Mostra SP: Túmulos sem Nome

Quem já viu A Imagem que Falta vai reconhecer facilmente o terreno em que Rithy Panh pisa aqui em seu novo filme. É como se ele construísse um projeto de cinema dedicado a rever e recuperar a memória de um país marcado pela barbárie, como é o caso de sua Camboja natal. Túmulos sem Nome é mais um tijolo erigido nesse muro reconstruído da História que precisa ser (re)contada e discutida pelas gerações atuais.

Ambos os filmes são irmãos. Se o primeiro concentrava-se na reflexão sobre a ausência de imagens que dessem conta de uma representação minimamente verossímil de uma época obscura, o trabalho mais recente dedica-se em reverenciar os mortos, em especial aqueles que não tiveram direito a uma última morada digna – o que, no fundo, significa a mesma coisa: resgatar e representar um momento indigesto da História do Camboja.

Repetindo um mesmo método narrativo anterior, Panh, num primeiro momento, oferece aquilo que está ausente: aqui, são os túmulos que faltam. E são muitos. Durante o duro regime ditatorial do Khmer Vermelho, em meados dos anos 1970, muitas famílias perderam entes queridos, enterrados em valas comuns ou desaparecidos, quando não famílias inteiras foram dizimadas e sumiram sob o véu nefasto do genocídio cambojano, como ficou conhecido. Panh, num gesto simbólico, barroco, cria pequenos túmulos de bambus para encerrar ali fotos de algumas dessas pessoas que nunca foram enterradas na vida real. O diretor lhes fornece um funeral simbólico e, ao mesmo tempo, oferece ao espectador um quadro meditativo sobre as agruras de morrer de forma tão cruel – quando não executadas, as pessoas morriam de fome e doenças diversas enquanto eram obrigadas a trabalhos forçados nas comunidades rurais do país.

Trata-se de um gesto amparado em pressuposto religioso, antes de mais nada – não conheço nenhuma religião que não cuide do momento da morte, que não se detenham em arranjar um último pouso para o corpo e um último alento para o espírito seguir seu caminho, qualquer que seja ele. O filme busca apoio também na crença religiosa através daqueles que possuem o dom mediúnico de se comunicar com os espíritos, na tentativa de estabelecer algum tipo de comunicação – que significa também paz para os familiares que ficaram e guardaram as dores e cicatrizes da perda trágica.

No entanto, tais gestos realizados pelo filme guardam, num segundo momento, o interesse mais latente de Panh que é o de retomar o fluxo da História a fim de reavivá-la e resgatar um sentido de reconstrução memorial, tendo no centro disso tudo a revelação da tragédia dos mortos sem nome, sem túmulos, sem passado. Para tanto, o diretor utiliza o mesmo dispositivo que ele já usou lá em A Imagem que Falta: primeiro, construir em miniatura aquilo que estava ausente no mundo real (naquele caso, toda uma representação imagética da vida numa dessas aldeias rurais; e aqui, os túmulos por si sós para aqueles que não tiveram direito a um).

No fundo, todas as estratégias narrativas serão repetidas no novo filme, o que torna Túmulos sem Nome um tanto redundante. Panh usa de uma narração em off para dar conta de seus próprios anseios e intenções com a obra, misturados com suas memórias e reflexões, tudo com aquele tom herdado de certo ensaísmo literário francês, carregado de poesia e apuro verbal.

É um tanto delicado minimizar esse esforço porque, por si só, ele já carrega uma dignidade incontestável. Porém, Túmulos sem Nome, muitas vezes, acaba repetindo até mesmo o intuito e o recado que já havia sido dado anteriormente. Há uma insistência em manter uma série de entrevistas com pessoas que parecem falar as mesmas coisas, além de que o filme ensaia muitos finais possíveis e vai postergando-os, o que acaba tendo efeito contrário ao da força das denúncias e sua tradução poética.

Túmulos sem Nome (Les Tombeaux sans Noms, França/Camboja, 2018)
Direção: Rithy Panh
Roteiro: Rithy Panh

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