Nós

Tem sido muito curioso e louvável o percurso que Jordan Peele vem traçando no cinema. Vindo da comédia televisiva, Peele firma-se como uma das vozes mais influentes do terror contemporâneo, gênero que tem proporcionado uma safra riquíssima nos últimos anos ao abandonar certa zona de conforto classicista, investindo em obras muito mais instigantes e potentes do que uma mera fábrica de sustos e mortes gratuitas em série.

Não só pela reinvenção das estratégias do horror como suporte para o tensionamento enquanto efeito narrativo, mas especialmente pela dimensão alegórica através do qual esse horror é visto – o que de horror já existia no extrato social, político e histórico de nosso presente e que os filmes só fazem destacar –, não resta dúvida de que Peele apresentou até então um projeto de cinema muito coeso e munido de uma pretensão de comentário político via alegorias e metáforas.

No caso de Nós, isto se revela muito claramente no próprio significado que o título assume na trama, no que ele é capaz de revelar sobre algo muito maior do que aparenta à primeira vista, algo que se mistura com o mistério da trama: uma família, aproveitando as férias numa casa de veraneio, é confrontada com um grupo de pessoas que passam a persegui-los, tentando matá-los. Logo se nota que esses perseguidores são fisicamente iguais a cada um deles, como duplos maléficos e bizarros.

Mas sendo este um filme do diretor de Corra!, as muitas camadas dessa história começam a aparecer antes mesmo de apresentado o perigo que envereda pelo drama da invasão domiciliar. Adelaide (Lupita Nyong’o), a mãe, desde o início do filme, é constantemente perseguida por lembranças do passado quando criança se perdeu num parque e, num quarto de espelhos, se deparou com uma garota igual a si mesma. Desde então, carrega um trauma que parece dar as caras agora no presente.

É curioso perceber como Peele investe fundo no suspense e no clima de horror, conferindo sustentação e peso ao elemento de medo e perigo que passa a rondar esses personagens numa noite violenta e sangrenta. Ao mesmo tempo, ele está costurando algo que ganhará proporções maiores até o final do filme. Mas no aspecto narrativo, Nós reforça o domínio de Peele sobre as marcas do gênero e confere ritmo preciso ao longa, aquela deliciosa sensação de assistirmos a algo de olhos pregados, o interesse não escapa em momento algum. Não há firulas nem joguetes de encenação que tentem impressionar gratuitamente o espectador.

Nesse sentido, o filme chega a ser mesmo didático em alguns momentos (o da reunião das duas famílias na sala de estar, por exemplo), mas Peele prefere essa frontalidade direta do que apostar em subterfúgios baratos. O restante fica por conta do trato preciso dos recursos básicos do cinema: efeitos sonoros e trilha pontuais, montagem alternada, fotografia a serviço do jogo mistério/revelação. Gosto particularmente do registro de estupefação paralisante diante do desconhecido que os personagens experimentam em certos momentos do filme – e aqui vale destacar o elenco exemplar que vai desde uma Lupita Nyong’o sensacional até uma incrível Shahadi Wright Joseph, que interpreta sua filha, as melhores em cena. E há ainda o alívio cômico encarnado no personagem do marido, vivido por Winston Duke, fazendo jus à habilidade para a comédia que Peele nunca perdeu.

Toda a jornada de descida ao inferno da família ganha centralidade no filme, porém é no arremate final que o diretor deposita a força política da obra, via alegoria que dessa vez tem a ver com certo sentido de identidade. O ser “americano” é posto em xeque a partir de uma espécie de rebelião muito peculiar que ganha a superfície dos Estados Unidos – esse país erigido pela força do trabalho escravo e servil como praticamente todos aqueles frutos de um perverso processo de colonização, o que serve também para o Brasil. Nesse ponto, o filme, de certa forma, torna-se refém de toda uma formulação conceitual, quase mitológica, porque beira as tramas de uma sci-fi mais realista, que ronda a existência e os planos do grupo de invasores. No fundo, Nós constrói uma metáfora muito poderosa sobre aqueles que foram renegados e escamoteados na sociedade (leia-se aí os negros, pobres e miseráveis do país que eles mesmos ajudaram a erguer – mais sobre isso na parte final do texto).

O que está por trás de todo o mistério que ronda a família e seus duplos parece até mais forte do que aquilo que estava no cerne dramático de Corra!, a propensão de Peele em sempre dotar seus filmes de um sentido macro. Espero que ele não se torne refém de uma determinação por fazer seus filmes sempre guardarem um sentido maior, mais profundo, o dito cinema-tese, porque ele é um diretor de mão cheia e o horror do mundo atual que nos rodeia cotidianamente já nos assombra com facilidade.

 

Alerta de Spolier! A partir daqui, o texto revela segredos da trama que servem para uma leitura mais ampla do filme. Recomendado a leitura para quem já viu a obra.

Na esteira desse cinema alegórico, muitas leituras poderão ser feitas sobre o filme e seus significados escondidos. Uma delas particularmente me acompanhou na segunda vez que eu assisti ao longa e gostaria de ensaiar aqui uma interpretação: Nós é uma alegoria muito ampla e simbólica sobre a servidão e, mais adiante, sobre um certo ideal de visibilidade.

Pois bem, vamos nos deter sobre o que está por trás dos planos e intenções dos duplos (que podemos chamar de clones, cópias, doppelgängers, o que seja). Particularmente na conversa entre Adel e sua dupla, já no subterrâneo, a clone revela o sentido de duplicidade que existe entre os que estão lá em cima e suas cópias ali embaixo. Estes repetem tudo o que os de cima fazem, como marionetes, sem direito a desejos, vontades e atitudes próprias; eles são os Acorrentados. Também fala de que antes eles eram prestativos à sociedade, mas depois deixaram de ser importantes e foram encerradas ali naquele submundo.

Tudo isso remete primeiramente à escravidão e ao trabalho servil: pessoas, em sua maioria negros trazidos da África, foram escravizados, explorados e obrigados a trabalharem para os senhores da terra; mas também homens brancos e pobres tiveram que passar por experiências semelhantes de exploração a custo de subsistência. Depois disso, eles foram relegados pela sociedade: levados para as periferias, guetos, quase escondidos e privados de um convívio social “oficial”, tendo de reinventar formas quase clandestinas de sobrevivência e coletividade próprias, nas periferias e subúrbios das cidades.

São essas pessoas que hoje desejam liberdade, dignidade, querem ocupar os mesmos espaços que os demais, desejam desfrutar das mesmas benesses sociais que qualquer cidadão, e aqui chegamos ao equivalente metafórico disso no filme. Afinal, qual é a intenção dos duplos, o que eles querem perseguindo e matando as pessoas? Mais que isso, por que fazer aquela corrente humana gigantesca? A resposta é simples: é um anseio por visibilidade. Querem ser vistos, reconhecidos, compreendidos como iguais. Eles também são americanos, ou melhor, seres humanos.

É claro que na mitologia criada por Peele dentro das marcas do gênero, esse método de visibilidade passa pela morte, derramamento de sangue, pela distribuição do medo e precisamos entender isso de modo metafórico – a menos que alguém acredite que Peele advogue a favor do assassinato da população abastada que historicamente expulsou e marginalizou os demais. De qualquer modo, Nós cresce a partir dessa leitura macro que parece, desde o começo, ter uma intenção clara de provocação, traço forte do cinema que ele vem construindo a partir do deleite e das potencialidades do horror.

Nós (Us, EUA, 2019)
Direção: Jordan Peele
Roteiro: Jordan Peele

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