O velho e o novo

Últimas Conversas (Idem, Brasil, 2015)
Dir: Eduardo Coutinho

A derradeira peça que perfaz a rica obra cinematográfica de Eduardo Coutinho foi privada de seu acabamento final por suas próprias mãos e vontades pela força do acaso – o cineasta veio a morrer inesperadamente no início do ano passado. Mas Últimas Conversas nasce agora com um recorte possível desse fazer cinema que Coutinho aperfeiçoou e solidificou ao longo dos anos. Jordana Berg, montadora e parceira antiga de Coutinho, ficou responsável por dar forma final ao longa, sob supervisão do produtor João Moreira Salles, também amigo, parceiro e produtor do cineasta.

Últimas Conversas surge não exatamente como Coutinho o faria, claro, mas preservando suas marcas. Como projeto inicial, é sobre os anseios de certa juventude, mas para além disso é também sobre o próprio Coutinho, seu cinema e sua visão (de cinema e de mundo). No mais, é ainda um filme para Coutinho, celebrando o seu legado, e para quem aprendeu a admirar o cineasta e o homem. Um cumprimento de gratidão, emocionante e feliz.

Por isso é possível arriscar que chamar esse filme de Últimas Conversas não diz respeito à sua relação conosco, espectadores (porque as conversas de Coutinho poderão e serão (re)vistas e (re)lembradas por muito tempo, esse é o grande legado dos mestres). Mas parece fazer jus ao próprio Coutinho em seus últimos momentos de partilha da palavra (e A Palavra, aventa-se, seria mesmo o título primeiro do filme).

É sintomático, portanto, que o loga comece com Coutinho falando, sentado na cadeira do entrevistado, sobre sua frustração já na fase final da coleta de entrevistas. Para ele, os jovens ouvidos no filme deveriam dar lugar à inocência das crianças, o que leva o diretor a questionar a validade do próprio filme que tem em mãos.

Mas basta começarmos a ver os encontros para que essa impressão desapareça. Entrevistando jovens estudantes de escolas públicas do Rio de Janeiro, o velho se encontra com o novo e, nas mãos de Coutinho, isso ganha riquezas que tão bem ele sabia extrair. Deus, amor, bullying, família, internet, futilidades e filosofias, tudo é ponto de partida e de chegada para que os personagens ganhem camadas várias – talvez a conversa mais representativa disso seja a da tímida garota que revela a dura relação com a mãe e o padrasto que abusava dela, fala de seus sonhos de desejos, além da confidência de um namoro recente e apaixonado com um garoto do colégio. Vai-se do riso ao choro com muita facilidade porque sempre foi da vida de gente como a gente que se forjou o cinema de Coutinho.

A última conversa, a última mesmo, a que fecha o longa, o diálogo com a criança, é também a que expande o filme para o óbvio, talvez aquilo que sempre esteve diante dos nossos olhos viciados e a que nunca nos foi dada a chance de notar: o grau de inocência que pode haver entre uma pessoa que, frente a outra, relata sua vida. Talvez esteja aí toda a essência do cinema de Coutinho, da forma mais sincera. Esse homem, velho, experiente, cheio de ideias e conceitos, encontra a criança e se equipara a ela. Toma-lhe a palavra e demonstra o mesmo interesse sobre quem está a sua frente. E o que se diz na conversa revela muito dela e também dele. São pessoas que se expõem à fala e ao olhar do outro (de nós).

A pequena Luiza já não é mais uma personagem da periferia que estuda numa escola pública. Ela pertence a outro grupo social. O filme, portanto, sai do seu eixo temático para abraçar outro lugar de enunciação, outro lugar de revelação de si mesmo que é central na obra do cineasta.

Num filme com momentos muito bonitos e tocantes, talvez a imagem mais linda, a homenagem mais sincera possível que se poderia fazer a esse velho mestre, está no gesto mais puro. Coutinho estende o braço com a mão aberta indicando para Luiza o caminho da saída, a entrevista acabou. Sem entender muito bem e contrariando expectativas, a menina tá uma batida esperta na mão do diretor. É isso, valeu por tudo, Coutinho.

 

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