Música de dentro

Inside Llewyn
Davis – Balada de um Homem Comum
(Inside Llewyn Davis, EUA/Reino Unido/França,
2013)
Dir:
Joel Coen e Ethan Coen 

 
Inside Llewyn Davis, que recebeu no Brasil o apropriado subtítulo Balada
de um Homem Comum
 (apesar do título original fazer muito sentido
também), carrega esse espírito de tristeza que marca a trajetória cambaleante
de seu protagonista. Ele é um cantor de folk music que vive
nos Estados Unidos do início dos anos 1960 na era pré-Dylan. Quer fazer
sucesso, mas não consegue.
Llewyn Davis (Oscar Isaac) é um
ser errante. Seu olhar entristecido revela o homem que esbarra nas dificuldades
de alavancar a carreira e também nos problemas cotidianos, com a habitual falta
de grana e o fato de sempre precisar dormir na casa de alguém a cada noite.
Vive como em um mundo paralelo, sempre se dando mal, à cata de pequenos
trabalhos que o sustente e oportunidades que o faça deslanchar na carreira. A
própria música que canta é reflexo de um estado de espírito carregado de
tristeza, isso que vem lá de dentro dele, mas que nem sempre consegue se
comunicar com o público.
É também com a bela (e por vezes
assombrosa) fotografia de Bruno Delbonnel que o filme melhor consegue traduzir
esse mundo soturno em que vive (ou vaga) o personagem. Vez ou outra há uma
ponta luminosa de esperança, como o encontro que ele consegue com um importante
dono de uma famosa casa de shows, mas no geral o ar lúgubre ronda esse músico talentoso, cuja vida lhe dá poucas
chances.
Mas não seria um filme dos irmãos Coen se
não houvesse nesse entremeio boas pitadas de humor negro. Llewyn se aproxima
muito dos personagens idiotas que transitam na obra dos diretores, como que à
mercê das circunstâncias fatídicas que fazem de suas vidas um emaranhado de
caminhos desastrosos, embora haja aqui ainda uma grande dignidade para com esse
artista tentando sobreviver na selva do mercado musical.
É aí que ganha força alguns
personagens secundários, como elementos que interferem na vida do protagonista
sem muita piedade. É o caso da enervante Jean (Carey Mulligan), a namorada de
um amigo com quem ele teve um caso, quase esmagando o protagonista a cada frase
que diz; ou o excêntrico Roland Turner, vivido por um inspiradíssimo John
Goodman, com quem Llewyn pega uma surreal carona. Até mesmo o gato de um de
seus amigos “inquilinos” se afeiçoa a ele, perfazendo quase como uma espécie de
seu alter-ego, um animal que vive fugindo, mas sempre voltando para o mesmo
lugar. 

O novo filme dos Coen é, portanto, mais um pilar
sólido dentro de uma obra já madura. Aqui, por exemplo, os diretores brincam
muito bem com a montagem, seja na decupagem das cenas, no timing exato
de cada corte, seja na não-linearidade com que a narrativa é conduzida,
especialmente na forma como a história volta ciclicamente ao ponto de partida.
Tudo feito com muita segurança, apesar de não ser um filme de grandes momentos.
Nem é um grande momento para Llewyn Davis, fadado a continuar apanhando da
vida.

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