Mostra Cinema Conquista – Parte III

O Mercado de
Notícias

(Idem, Brasil, 2014)

Dir:
Jorge Furtado 

Muito
se discute sobre a qualidade do jornalismo brasileiro e os vários meandros que
se entrelaçam na construção do quarto poder (em tempos de eleições
acaloradas a coisa se complica mais ainda). É um tema espinhoso, que envolve
mais do que a mera transmissão da informação para a sociedade em geral. Fala-se
sobre a idoneidade dos veículos e dos vieses que se emaranham pelo discurso
jornalístico.

de se dizer que esse universo de construção midiática via informação
jornalística é mais complexo do que sonha nossa vã filosofia. O Mercado de Notícias toca em uma serie
de questões importantes para se entender o jornalismo que se faz e se consome
atualmente no Brasil. Intercala uma série de depoimentos de jornalistas da
mídia nacional com a encenação de uma peça de teatro que intitula o filme. No
entanto, o documentário está bem aquém de trazer uma discussão aprofundada e
marcante como tenta transparecer.

alguns desvios colocados pelo filme, na pessoa do próprio diretor Jorge Furtado,
que aparece em cena. Na reunião com a trupe teatral, ele diz que no
documentário tudo pode acontecer, os rumos tomados são imprevisíveis. É uma
deixa para se pensar num filme de investigação, ainda mais com o tema
escolhido.
A
questão é que O Mercado de Notícias
já sabe aonde quer chegar, já tem suas teses mais ou menos prontas e bem delineadas.
Primeiro porque quase não há nada de novo no que se diz ali: o jornalismo nutre
laços estreitos com a publicidade e as ideologias dos partidos político, a
relação com as fontes é dúbia e, principalmente, o mundo monetário rege muita
coisa que se produz como jornalismo. Até aqui nada de novo no front.
Ademais,
os rumos da conversa partem dos direcionamentos que o próprio Furtado dá, muito
confortavelmente naquilo que ele deseja discutir. O caso mais emblemático é o
do Picasso da Folha de São Paulo, erro crasso cometido numa matéria que afirmava
haver, no INSS de Brasília, uma obra autêntica do pintor Pablo Picasso, quando, na verdade, tratava-se somente de uma reprodução autografada.
Exemplo
risível e absurdo de nosso jornalismo. Quando se mostra isso no filme para os
entrevistados, o que eles acham? Que é risível e um absurdo. Mais uma vez, a coisa
parece prevista para os fins que se quer alcançar. Curioso também o fato de
Furtado anunciar que aqueles jornalistas ali reunidos são seus “amigos”, gente
com quem ele tem contato e aprecia o trabalho. Bate impressão forte de algo
devidamente calculado e menos de investigação de fato. Papo de compadres.
A
peça teatral homônima, escrita pelo inglês Bem Jonson em 1625, é encenada aqui
para intercalar os depoimentos padrão dos documentários. É um achado por ser
tão antiga e ainda assim ácida sobre o jornalismo que se pratica hoje. Porém, não
deixa de ser alegórica e por vezes simplista sobre a relação
jornalismo-dinheiro. E vá lá, nem é bem encenada assim. Em termos de
experimentação de linguagem e provocação, Furtado já foi bem mais bem-sucedido
antes.
A
História da Eternidade
(Idem, Brasil, 2014)
Dir: Camilo Cavalcante 
A poesia bruta do
sertão explorada mais uma vez. Camilo Cavalcante passeia pelos tipos que já
foram largamente utilizados nessa ambiência: garota de família
patriarcal tem sonho pulsante em conhecer o mar; o tio, um artista
incompreendido, o pai, um bruto; em outros núcleos, há ainda o neto que retorna
à terra natal, para alegria da avó, e o sanfoneiro cego que clama o amor de uma
mulher em luto pela morte do filho pequeno.
São histórias que se
entrecruzam na paisagem árida do interior nordestino, com suas regras e morais
instituídas. Chega a ser um risco manipular velhos temas e tipos batidos desse
ambiente já tão exposto nas artes em geral. O que sustenta o filme é a direção
segura de Cavalcante, sua estreia no longa-metragem depois de um extenso
trabalho com curtas.
A paisagem
interiorana ganha um tratamento que segue um fluxo de tempo muito próprio,
calmo, ainda que as questões que movam os personagens vão crescendo em
intensidade. Nuances de viés mais proibidos (como a atração da sobrinha pelo
tio, ou da avó pelo neto) ou mesmo pondo em xeque a moral de seus personagens (o neto que volta
fugindo de encrenca na cidade grande) surgem para complexificar as relações
daquelas pessoas entre si, também no contexto de vida em que se encontram.
Nesses embates, o
longa beneficia-se de um time de atores de primeira. Marcélia Cartaxo e Zezita
Matos personificam muito bem essas mulheres fortes do interior, uma que nega o
amor em prol do luto, outra com o coração balançado pela descoberta de um neto
não tão pródigo assim. Mas o destaque mesmo vai para um Irandhir Santos radiante,
frágil pela epilepsia que lhe acomete, mas cheio de vigor por conta de sua
condição de artista maldito e contestador num ambiente desfavorável.
Duas cenas suas se
destacam: quando performatiza, na rua, uma canção dos Secos e Molhados; e
aquela em que ele “apresenta” à sobrinha o mar. Em ambas as sequências, a câmera
em travelling circular parece hipnotizada pela disposição e
olhar poético daquele homem. 

É o respiro que o filme permite em contraponto à dureza de uma vida
severina; há arte ali. É esse tipo de olhar aguçado para a poética das paixões
em meio à coisa bruta que Calvalcante explora tão bem. Nota-se nele um cineasta
consciente do seu poder de encenação, ainda que seus temas não sejam assim dos
mais originais.

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