Últimas curtinhas do ano

Lucy (Idem, França,
2014) 
Dir:
Luc Besson
Lucy é o tipo de
filme que funciona muito melhor quando não se leva tudo demais a sério. Não
demora muito para entender que Luc Besson está, mais uma vez, no terreno dos
impropérios difíceis de acreditar, mas deliciosos de acompanhar. Ele pisa tão
sem vegonhamente no acelerador que a trama de ação com um pé forte nas
especulações científicas torna-se um adendo, tem algo de bem farsesco aí. E há
Scarlett Johansson quebrando tudo, como essa mulher contaminada por uma nova
droga sintética que a faz, paulatinamente, acessar as potencialidades do
cérebro humano.
Besson
utiliza esse plot quase como uma desculpa para exagerar na pancadaria, estilizada
ao extremo, lembrando um pouco Johnnie To, mas sem a mise-en-scène elaborada (estamos falando do diretor de Nikita – Criada para Matar). É na
contagem progressiva aos 100% que a história ganha ritmo cada vez mais
frenético, como se injetasse mais adrenalina a cada sequência, e a personagem
se vê cada vez mais próxima de algo superior. O filme não tem medo de especular
sobre o Tempo como fator preponderante para a condição
de existência humana, elevando sua protagonista a uma curiosa aproximação a algo
próximo de um deus. Ou melhor, Deusa.
Planeta dos
Macacos: O Confronto

(Dawn of the Planet of the Apes, EUA, 2014)
Dir:
Matt Reeves 
Depois
do caos, a revolução. A nova série Planeta dos Macacos ganha uma continuação à
altura do primeiro filme, no impulso de retratar os acontecimentos que dão
conta de revelar como a raça símia assumiu o controle da Terra, visto no filme
clássico de 1968. Curioso que esse Planeta
dos Macacos: O Confronto
possui o mesmo trunfo do filme predecessor:
encontra no primata Caesar um personagem riquíssimo, ainda cheio de dilemas
diante das situações que se desenham, liderando a comunidade de macacos que
vive afastado da cidade depois que um vírus dizimou grande parte da raça humana
– por outro lado o filme trata os personagens humanos de forma muito rasa, no
geral.

Vivido pelo sempre ótimo Andy Serkis, revestido por um recurso digital mais uma
vez de encher os olhos, Caesar, em contato com um grupo de humanos remanescentes
que precisam de auxílio, permanece dividido entre ajudá-los ou não, sem trair seu
grupo, sua nova família, lugar que reconhece como seu. Matt Reeves assume a direção de um filme que, além de toda a discussão em torno do que há de dignidade,
bondade e hombridade em humanos e primatas, funciona muito bem como produto de aventura,
tendo o que dizer sobre a condição humana.

Vidas
ao Vento
(Kaze Tachinu, Japão, 2013)
Dir: Hayao Miyazaki 
Dentre boatos de que ia se aposentar ou de que os
estúdios Ghibli iriam fechar as portas (todos já desmentidos), Hayao Miyazaki
é, sem dúvida, um dos grandes cineastas em atividade hoje, para além de ser um
mestre da animação. Vidas ao Vento,
seu mais recente longa, revela esse cineasta ainda em pleno domínio criativo,
um humanista dos grandes e um grande contador de histórias. Sua narrativa
transita com facilidade adorável entre a realidade e a fantasia, através dos
sonhos em que o protagonista encontra-se com um dos maiores designers de avião
até o momento em que ele próprio realiza o sonho de projetar essas máquinas
voadoras (que também são a obsessão de Miyazaki).
Mas Jirô não imaginava que suas invenções seriam
utilizadas para fins bélicos, num momento em que o mundo enfrentava os
conflitos armados da Guerra Mundial. Estão no filme as contradições sociais de
um Japão assolado pela pobreza enquanto o governo investe milhões em máquinas
de guerra. O longa também passeia pelo melodrama com muita facilidade, de forma
sempre contida. Os versos “O vento se ergue / devemos tentar viver”, do poeta e
filósofo francês Paul Valéry, funcionam como guia que mantém o protagonista preso
a seus desejos. Nesse tom de lirismo em tempos de guerra, Vidas ao Vento é uma bela ode aos sonhos pessoais, ainda que
esbarrem nas prepotências do destino.
Jogos Vorazes: A
Esperança – Parte 1

(The Hunger Games: Mockingjay – Part 1, EUA, 2014)
Dir:
Francis Lawrence 
É
muito interessante acompanhar a politização de um blockbuster hollywoodiano pensado para um público adolescente, com
direito a disputa romântica e boas doses de violência. Esse novo episódio da
série Jogos Vorazes continua seu caminho para a revolução que se avizinha. Mas
também não precisa sair por aí vangloriando uma história que agora assume tons
“adultos”. O fator político da saga já estava lá nos primeiros filmes, mas
agora cresce em importância quando passamos a acompanhar a resistência dos
pequenos distritos diante do fascismo opressor que a Capital sempre representou
para eles e sua população amedrontada.
Mais
complexo é o que acontece, internamente, com a protagonista. Ainda que se torne
um ícone de um momento decisivo em que a sublevação das massas precisa de um
herói (no caso, uma heroína), Katniss (a sempre ótima Jennifer Lawrence) ainda
não esqueceu sua lealdade (algo mais?) a Peeta (Joh Hutcheson), agora uma espécie de
prisioneiro fantoche na Capital. Há ainda sua aproximação com Gale (Liam
Hemsworth) e o receio de estar sendo manipulada pela presidenta Alma Coin
(Julianne Moore). Por fazer parte da nova modinha de dividir seus últimos
filmes em dois, esse aqui acaba cansando pela sensação de enrolação com que a
trama avança, algo que deve tomar maior fôlego no próximo, promissor e último
episódio da série.
A Família Bélier
(La Famille Bélier, França, 2014)
Dir: Eric Lartigau 
Também
de comédias banais, misturadas com um belo (melo)drama pessoal, vive o cinemão
francês. A Família Bélier parece
filme visto no Festival Varilux, espaço cada vez mais destinado a esse tipo de
produto água com açúcar. Não que isso seja um demérito, mas incomoda um pouco
quando o tom é piegas e as reviravoltas e desenho dos personagens tonam-se
previsíveis e frágeis. O filme explora o drama de uma adolescente (Louane Emera,
sua estreia no cinema) que vive com a família numa área rural no interior da
França. Detalhe: todos são surdos-mudos, menos ela. E a coisa piora quando o
tema da jovem que descobre um dom (no caso, o talento vocal para a
música) a faz pensar em seguir um futuro promissor, porém longe da família.

Muito da graça aqui vem especialmente do pai
e da mãe (vividos pelos ótimos Karin Viard e François Damiens), suas excentricidades, brigas e desentendimentos ampliados pelos trejeitos exagerados tão comuns
às pessoas surdas-mudas. Mas o roteiro enfraquece quando aposta em certos conflitos,
como o pai que se candidata a prefeito da cidade, o caso amoroso da menina com
seu companheiro de canto, ou a aposta num professor com personalidade ranzinza
(Eric Elmosnino). Nesse caminho fácil em que o filme explora as brigas em família
e as pequenas rebeldias da adolescência, torna-se previsível e, para coroar,
termina da forma mais chorosa possível.

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