Mostra SP: Wasp Network

A última (e talvez primeira) aproximação do cineasta francês Olivier Assayas com a América Latina se deu quando ele dirigiu o épico Carlos, o Chacal – série posteriormente lançada nos cinemas num filme de 5h30. Agora, o diretor assume a direção desse Wasp Network, adaptação do livro-reportagem Os Últimos Soldados da Guerra Fria, do brasileiro Fernando Morais, que remonta ao  período pós queda do Muro de Berlim e colapso do comunismo quando o governo cubano criou uma rede de espionagem para se infiltrar nos Estados Unidos nos anos 1990.

É o típico filme de encomenda que, neste caso, tornou-se uma armadilha: Assayas adapta com fidelidade o material original para as telas, mas é justamente isso que lhe tira a personalidade (mesmo assinando sozinho essa adaptação) – ele que é um autor renomado, faz um tipo de cinema muito particular, ainda que por vezes irregular. Na medida em que precisa dar conta de uma narrativa com muitos personagens e desdobramentos, o diretor vai conduzindo burocraticamente uma trama muito mais complexa do que o filme consegue sustentar.

Curiosamente, o filme se estrutura da mesma forma que o livro, segue a mesma ordem de acontecimentos e ainda assim é difícil encontrar o ponto de sustentação que por vezes correlaciona histórias tão diversas como a dos cubanos que desertam e passam a viver em Miami como opositores do regime castrista até a dos mercenários cooptados a cometer ataques em pontos turísticos de Havana. O filme passa da metade e ainda está apresentando novos personagens.

Há uma macro história ali (o processo de espionagem cubano), ilustrado pela vida privada de alguns dos integrantes da operação. René Gonzalez (Edgard Ramírez) trabalha como piloto de aviões de pequeno porte e um dia pega um dos aviões da empresa e foge para os EUA, deixando a mulher (Penélope Cruz) e a filha pequena em Havana, descrentes da traição do homem; Juan Pablo Roque (Wagner Moura) chega à costa litorânea de Miami a nado, desertor confesso de um regime que ele acusa de assassinar inadvertidamente seu irmão e alguns amigos. Outros serão apresentados no decorrer do filme, como o líder da operação (vivido por Gael García Bernal) que passou a ser conhecida como Rede Vespa.

Ela nada mais era do que uma resposta ao mesmo tipo de serviço de espionagem feito pelos americanos que, mais que isso, promoviam diversos atentados terroristas encabeçados por grupos e associações anticastritas sediadas em Miami. Eles promoviam de explosões em hotéis de luxo até invasão do espaço aéreo cubano com aeronaves que espalhavam palavras de ordem contrárias ao regime e à figura de Fidel Castro, tudo isso com o intuito de minar o turismo e a economia da ilha. Um dos momentos chave do filme resgata uma entrevista dada pelo próprio Fidel na televisão em que ele se irrita com a ideia de os Estados Unidos estarem acusando Cuba de espionagem, sendo a América “o país que mais espiona no mundo, e Cuba o país mais espionado no mundo”.

Nesse sentido, Wasp Network posiciona-se claramente a favor do ponto de vista cubano da História. O filme tenta, em certa medida, dimensionar a vida desses personagens desgarrados do solo natal, ainda que apressadamente. O filme possui esse tipo de impasse narrativo tão evidente (como dar conta de uma estrutura de poder tão complexa a partir de dramas individuais?) que quando uma reviravolta importante precisa ser apresentada no meio da trama, surge uma voz over de um narrador que nunca apareceu no filme para poder explicar os detalhes – esse narrador misterioso irá aparecer mais uma única vez até o final do filme, com a mesma função.

É aí que o filme transparece pouco a mão do diretor sagaz e autoral que Assayas costuma ser. Há uma única sequência em que se vislumbra o velho cineasta experiente: quando o mercenário Cruz Léon provoca atentados em Havana. Ainda que seja um momento rápido dentro do roteiro, há uma tensão expressa pela câmera na mão e pelo ritmo acelerado da montagem que podemos vislumbrar em filmes tão distintos da carreira do diretor como Traição em Hong Kong e Personal Shopper. De resto, Wasp Network é um emaranhado de pontas soltas que tentam se encontrar.

Wasp Network (França/Espanha/Bélgica, 2019)
Direção: Olivier Assayas
Roteiro: Olivier Assayas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Arquivos