sabe lidar
com pressão e responsabilidades.
O
casamento é esse período chave na vida. Na sociedade tradicionalista da época,
os costumes são mais do que regras a seguir, são provas dadas de sua aptidão
para formar família e sobreviver por conta própria. Zeca não parece ser esse
homem, ainda que se esforce para isso. O impulso à vida adulta talvez seja o
verdadeiro tema de O Grande Momento.
Se
o Brasil passava por um período de transformação e modernização, caracterizando-se
cada vez mais pelo crescimento e consolidação dos centros urbanos, São Paulo florescendo
como matriz dessa nova realidade. O
Grande Momento
tenta captar a dificuldade de se estabelecer nesse tipo de
ambiente.

Bastante
influenciado pela escola italiana de composição realista, Roberto Pires parece
ter aprendido a lição: leva sua câmera para a rua, desenvolve uma narrativa crua,
fazendo os personagens dialogarem com seu tempo (e suas dificuldades refletem um desafio também social). Está clara a referência a Ladrões de Bicicleta justamente pela
utilização do símbolo icônico que ela representa nesse momento: Zeca terá de vender
seu precioso meio de transporte para pagar o que deve e passar pelo ritual do casamento,
ainda que isso esteja longe do necessário para liquidar o que deve (e justo a cena do
passeio de Zeca na bicicleta é icônica também por representar um último momento de
liberdade, solitário, quase juvenil, em comunhão com a cidade e suas
distâncias).
Porém,
ao mesmo tempo, o filme possui uma construção que valoriza bastante a narrativa
clássica. Salta aos olhos o apuro de mise-en-scène
de Pires, ainda atrelado a uma estética de estúdio, com plano e contraplano,
mas que sabe muito bem onde por a câmera, seus atores, fazendo-os se movimentar pelos ambientes, especialmente nas cenas de interiores, entre cômodos diferentes, e ainda montando tudo isso com presteza e exatidão. Trata-se de um filme exemplar nesse sentido, sem nunca
querer chamar atenção para si mesmo.
Pires está longe de fazer de seu filme um petardo pessimista ou uma crítica
ferrenha a uma situação de ordem social. Ao contrário, há certo humor pinçado ali (a sequência da festa de casamento alcança mesmo o pastelão e o
filme quase se torna uma comédia de erros) e mesmo algo de afetuoso nas
relações que se estabelecem entre os personagens (o pai austero brigando com
todos, a irmã sonhadora e arredia, a mãe firme querendo resolver tudo da melhor
maneira, a noiva que se sente enganada, mas também tem seu lado compreensiva).
E é lá no final do filme, quando o casal entende de fato a importância dessa cumplicidade, é que o título do filme se materializa. Enquanto isso os bondes
passam e é preciso correr para pegar um. 

PS: A sessão do dia
16 de dezembro coincidiu com o aniversário de seis anos do Cinema Glauber Rocha
que resiste bravamente como cinema de rua, um dos pilares da cinefilia atual de
Salvador. Não deixou de se também uma celebração bem digna desse espaço que
merece vida longa. 

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