Rigor do horror

O
Iluminado (The Shining, EUA/Reino
Unido, 1980)
Dir: Stanley Kubrick
É
incrível o poder de uma sessão de cinema. Mesmo já tendo visto O Iluminado algumas vezes antes, só
agora, durante a exibição no Cineclube Glauber Rocha, projeção potente para
filme grandioso, é possível entender, de fato, que esse se trata de um filme de
terror. Não o mais básico porque Kubrick nunca foi muito clássico, mas há algo
de pavoroso numa história que se abre a muitas visões possíveis.
O
filme surge com uma força imensa desde a cena inicial com aquela música
onipresente e câmera aérea que acompanha um carro na estrada. Antevê, de cara,
um destino tenebroso para seus personagens. E logo apresenta um hotel que, aos
poucos, vai formatando-se como personagem macabro, com seus corredores
extensos, salões imensos, silêncio sepulcral, mistérios à espreita.
É
o majestoso Hotel Overlook onde se passa quase toda a ação do filme, com a
família de Jack Torrance (Jack Nicholson) tendo aceitado passar o inverno no
lugar quando não há hóspedes e o hotel precisa de vigilância. Seria o lugar
ideal para que Jack se dedique ao seu propósito de escrever um romance,
aproveitando-se de toda uma quietude ao redor.

de se ver O Iluminado tanto pela
perspectiva da fantasia macabra quanto da perturbação psicológica. Jack, em
processo de piração paulatina, toma-se de ódio e descontrole quando se vê
frustrado em seu trabalho solitário. Curioso notar que desde o início, durante
a visita ao gerente do hotel para fechar o emprego, ele já parece carregar um
sorrisinho cínico no rosto, algo de sarcástico, ou antes é só a cara canastrona
de Nicholson. Mas é nesse personagem que reside a carga de loucura insana que o
faz perseguir a própria família, entre visões e encontros enigmáticos com gente
de outros tempos pelos corredores.
Mas
há também o filho Danny (Danny Lloyd), garotinho com potencial de acesso a um
mundo sobrenatural, visitado várias vezes por imagens e espectros de gente
morta, capaz ainda de prever tragédias futuras. Esse tom fantasioso só
acrescenta mais mistério a uma trama longe de mostrar clareza (a cena final,
por exemplo, faz entender que desde muito tempo aquele lugar tem algo de macabro,
insondável). É a chegada desses personagens, com propensão à loucura ou à
“clarividência”, que desperta forças não humanas naquele ambiente. 
Por
fim, Wendy (Shelley Duvall), mãe e esposa que se dedica às tarefas de cuidar do
hotel, é quem mais sofre com os horrores que ali se desdobram. Não chega a ser
uma grande atuação, mas Duvall, incontestavelmente, confere uma fragilidade
quase patética àquela mulher confrontada com o desequilíbrio mortal do marido.
Kubrick
trabalha no seu habitual rigor formal, perceptível na rigidez de construção dos
planos, no texto bem formatado, no tom crescente de mistério e medo. Mas aqui
ele apresenta um novo tipo de abordagem, pois subverte os elementos do terror
clássico. Primeiro porque nos
apresenta tudo às claras, literalmente. Não há vultos atrás de portas, sombras
fugidias ou fantasmas sussurrantes. Todas as aparições ou o que quer que sejam
confrontam os personagens de frente, subitamente, por vezes demorando a revelar
sua natureza perturbadora – toda a conversa de Jack com o garçom na festa é
exemplar nesse sentido.
Depois
porque o cineasta vai mais fundo ao explorar o efeito do pavor em coisas não
características. Cenas como a que Wendy descobre o que Jack tem escrito todo
esse tempo de solidão é assustadora pela tomada de consciência que ela tem do
estado mental do marido. E mesmo quando Danny encontra as gêmeas, de repente,
num virar de corredor, a cena tem mais força pela composição de imagem e som do
que pela busca de um mero susto. 

Nem mesmo a música, comumente utilizada para reforçar
um espanto aqui e ali em filmes do gênero, ganha agora contornos fáceis porque
ela pesa sobre os acontecimentos que vão crescendo em estranheza e delírio. O Iluminado perfaz-se, portanto, como
obra de classe inigualável, gradualmente revelando horrores ou implementando
novos mistérios. É daí que tira sua força como filme assombroso, em muitos
sentidos.

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