Mostra Tiradentes: A Rainha Nzinga Chegou

A tradição dos reinados e congados, enraizados na cultura popular brasileira, muito mais comum em Minas Gerais, ganha um sopro de louvação e luz em A Rainha Nzinga Chegou, filme dirigido em conjunto por Junia Torres e pela atual Rainha Conga da Guarda de Congo e Moçambique 13 de Maio, Isabel Casimira Gasparino. Fica evidente assim que o filme parte de um lugar muito próprio de vivência e conhecimento que as diretoras, cada qual de modo distinto, fazem imprimir no longa, uma jornada de autoconhecimento e também de entendimento de uma missão, especialmente para Isabel, ou Belinha, como muitos a chamam.

Sendo então filme muito amoroso, com um quase quê de caseiro, muito familiar, algo que parece reger as próprias imagens que marcam a primeira parte do filme – um tanto amadoras, sem grandes preocupações estéticas e mais de registros fundamentais –, o longa se permite adentrar, sem muita cerimônia – no sentido da precaução e cautela – nesse universo tão mítico, tão feminino; um matriarcado, sua guarda e todo um sistema religioso marcado por regras e características muitos próprias, muito peculiares, manifestações tão ricas e que remetem a um passado histórico de formação e resistência dos povos africanos que foram trazidos à força para o Brasil.

Mas antes de se lançar como vetor revisionista, é muito bom encontrar um filme que se constrói sem didatismos para um documentário que trata de tema muito circunscrito culturalmente – e penso que em certa medida muito marginalizado (não sei precisar exatamente o quanto o Reinado da Guarda de Moçambique 13 de Maio – e outros existentes em Minas – são tão comuns e conhecidos em Belo Horizonte). Ao mesmo tempo, nós somos levados a nos inserir e nos familiarizar com aquele ambiente, com aqueles ritos, inclusive acompanhando um processo de transferência de coroa, de sucessão hereditária de liderança.

Não que ele seja ahistórico ou negue o dado contextual, muito pelo contrário – as cenas inicias de arquivo, os depoimentos de Dona Isabel sobre a fundação do Reinado por sua mãe, a parte final da viagem na interlocução com os angolanos (explicando sobre o coroamento, sobre a feitura da coroa e recebendo, em troca, outras informações). Por outro lado, não há crédito do nome e identificação dos entrevistados, nem da origem das imagens de arquivo que abrem o filme.

Nesse sentido, é possível arriscar que A Rainha Nzinga Chegou parte muito mais de uma operação narrativa de revelação, inicialmente marcada em momentos muito pontuais no filme; e depois, noção ampliada para um processo narrativo que compreende os caminhos que o próprio filme segue a partir da compreensão do que significa também aquela jornada para sua diretora-personagem.

Essa ideia de revelação, precisamente falando, fica evidente em dois momentos específicos do filme: quando Dona Isabel nos apresenta sua filha e na cena em que descobrimos estar presenciando um ritual muito importante naquela casa. Em ambos os casos, a câmera do filme faz isso com um movimento lateral sutil – para a esquerda e depois para a direita, respectivamente – e assim amplia, na manifestação da imagem, algo que cresce e nos apresenta compreensão, sem grande esforço. No primeiro caso, Dona Isabel fala da sucessão do trono em que sua filha se apresenta como candidata mais suscetível a ocupar a posição de Rainha quando ela se for, e a câmera revela a jovem Belinha (Isabel Casimira, como sua mãe), tímida e acanhada pelas palavras da matriarca, ao seu lado. No segundo momento, o filme apresenta uma elipse que nos joga para o destino inescapável da vida, sem floreios, mas com respeito e admiração suficientes para entendermos o curso natural das coisas.

E mais ainda, uma surpresa: o filme logo muda de paisagem e passamos a seguir os personagens em viagem para a África, mais precisamente Angola, terra de reis e rainhas que lutaram contra dos domínios portugueses e o brutal processo de colonização e escravidão, paina torpe da História cujos desdobramentos, para o bem e para o mal, fincam raízes das manifestações de resistência e vida representadas pelos reinados. O retorno às terras dos antepassados, dos “tatas”, como diz Belinha, abre um novo curso no filme, e é a partir desse gesto que ampliamos a noção de revelação: para o filme, é um processo de reencontro com a ancestralidade; para Belinha, é o curso de aceitação de sua missão, a compreensão maior e o fortalecimento da crença no que lhe foi legado. O momento em que Belinha experimenta a pegada da mítica rainha Nzinga e responde a isso com uma música improvisada (“Eu pisei na pisada da Nzinga / Eu pisei na pisada da Nzinga / Eu pisei na pisada da vovó / Eu pisei na pisada da vovó”) é um desses momentos sublimes de comunhão partilhada.

O convite feito pelo filme (ou aquilo que o move) parte de um entendimento que não vem necessariamente dele – não é o da Junia Torres, diretora, que quer saber e desvendar aquele culto e suas marcas, as especificidades da Guarda 13 de Maio; passa mais pelo gesto natural de Belinha, diretora e personagem, que conduz a trajetória do filme a partir de seu próprio desejo de comunhão, de ensinamento e aprendizagem, de olhar para dentro de si. Não há nenhum gesto nesse filme que não transborde respeito e compreensão pelo ritual que é seguir vivendo e carregando nas costas – no sangue – a força (o axé), o propósito e as demandas de quem veio, e lutou, antes.

A Rainha Nzinga Chegou (Brasil, 2018)
Direção: Junia Torres e Isabel Casimira
Roteiro: Junia Torres e Isabel Casimira

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