Policial à brasileira

Alemão (Idem, Brasil,
2014)
Dir:
José Eduardo Belmonte 
Foi
Tropa de Elite, em 2007, que mostrou
como era possível fazer filme de gênero policial no Brasil, com qualidade
narrativa e obter sucesso. Havia, claro, certos atributos inerentes ao longa que
o tornou tão conhecido e discutido por aí. Novo filme do agora versátil José
Eduardo Belmonte (depois de criar dramas independentes como A Concepção e Se Nada Mais Der Certo e partir para comédia com o desastroso Billi Pig), Alemão é como um filho próximo de Tropa, investindo muito bem na possibilidade de contar histórias
policias com um subtexto muito brasileiro.
O
filme utiliza como contexto a iminente invasão do Morro do Alemão
ocorrida em 2010, um dos complexos de favela mais perigosos do Brasil,
localizada no Rio de Janeiro, tomada por uma estrutura pesada do tráfico de
drogas. Há cinco policiais infiltrados na comunidade, estabelecidos ali há
tempos como informantes e que agora correm risco de morte pois foram identificados
pelos líderes do tráfego e precisam fugir o mais rápido possível.
Ainda
que exista uma forte crítica contra a tomada de controle das favelas por parte
da força policial, com a consequente instalação das Unidades de Polícia
Pacificadora (UPPs), bem como contra a forma truculenta com que a policia comumente
trata os moradores, o filme pouco se aprofunda nessas “reflexões” de caráter
sócio-político (como faz o longa estrelado pelo Capitão Nascimento). É claro
como o filme se assume como de gênero, utilizado como pano de fundo um momento da
história recente do país, mas sem pretensões de fazer disso um tratado sobre
uma dada situação contemporânea. O problema é que mesmo como filme de gênero
ele se sai mal com um roteiro frouxo.
Embora
consiga se resolver muito bem em termos de direção, especialmente na forma como
estabelece a tensão que se cria entre personagens acuados em um espaço fechado,
o filme possui uma estrutura dramática cheia de entraves e pontas soltas. Da
metade em diante os conflitos se atropelam e as decisões e atitudes dos
personagens são cada vez mais difíceis de aceitar; alguns diálogos são bem
fracos e expositivos também. É como se o roteiro deixasse muitas questões no
ar, atropelando informações que se não atrapalham o desenrolar da trama, dá
impressão de descuido ou dificuldades mesmo de organizar os conflitos que
surgem ali. 
Ainda
assim, Belmonte reúne um grupo de atores qualificado. Caio Blat, Milhem Cortaz,
Otavio Muller, Marcello Melo Jr. e
Gabriel Braga Nunes vivem os cinco policias que desconfiam uns dos outros,
possuem suas rixas internas, veem-se encurralados em situação limite, prezam
por suas vidas, desconhecem as intenções e planos de seus superiores, discutem a
própria condição de agentes da lei em situação de risco. Não é pouca coisa e o
longa parece disposto a não colher respostas e conclusões para esses entraves. 

Os melhores momentos do filme são quando esse grupo tenta
entender o que acontece ao redor, ainda que machucando uns aos outros. A câmera
inquieta de Belmonte e o cuidado na construção das cenas é o que equilibra um
roteiro que vai se tornando muito frouxo, ainda mais se observado com atenção e
apuro. Mas como trama policial, Alemão
pode ser uma boa escolha num roupagem muito incomum do que o cinema brasileiro
nos oferece hoje.
 

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