Mostra SP – Parte VI


Por las Plumas (Por las Plumas,
Costa Rica, 2013)
Dir:
Neto Villalobos

Por las Pumas faz todo o tipo
de filme singelo, com personagens estabanados, mas carismáticos. Chalo (Allan
Cascante) trabalha como segurança de um pequeno estabelecimento, embora sem o
porte físico para tal. Tem poucos amigos, como o colega de trabalho Jason (Marvin
Acosta) e a empregada doméstica revendedora de Avon Candy (Sylvia Sossa).
Acontece
que Chalo é obcecado por rixas de galo. Tenta a todo custo comprar um animal
desses bons de briga. Quando consegue, apelida-o de Rocky e passa a treiná-lo
para o tão sonhado confronto. Quer ganhar dinheiro com isso. Por las Plumas é espirituosíssimo na
forma como embala os anseios e sonhos daqueles tipos, pendendo para a
comédia mais sutil, sem nunca tornar seus personagens caricaturas.
O
mundo solitário de Chalo não lhe parece tão vazio assim porque ele se satisfaz
com seus sonhos, ainda que morando numa casinha humilde, seus amigos assumindo
o posto de família temporária. O diretor estreante Neto Villalobos encena uma rotina tranquila,
ainda que sem grandes emoções diárias. Mas é aí que o filme ganha o espectador
pela singeleza de uma vida palpável, contrapondo-a à violência que emana das
rinhas de galo.
Um Pombo Pousou
num Galho Refletindo Sobre a Existência
(En Duva Satt På En Gren Och Funderade
På Tillvaron, Suécia/Alemanha/Noruega/França, 2014)
Dir:
Roy Andersson 

 

Um
pombo num galho, empalhado, numa redoma de vidro; um homem, bastante pálido, observa
o animal. O tempo parece suspenso, a câmera está fixa, pouco movimento dentro
do quadro, fotografia monocromática. Assim começa esse curiosíssimo filme que
parece operar numa outra dimensão de realidade. O absurdo filosófico do título
ganha um contorno perceptível: as mini-situações aqui apresentadas são pinçadas
de uma realidade que se querem nonsense
e, por isso mesmo, interessantes de serem postas em cena.
Esse
tipo de tableau vivant se repetirá
formalmente por todo o filme. Na verdade, trata-se de um dispositivo narrativo
já usado por Roy Andersson em seus trabalhos anteriores, Vocês, os Vivos e Canções do
Segundo Andar
. Perfazem uma espécie de trilogia dos absurdos cotidianos, via
humor negro na maneira de olhar para as pequenas desgraças humanas.
Ou
não tão pequenas assim: esse novo filme começa com observações sobre a morte e algumas
de suas idiossincrasias – sem deixar de serem hilárias, diga-se. Mas logo o
filme torna-se um amontoado de situações em que os personagens misturam-se e
retornam momentos depois, enfrentando conflitos por vezes banais, mas com
consequência tragicômicas.

algo de Jacques Tati nessa construção de quadros em que a atenção do espectador
pode ser levada a se fixar em certo ponto, diversos são os elementos que estão
distribuídos no plano. É o tipo de filme que brinca com as percepções daquilo
que temos diante de nós e daquilo que somos levados a perceber mais detidamente. É
também muito engraçado, perseguindo situações bizarras. Tão estranhas como pode ser o próprio dia a dia.
O Pequeno
Quinquin

(P’tit Quinquin, França, 2014) 
Dir:
Bruno Dumont
 
Seria
muito estranho testemunhar uma virada na carreira de Bruno Dumont. É certo que
esse O Pequeno Quinquin envereda pelos
caminhos da comédia de tons detetivescos, coisa muito distante dos filmes barra-pesada
que o diretor já fez. Mas é muito fácil reconhecer aqui o universo de Dumont: interior
da França, com sua gente simples e feia, envoltas em situações bizarras. É o
mundo cão no mesmo tipo de geografia que o cineasta está acostumado a observar.

