Ondas de calor

Azul é a Cor
Mais Quente

(La Vie d’Adèle, França/Bélgica/Espanha, 2013)
Dir:
Abdellatif Kechiche

Kechiche
é um cineasta das coisas políticas. O fato de ser um tunisiano radicado na
França dota seu cinema de preocupações com a condição do povo árabe num França
cada vez mais xenofóbica (como visto em A
Culpa é do Voltaire
), ou mesmo da própria condição daqueles que são
extraídos de seu lugar de origem para servir ao fetiche exótico do europeu (Vênus Negra). Mas seria um equívoco achar
que Azul é a Cor Mais Quente
distancia-se desse aspecto politizado uma vez que toca em tema polêmico numa
França em que a homofobia tem crescido nos últimos tempos. 

O
despertar da sexualidade da jovem Adèle (Adèle Exarchopoulos) e a descoberta de
um desejo que se inclina para outras mulheres são os pontos de observação
desse filme altamente festejado desde que ganhou a Palma de Ouro em Cannes este
ano. Interessante que justo num momento em que se discute com tanto afinco (e
também ojeriza) a união de pessoas do mesmo sexo, esse filme venha somar e
complexificar a questão.
Estamos
longe do filme puramente panfletário, apesar de em alguns momentos isso ganhar
amplitude maior, como na cena da discussão com as colegas de classe. É um
deslize que pega carona em momentos nos quais o filme tenta parecer
militante (como nas sequências do protesto na rua ou na estranha exibição de A Caixa de Pandora durante uma festa,
com destaque para a figura sensual de Louise Brooks ao fundo, é claro!).
Mas
Kechiche interessa-se muito mais pelo aspecto íntimo e pela trajetória
emocionalmente conturbada dessa menina, via registro altamente naturalista com que acompanha o desabrochar de uma flor. É bastante reconhecível essa estética
da câmera na mão, colada em seus atores, perscrutando olhares e gestos que
dizem muito sobre os personagens, especialmente os dessa menina que tateia em
busca de uma compreensão de si e de seus sentimentos.
E
basta que a estranha moça de cabelos azuis (Léa Seydoux), mais do que chamar
atenção por esse detalhe físico, ganhe espaço nos sonhos eróticos de Adèle. É
nesse ponto que o filme aposta no sexo como potência de descobertas e
consolidação de um desejo, embora nada seja definitivo na história (mais de uma
vez, figuras masculinas vão tentar por à prova a vontade da
protagonista). E é muito bonito ver como o filme confere tanta importância a
isso não tratando o sexo como um simples ato carnal que precise constar numa
ceninha rápida.
Antes
que puramente voluptuoso, o sexo representa a experiência de atração e
satisfação que essas duas jovens experimentam entre si. O que as longas
cenas de sexo têm de cru, explícito e intenso só reforçam o tom naturalista que
o filme persegue do início ao fim, para além do amor que também brota dali. Especialmente
na forma como Adèle se conecta a Emma, tornando o filme o retrato de uma grande
paixão pela qual vale a pena lutar.
Ainda
que se alongue demais, Azul é a Cor Mais
Quente
mantém um ritmo muito coeso em sua estrutura. É interessante perceber
como a história avança por meio de certas elipses que dão conta de algumas transformações
de Adèle numa mulher, apesar da menina apaixonada e insegura ainda ser visível
por entre seus os cabelos desgrenhados. 

Se
aqui ou ali o roteiro precisa forçar certos conflitos (como todo o desentendimento
entre as duas personagens na parte final do filme), Kechiche se esforça para
filmar uma paixão que brota da vida comum, como qualquer outra. É como o azul,
essa cor aparentemente fria, melancólica, mas passível de esconder mais calor e pulsão do
que se imagina.

2 thoughts on “Ondas de calor

  1. Rafa,
    boas observações, principalmente quando você cita a preocupaão maior de Kechiche em retratar a trajetória da personagem em detrimento de criar um filme panfletário. Acho que é isto que me toca mais nesta obra, principalmente na primeira parte, quando há um cuidado maior na construção do universo da protagonista, o dia a dia, as emoções, as descobertas, a proximidade da câmera, as pinceladas de azul presentes no mundo exterior, o tom naturalista, a excelente atuação de Adèle Exarchopoulos entre outras coisas que, mesmo deixando o filme mais lento, nos aproxima, como você citou, do desabrochar da garota.
    Não gosto da segunda parte, a forma como ela é conduzida, usando de alguns artifícios para facilitar os conflitos, já não sinto o mesmo cuidado na construção das cenas, me incomoda a forma como é feita as passagens do tempo e outras coisas. Mas no resumo geral, acho o filme um belo retrato de uma paixão com seus altos e baixos, tão igual a tantas outras e "trivializar" este relacionamento, para mim, é o grande mérito do diretor.

  2. Valeu, Mila. Também concordo contigo, acho a segunda parte mas descuidada, em termos de roteiro mesmo. Alguns conflitos são muito forçadinhos. Mas é claro o mérito que o filme tem em contar esse tipo de história com esse tratamento tão naturalista, e humano.

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