Olhar de Cinema: O Protetor do Irmão

Ainda que seja bastante hábil em formatar um ambiente de rigidez sobre a rotina de garotos de um internato nas gélidas regiões montanhosas da Turquia (mais precisamente na Anatólia Oriental, como uma professora faz questão de apontar), O Protetor do Irmão insiste em afirmar suas denúncias sociais sobre opressão infantil em ambiente escolar de modo tão demarcado e reiterativo que tais escolhas apenas enfraquecem sua própria intencionalidade, seguindo por outros caminhos também questionáveis.

O medo é companhia constante daqueles garotos e está estampado no rosto do protagonista, o pequeno Yusuf (Samet Yildiz). O internato é como um pequeno quartel general de regras rígidas e tratamento nada condescendente com as crianças, apesar de serem crianças. Isso está posto desde a sequência de abertura, momento imprescindível para os desdobramentos da narrativa e também como atmosfera a dar o tom de tensão que reina no local. O uso da câmera na mão, muito bem operada, ajuda bastante a criar esse clima de desconforto reinante.

Yusuf vai tentar dar assistência ao amigo pequeno que adoeceu repentinamente, e seu périplo para chamar a atenção dos adultos, sempre ocupados em dar ordens e manter a disciplina geral do lugar, é a via crucis de expiação que o filme só vai identificar como tal no final da trama. Enquanto isso, o longa se ocupa em apontar o dedo para o sistema de esmagamento dos adultos sobre os pequenos – reflexo de uma mentalidade que pensa a educação para o masculino com dureza e agressividade, já que a escola é só para garotos. A trama abusa bastante desse tipo de tratamento e, por muito tempo, persiste na sua representação incômoda apenas como provocação.

O amiguinho de Yusuf só piora, e as tramas que envolvem essa sua recaída vão colocando em xeque justamente o comportamento duro dos adultos, invertendo uma lógica de denúncia que recai sobre aqueles que não conseguiam enxergar a intransigência de suas ações (o filme acrescenta ainda uma cena que revela as pequenas corrupções internas por parte do diretor do internato a pontuar o caráter desviante dele e dos demais cúmplices nessas jogadas antiéticas).

Até então as coisas demarcavam apenas esse lugar da inevitabilidade das opressões e suas consequências irremediáveis. Porém, nos minutos finais do filme, há uma virada de roteiro que o transforma em uma história cruel de culpa a recair sobre os mais vulneráveis, e o filme acaba retrocedendo no seu próprio raciocínio, dando margem para a absolvição dos homens malvados – sem falar que esse detalhe da trama, revelado nos minutos finais de modo apenas verbal, é bem frágil e pouco convincente. É também uma escolha questionável porque, para além de cair no lugar fácil de despertar comiseração no espectador, acaba reforçando ainda mais um peso autoimposto às crianças.

Não parece haver dúvidas de que é a este exato ponto que o diretor e o roteirista queriam de fato chegar, o que não significa que seja necessariamente digno como conclusão. O problema é que com isso o filme acaba assumindo uma posição que ele próprio estava denunciando desde o início, mas que parece bastar pela surpresa e para desenhar um mundo cercada de crueldades por todos os lados.

O Protetor do Irmão (Okul Tirasi, Turquia/Romênia, 2021)
Direção: Ferit Karahan
Roteiro: Ferit Karahan e Gülistan Acet

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