O amor e outros objetos pontiagudos

Eu Receberia as
Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios
(Idem, Brasil, 2011)
Dir:
Beto Brant e Renato Ciasca
Duas
parcerias têm feito muito bem a Beto Brant. Primeiro, a relação criadora com
Renato Ciasca, seja como codiretor, como em Cão
sem Dono
e nesse filme aqui, mas também como roteirista de outros projetos
e ainda como produtor. Depois vem a proximidade com o universo temático e as
histórias do escritor Marçal Aquino, de quem adaptou alguns de seus trabalhos e
com quem escreve junto alguns de seus roteiros. De fato é um grupo potente
artisticamente, muito porque as obras que eles construíram, tendo Brant como
cabeça, perfazem um bloco bastante coeso no cinema brasileiro contemporâneo.
A
bola da vez é transposição para as telas do último livro de Aquino, Eu
Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios
, filme de uma beleza
dura incrível que reforça o imenso talento de seus criadores, com certeza um
dos melhores nacionais do ano. Para além do belo título da obra, Brant, Ciasca
e Aquino lançam um olhar sobre personagens marginas que tentam encontrar seu
espaço social, embora se traiam pelos próprios desejos. Além disso, encontram
aporte no lugar ao redor em que vivem, mais especificamente a região Norte do
Brasil, surgindo como uma seara ainda a ser melhor descoberta, um tipo de
mistério que dialoga com o tom enigmático do todo abarcado pelo filme.
E
essa região vai ser desenhada como um ambiente gostosamente perigoso em que o
fotógrafo Cauby (Gustavo Machado) vai manter um caso com Lavínia (Camila
Pitanga, aqui em estado de graça e desequilíbrio), uma ex-prostituta
retirada das ruas e das drogas pelo seu agora marido, o pastor Ernani (Zécarlos
Machado), em missão religiosa naquela comunidade ribeirinha.
Se
a fotografia do filme, de tons naturais, surge aqui com suavidade e calor para banhar o
corpo de seus atores, faz jus a uma direção da mesma forma naturalista com uma
liberdade de movimentos de câmera que reforçam não só a provável improvisação
das cenas, mas também a imprevisibilidade dos acontecimentos. A direção exala
segurança na forma como demarca essas indicações de desarranjo, por mais
misteriosos que sejam alguns momentos (bom exemplo é a cena em que Cauby ajuda
um estranho à noite a empurrar o carro numa rua semiescura). Uma das virtudes da obra é de nunca
sabermos como tudo aquilo pode acabar, na medida em que o filme apresenta
caminhos tortuosos na história, em especial no seu terço final, além de voltar
ao passado de Lavínia e Ernani no devido tempo.

Mas
aos poucos, a situação de Cauby vai se tornando nebulosa, muito por conta de
seu envolvimento lascivo com a mulher casada, pairando no ar um certo tom de
tragédia anunciada. Nesse sentido, os fades
in/out
(bem rápidos e precisos) que encerram as sequências do filme, assim
como a trilha sonora pontual, acentuam esse clima de tensão que antecipa destinos trágicos. Há ainda
personagens secundários, como o colunista social Viktor Laurence (o ótimo Gero
Camilo), uma espécie de poeta maldito e amigo de Cauby que o alerta para os
perigos da região, além do homem misterioso da cena do carro descrita acima,
que se revela um artista de circo, além de uma outra faceta secreta, seu rosto misterioso
e marcado surgerindo cuidado pela frente, marca dos mais perigosos.

É
aí que todo o elenco do filme se mostra afiadíssimo nessa naturalidade de se
ambientar àquele lugar escondido, quase sombrio (e o filme vai usar muitos habitantes nativos
para compor o quadro de figurantes, dando dimensão mais “real” à ambientação,
contrastando com os personagens principais, sendo estes forasteiros ali). Mas é mesmo
Camila Pitanga quem rouba o filme com sua presença – e beleza – magnética, mas
também alucinada, dando conta de desenvolver não somente dois momentos de sua
personagem, o antes e depois de conhecer Ernani, mas ainda uma terceira camada
que se apresenta na parte final do filme. Não há dúvidas que esse papel serviu
para a atriz desnudar o talento imenso que nunca teve chance de expor de forma
tão crua e potente.

Sendo
Cauby um fotógrafo, o filme é bastante feliz em revelar essa fixação dele por
imagens, e o corpo nu de Lavínia surge como a mais bela das inspirações,
recobrindo (e se reconfigurando) nas paredes de sua casa. É essa figura que o
engole e engana nos caminhos dos amores fortuitos, ganhando dimensão maior e repleta de perigo. Para quem está acostumado a aponta as lentes de sua câmera, é ele quem vai ser pego de surpresa sendo mirado,
à queima-roupa, numa das cenas mais tocantes do filme. Fica ainda a imagem final
de lábios dos quais, apesar de trazer tanta desgraça, ainda é possível dizer que deles
se ouviriam as piores notícias.

6 thoughts on “O amor e outros objetos pontiagudos

  1. A fotografia do filme fala por ele, e esta é muito boa. Agora, mostrar a trajetória de cada um no seu devido momento e mostrar uma personagem de Camila Pitanga 9por sinal, muito bem interpretado) na luta contra o vício, com suas recaídas e sem ser excessivamente moral é esplendido! =)

  2. Elizio, toda a carga mais social do filme é muito bem desenvolvida, não só a questão do vício, mas também os conflitos ambientais. Mas acho que o lado amoroso é mais desprovido de moralismos, o que é uma maravilha.

    Antonio, pra mim já é o melhor nacional do ano. Não deixe de ver.

    Pois é, Bruno. Ainda mais se formos pensar no ano passado que foi bem fraquinho. Não deixe de ver esse.

  3. Eu estou bastante curiosa para assistir a este filme, porque tenho lido opiniões interessantes a respeito do longa. Além disso, gosto muito do trabalho do Beto Brant, especialmente do fato de que ele é um diretor que nunca se repete, especialmente nas temáticas abordadas. E, claro, tem a atuação elogiadíssima da Camila Pitanga, que também muito medeixa curiosa.

  4. Exato, Kamila. Essa coisa do Brant nunca se repetir é muito interessante porque cada novo filme dele é uma surpresa, vem em uma nova roupagem, embora exista uma marca bem própria. Gosto de todos que eu vi. Camila Pitanga tá um arraso, atuação feminina a se bater este ano.

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