O fim necessário

Batman – O Cavaleiro das
Trevas Ressurge
(The
Dark Knight Rises, EUA/Reino Unido, 2012)
Dir:
Christopher Nolan

O
que Christopher Nolan fez com a saga do homem morcego, transpondo para as telas
do cinema uma história de super-heróis baseada numa HQ, com toques de realismo,
é algo a se louvar. Poucas vezes um filme de apelo comercial conseguiu ser tão rico
em substrato moral, político e social, fazendo com que essas obras se
distanciem muito das suas “iguais” nesse sentido. Agora, o esperado fim da
trilogia traz o mesmo tom, mesmo que o tratamento não seja tão refinado quanto
o dos demais da série.
Estão
de volta as discussões sobre a necessidade de um salvador quando o mal ronda
novamente, e o desenvolvimento do arco dramático para fazer reavivar o
Cavaleiro das Trevas é mais uma vez imbricado, mas nunca profundo. O retorno de Batman é a volta do ideário de justiceiro que ele carrega em si como motivação
maior, status perdido aos olhos do
povo no final do segundo filme quando ele é acusado pela morte de Harvey Dent e assume seus crimes.
Passa
então a se refugiar nas trevas já que a lei Dent passa a assegurar a tranquilidade e
bem-estar em Gotham City,
esse microcosmo de uma sociedade sempre prestes a sucumbir ao mal e ao caos. Enquanto
no filme anterior a origem desse mal surge representada pelo bizarro Coringa,
aqui, o vilão do momento é o temível Bane (Tom Hardy), um mercenário a serviço
de algo maior e não necessariamente movido por um desejo próprio.
É aí que O Cavaleiro das Trevas Ressurge
se encontra com Batman Begins num
acerto de contas que retoma temas e temores do primeiro filme. Mas se Nolan nos
deixou mal acostumados com uma certa profundidade discutida nos dois trabalhos
anteriores, nesse filme aqui o lado comercial é mais visível, com ênfase no
planejamento e execução do plano avassalador de Bane e nas tentativas de Batman
e seus aliados em revidarem a ameaça. 
Mas
não que essa opção seja um demérito. No final das contas, Batman (e Bruce
Wayne) precisa salvar a cidade de uma enorme catástrofe à medida em que ele
mesmo se esforça para voltar à ativa, oito anos depois dos últimos eventos. É
como um retorno ao espírito mais aventuresco das histórias de super-heróis. Mas
mesmo assim, o filme esbarra em
problemas. O maior deles é querer ser maior que os outros,
com mais tramas, personagens, reviravoltas, surpresas, situações calamitosas e
grandiosas. Daí que é preciso forçar aqui, se apressar de um lado, largar uns
furos de roteiro de outro. E Christopher Nolan não é lá dos melhores diretores
para equilibrar essas questões, às vezes a impressão é de pressa para que não
percebamos esses deslizes, somado a uma montagem por vezes confusa e sem timming.
Olhando
de longe, pode até não parecer tão grave, mas os erros de alguns pequenos
detalhes se somam e ajudam a enfraquecer o todo. Há o discurso acusatório e sem
propósito de Blake (Joseph Gordon-Levitt) em cima do comissário Gordon (Gary
Oldman), a verdade que vaza sobre Harvey Dent não tem razão de ser, a
reviravolta final envolvendo personagem importante soa um tanto forçada, e o
próprio plano de Bane podia ser executado com antecedência (o que evitaria
completamente a tentativa de impedi-lo).
Do
que traz de novo, a composição do Bane de Tom Hardy é fenomenal, sua calmaria
só acentua o perigo que dele emana, seu trabalho de voz é exato (e o som do filme
como um todo é super potente). Anne Hathaway (como Selina Kyle, nunca sendo chamada de mulher-gato, embora sejam uma de suas marcas os movimentos rápidos e felinos) é uma grata surpresa,
se sai muito bem como agente dupla. Além disso, há duas ótimas cenas com Alfred
(que ator é Michael Caine!), garantindo os momentos de maior emoção do filme.
A opção por um produto essencialmente de aventura,
pelo prazer do confronto de forças opostas, se justifica já que o filme cumpre
bem esse papel de entreter. Pena que o final se renda tanto a um conforto dado
ao público, em especial pela conclusão descarada que serve ao protagonista (falta
coragem ali!). Mesmo assim, O Cavaleiro
das Trevas Ressurge
está longe de desastroso, mas longe também da
grandiloquência temática dos seus antecessores.

4 thoughts on “O fim necessário

  1. Acho que um dos pontos que mais me chamou a atenção em "Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge" foi a necessidade de mostrar a construção de um heroi ou como um heroi é forjado. Para mim, boa parte da trama do longa circula nessa atmosfera. No resto, temos aqueles temas recorrentes dessa franquia, notadamente a sombra do mal, um líder anarquista e lunático e planos de mega destruição geral e total. Muita gente tem falado mal do final. Eu acho que o final aponta para novas possibilidades de abordagem desta trama, mas, ao mesmo tempo, me incomodou muito o tom condescendente de algumas das afirmações do Batman. Pra mim, Nolan, com esse filme, vislumbrou um futuro para a sua franquia. E o diretor consegue esconder bem as falhas do seu roteiro graças à sua grande capacidade técnica.

  2. Elizio, essa pausa aí foi estranha, o que piora o que já está demorando.

    Kamila, mas essa discussão da necessidade de formação do herói já foi feita, brilhantemente, lá no Begins, e o Dark Knight só reforça essa necessidade. Sinceramente, não me convence essa ideia de que esse terceiro está aí para fechar certas pontas soltas que para mim não existem. E os problemas de roteiro me parecem mais explícitos do que nunca aqui. Mas tudo bem, tecnicamente é muito bom.

    Não sei se belo, Antonio, mas não fez feio.

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