Olhar de Cinema: Banquete Coutinho

A 8ª edição do Olhar de Cinema abriu com a exibição do documentário Banquete Coutinho, de Josafá Veloso, e nada mais apropriado para um festival de cinema do que celebrar em sua abertura um dos maiores cineastas que o Brasil produziu; ou melhor, um cineasta que produziu uma obra em torno de uma das maiores riquezas do Brasil: sua gente.

Eduardo Coutinho, mesmo antes de morrer, já tinha seu lugar garantido como mestre absoluto da arte do diálogo. Criou uma carreira sólida no documentário e tornou-se um entrevistador de primeira grandeza, bruxo que tinha lá seus truques capazes de fazer as pessoas diante de si se expor tão intimamente. Seus melhores e maiores filmes são aqueles em que o realizador confronta, em conversas francas, gente comum, extraindo deles histórias e percepções de mundo. Fazia isso com uma facilidade invejável, resultado de anos de experiência e prática.

Banquete Coutinho inverte os papéis e coloca o cineasta no lugar de entrevistado, numa espécie de bate-papo quase casual – as entrevistas parecem ter sido gravadas em sua própria casa ou escritório, em 2012, apenas dois anos antes dele falecer – com certo ar de intimismo e casualidade. É diferente do tom mais formal que Carlos Nader deu ao registrar o mesmo tipo de conversa com o cineasta no longa Eduardo Coutinho, 7 de Outubro, filmado em estúdio. O que poderia se reverter em frieza, neste último caso, ganha contornos mais sólidos por conta de uma qualidade que o próprio Coutinho deixou como lição: a habilidade do entrevistador em conduzir uma conversa.

É um prazer ouvir Coutinho falar de seus filmes, inspirações e métodos de realização cinematográfica, que é uma maneira de falar também sobre questões da vida e do comportamento humano – é como coletar velhas lições de um sábio. É uma pena, no entanto, que Josafá Veloso não consiga necessariamente dar liga aos muitos discursos e ideias que aparecem ali, fazendo uso do desgastado recurso de explorar cenas de filmes marcantes do cineasta em meio às falas. No entanto, poucas delas servem para ilustrar propriamente o que está sendo dito, um emaranhado de muito boas reflexões, pouco articuladas entre si, que correm o risco – as reflexões e as cenas dos filmes – de soarem aleatórias demais.

Em determinado momento, Coutinho afirma: “Eu só existo pelo olhar do outro”. Para quem já assistiu a muitos dos filmes do cineasta e já refletiu bastante sobre eles – e sobre o que significa documentar e dialogar com alguém –, tal afirmação pode não conter muito mistério; por outro lado, quando o filme levanta tal afirmação, ela se perder em meio a tantas outras proposições que se fazem presentes no longa e se sucedem arbitrariamente. É como se o filme convocasse algo para abandoná-lo na cena seguinte.

Veloso tem dificuldades também de defender suas próprias elucubrações sobre a obra coutiniana. Uma das mais presentes no filme coloca em questão uma possível metanarrativa que atravessaria toda a obra de Coutinho – Veloso pergunta-se: será que o cineasta fez, durante todo esse tempo, o mesmo filme? Não seriam todos os personagens retratados em seus filmes um alter-ego do próprio Coutinho? São questões difíceis de responder, tanto quanto são complexas suas próprias formulações, mesmo que hipotéticas, e o filme carece muito de uma defesa ou uma tentativa mais sólida de colocá-las à prova ou mesmo em fricção. Apenas filmar Coutinho falando sobre sua obra não chega perto do mergulho profundo que tais questionamentos exigem, muito menos as perguntas são feitas ao próprio cineasta para que ele tente repensar seu trabalho a partir de tais provocações.

Banquete Coutinho demonstra respeito e consideração inconteste ao mestre, mas o filme parece mesmo muito encantado pela própria oportunidade de estar diante daquele homem, de conversar com ele e de lhe colocar indagações. Funciona mais como celebração do gênio do que tentativa de investigação, que se quer profunda, mas não chega muito longe.

Banquete Coutinho (Brasil, 2019)
Direção: Josafá Veloso
Roteiro: Josafá Veloso

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