Torrente d’água e de fé

Noé (Noah, EUA,
2014)
Dir:
Darren Aronofsky

O
exagero sempre pareceu uma marca muito forte no cinema que Darren Aronofsky
faz. Muitos que criticam o cineasta utilizam isso como caracterização
pejorativa, embora seja daí, e de forma muito consciente e assumida, que ele
desenvolveu grande parte de sua carreira (O
Lutador
é uma grande exceção a essa regra e, curiosamente, um de seus
melhores filmes).
Ao
transpor para o cinema a história bíblica de Noé, ele acaba aliando duas
vontades que se cruzam: sua própria mania de grandeza, mais as forças da
indústria do entretenimento que privilegia o espetáculo. Noé é isso: transforma as passagens bíblicas num grande embate
entre bem e mal, entre homem e Natureza, entre vontade de Deus e vontade
mundana. É uma forma de apropriação que não só espetaculariza o texto
religioso, como faz com que ele não pareça, justamente, uma peça saída da
Bíblia.
Não
à toa que os Guardiões (personificação dos anjos caídos como figuras rochosas)
pareçam personagens saídos da saga O
Senhor dos Anéis
e que o avô interpretado por Anthony Hopkins tenha algo de
velho e sábio mago da floresta de uma fábula qualquer. O que era puramente
religioso e simbólico torna-se fantasia e misticismo pelas mãos de Aronofsky e do roteirista Ari Handel.
Mas
é uma pena que, mesmo nessa proposta, os conflitos e dilemas dos personagens
sejam tão simplistas, marcados pelo maniqueísmo ou por uma fragilidade de
enredo. É um tanto difícil, por exemplo, aceitar a forma determinada com que
Noé (Russel Crowe) acredita estar diante de uma tarefa conferida a ele pelo
Criador, a partir de uma “mensagem” em forma de sonho. E mesmo a
maneira como sua família, descendente do bondoso Set, contrapõe-se aos homens
de má fé da linhagem de Caim soa um tanto preguiçoso.
Toda
essa construção segue até o grande embate quando o dilúvio de fato começa e a
família de Noé embarca com os pares de animais de cada espécie na arca (e um
intruso com o qual eles não contavam). Até então o filme rende bons momentos de
adrenalina e a tomada das águas é o grande ápice disso.

Depois daí, a história encontra boa oportunidade para
complexificar os personagens, e Noé passa a experimentar um dilema sobre a fé
na humanidade e a possibilidade ou não de permitir à raça humana reabitar a
Terra. Mas mais uma vez, os embates físicos põem em xeque o futuro da arca (e
de todos os homens e animais vivos!) e ganham mais destaque, deixando um grande
conflito interno tornar-se mais uma simples parábola como lição de moral ao fim. Noé entrega-se, com muita fé, ao
espetacular.

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