Tons de horror

Castanha
(Idem, Brasil, 2014)

Dir: Davi Pretto
Castanha certamente não é um filme de fácil categorização.
Propõe, talvez, que deixe a própria classificação de lado quando o passeio
entre ficção e documentário esteja já virando modinha na produção atual e longe
de ser mais uma novidade. E que bom que seja assim. Num híbrido muito curioso, Castanha adentra o universo do artista
da noite João Carlos Castanha, especialmente como transformista, e fabula muito
sobre esse personagem real em sua lida diária.
Ele existe na cena noturna underground de Porto Alegre, também faz peças de teatros e esquetes
para a TV. Já passou da meia-idade, mas continua com os seus shows. Lida com as
pendências financeiras e com o sobrinho viciado em drogas. Vive na harmoniosa
companhia da mãe. Relembra os amigos e amores do passado que já se foram.
O filme quer ser cinema direto, documentário de
observação, tanto quanto quer privilegiar a encenação, o fake, que está na própria essência do ser transformista, sem que
isso tudo torne o longa pretensioso. Ao contrário, o filme parece muito
consciente do fluxo de experimentação que está na constância de sua construção,
sem deixar de olhar com carinho para o personagem que retrata.
Intérprete de si mesmo, Castanha se desnuda para a
câmera, assim como também se assume como personagem. Abre a intimidade de sua
memória e da casa onde mora com a mãe, Celina, que também empresta sua
encenação ao filme. Talvez não seja dos performers
mais talentosos ou que faz grudar a atenção na tela, mas “doa” seu trabalho e
sua morada de forma cativante.  
A dualidade entre o real e o encenado ganha um
frescor interessante no filme porque, nessa mescla, nem tudo está claro, dado
de bandeja na história. Faz com que o espectador questione-se o tempo todo
sobre a natureza das imagens – estamos agora diante de uma ficcionalização ou
captação do real? Quando elas se misturam? Perfazem, assim, um jogo de cena do
qual é difícil de fugir, mas sem a dureza de se impor à narrativa. 

A forte cena inicial, por exemplo, veste de mistério
e horror o protagonista, nu e coberto de sangue numa rua deserta. Para além do
encenar, o filme se abre ao comentário subjetivo, mais do que a um perigo
concreto à espreita. Esse mesmo tom de medo e suspense aparece em outros
momentos do filme, uma forte e estranha atmosfera que passa a dominar a vida
cotidiana desses personagens. É o perigo de estar no mundo, de ser o que é, de
lutar contra as adversidades e continuar seguindo.

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