ainda o fato do projeto ser originalmente uma série para a TV francesa, reunida
aqui num filme de mais de três horas de duração, muito palatável para se ver no
cinema, engraçado até certo ponto. Se essa era a maior qualidade do projeto, ainda
que numa medida muito particular em se tratando do diretor em questão, ela é o
forte e o fraco do filme.
Não
há dúvidas de que o longa rende boas gargalhadas em momentos inesperados – como
a menina que canta no funeral, o avô arrumando a mesa do almoço, a aparição do
herói “caipira-man”. Mas Dummont comumente ultrapassa o timming cômico, ora prolongando demais o efeito das gags, ora repetindo as mesmas piadas tempos depois – a
garota que insiste em cantar agudo será usada mais de uma vez para efeitos de
graça, por exemplo.
O
pequeno Quinquin (Alane Delhaye) e sua trupe de amigos endiabrados – além da
garotinha que surge como seu “par romântico” – estão ali para observar e
acompanhar as investigações de um crime misterioso: uma vaca é encontrada
morta num bueiro, com pedaços de corpo humano dentro dela. Essa é só a ponta de
uma série de assassinatos estranhos inseridos na atmosfera da pacata região interiorana.
Mas
mais do que o próprio protagonista, é o comandante de polícia Van der Weyden (Bernard
Pruvost), detetive ranzinza, com seus tiques incontroláveis na face, voz
embolada e comportamento arrogante, quem rouba o filme. Suas tiradas de metido
a esperto, sempre se achando no controle da situação, são ótimas.
Nesse
sentido, o filme está menos preocupado na resolução do caso policial em si – que se torna mais confuso e sem razão – e
mais focado no desfile de tipos estranhos, de comportamentos incomuns e
suspeitos. É mais uma maneira de Dumont lançar luz sobre a inexplicável crueldade
humana, ainda que seja naquele garotinho feio e atentado que parece residir uma
ponta de amor e afeto.
Relatos
Selvagens

(Relatos Salvajes, Argentina/Espanha, 2014)
Dir:
Damián Szifrón 

 
Encerrando
bem a Mostra SP, Relatos Selvagens
(que foi o filme de abertura) é uma das grandes surpresas da programação, filme
de humor negro em episódios que tinha tudo para desandar. É realmente prazeroso
ver um filme em esquetes em que todas elas são boas, sem exceção. E ainda são
coesas: o que reúne histórias e personagens tão díspares é essa veia instintiva
do ser humano para a violência extrema e vingança quando as agruras do cotidiano nos põem em prova.
Os
passageiros de um voo, a recepcionista de um restaurante vagabundo de meio de
estrada, uma família de classe alta, todos eles vivem seu dia de cão. Veem seu
mundo se revirar de ponta cabeça por conta de situações extremas que invadem sua rotina e inspiram ódio
crescente, esse mesmo que os faz perder a razão.
O
diretor e roteirista Damián Szifrón, com precisão absurda, seja ela de
encenação, seja no desenho do roteiro, surpreendente sempre que o filme
parece dar ares de que vai degringolar. Szifrón é habilidoso porque, para além
da veia cômica, sustenta cada história do início ao filme. O
resultado final supõe um controle milimétrico de cada instante de cena, sem forçações. 

O episódio da noiva – talvez o melhor e, justamente,
o escolhido para fechar o filme – é exemplar dessa precisão. A personagem vai
do ódio absoluto ao “dane-se tudo”, situação cheia de reviravoltas e sempre
imprevisível. Assim como o segmento dos dois motoristas que se digladiam na
estrada cresce em escracho, inverte expectativas e nunca perde o ritmo até o
final arrasador. Relatos Selvagens é
a prova de como é possível narrar bem e entreter, ser engraçado e não ofender;
enfim, fazer bom cinema.

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