Mostra Tiradentes – Parte V

Ressurgentes: Um
Filme de Ação Direta

(Idem, Brasil, 2015)
Dir:
Dácia Ibiapina
  
Filme-resumo das atividades dos movimentos sociais do Distrito Federal, Ressurgentes:
Um Filme de Ação Direta
 é a entrada de um produto estritamente
político, formalmente muito convencional, num festival tão aberto a
subjetividades. O filme acompanha os últimos dez anos das ações do Movimento
Passe Livre (MPL), composto na sua maioria por jovens estudantes da Universidade
de Brasília.
A diretora Dácia Ibiapina, professora da UNB, é uma militante
reconhecida no DF e faz de seu filme uma bandeira em prol da luta do MPL,
sempre do lado de dentro. Nada contra esse relato apaixonado de um tipo de
militância que tanta visibilidade tem alcançado nos últimos anos no Brasil. Mas
a coisa se complica quando o filme torna-se o lugar de vangloriar o movimento a
partir de um ponto de vista interior, chegando à conclusão de ser ele
“vitorioso” diante da várias ações nas quais tomaram parte ao longo desse
tempo.
Para além de ser um filme politizado que abraça um lado da questão tão
abertamente, é estranho enxergá-lo aqui na competição em Tiradentes entre
filmes tão mais desafiadores e arriscados, menos didáticos, ainda que nem
sempre melhores por conta disso. 
Se existe algo de muito potente aqui é a força de algumas imagens que
encontram no corpo dos jovens essa energia para enfrentar, na cara e coragem,
os poderes opressores do Estado. E o filme oferece momentos interessantes de
registro (a cena de abertura com a invasão da Câmera Legislativa, a discussão
com o policial que exige desculpas, os vídeos flagrantes de políticos recebendo
propina e enxertando cuecas e meias com bolos de dinheiro).
Mas isso não garante a legitimidade de um discurso que se revela tão
partidarista e, por isso mesmo, discutível. Não que se duvide dele, mas por
impossibilitar uma visão global de coisas tão complexas no campo político.
Medo do Escuro (Idem, Brasil,
2015)
Dir:
Ivo Lopes de Araújo

Muito
longe do classicismo está o último longa apresentado na Mostra Aurora, o pós-apocalíptico
Medo do Escuro, dirigido por Ivo
Lopes Araújo. Ele é mais conhecido como diretor de fotografia de diversos
filmes dessa nova cena independente brasileira (como os longas Tatuagem e o baiano Depois da Chuva).
O
filme traz a marca conceitual do coletivo Alumbramento, grupo cearense que vem
se destacando nessa cena contemporânea como sinônimo de inventividade e inquietação,
goste-se ou não de alguns de seus produtos. Foi apresentado ao público com
trilha sonora ao vivo, com direito a muitas batidas e samplers eletrônicos, ruídos, sons guturais e bateria enlouquecida.
Tudo para elevar a força de um filme totalmente sem diálogos.
Medo do Escuro narra as
desventuras de um rapaz perdido numa cidade devastada, caótica e abandonada.
Visualmente, é um deslumbrante, ainda que de aspecto sujo, compondo o visual de
seus atores através de maquiagem e figurinos bastante carregados, algo entre o
lúdico e o bizarro (quase kitsch).
A
história se apropria vagamente de elementos do filme de heróis em resistência num
mundo distópico (referências podem ir de Mad
Max
a Fuga de Nova York, passando
pelo submundo underground de filmes de vampiros rebeldes como Os Garotos Perdidos), com direito a gangue de vilões mal encarados e uma
guerreira misteriosa na trama. O filme brinca com as marcas de um gênero outrora
popular, criando uma atmosfera de estranheza e aventura que vai convidando o
espectador a embarcar naquela proposta e entender suas amarras narrativas,
ainda que muito fique em suspenso. 

Certamente é um dos
trabalhos mais criativos vistos durante o festival, arriscados também, chamando
atenção para si pela energia que vigora dali, embora se exceda num final que se
alonga mais do que necessário – talvez para que a catarse musical aconteça. Mas
esse tom acima, over por excelência, é
o que torna o filme tão vibrante em sua essência.

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