Mostra SP – Parte II

Winter Sleep (Kis Uykusu,
Turquia/Alemanha/França, 2014)
Dir:
Nuri Bilge Ceylan

Winter Sleep
é um longo e
denso estudo de personagens, tipo de filme que busca fisgar o espectador pela imersão
que faz na psicologia de seres de carne e osso, desnudados principalmente
naquilo que possuem de condenáveis, ainda que não percebam essas nuances. Mas
nada de truques baratos de simbolismos ou códigos arquetípicos aqui, nem sentimentos
escancarados. Ceylan prefere revelar seus personagens através dos diálogos e situações
cotidianas e parece não se importar com o tempo que isso leva.
  

toda uma verborragia de onde os personagens deixam escapar suas vontades,
anseios, opiniões e posições; também transparecem aquilo que pensam sobre o
outro, sua personalidade e atitudes, muitas vezes julgando e apertando feridas.
Não é um filme fácil, tanto pela duração – são mais de três horas de “confrontos”
pessoais –, quanto pela aspereza das relações que se estabelecem ali, muito
sentida nas entrelinhas do que é dito e no como é dito.
É
quase o mesmo caminho seguido pelo filme anterior do cineasta, o maravilhoso Era uma Vez na Anatólia. Uma das
diferenças é que Winter Sleep
concentra-se em um grupo menor de personagens, embaraçados em seus conflitos. O
filme acompanha a rotina de Aydin (Haluk Bilginer), escritor e dono de uma pequena hospedaria na áspera e altiplana região da Anatólia, parte oeste da Turquia.
Vive com sua jovem esposa Nihal (Melissa Sozen) e com a irmã Necla (Demet Akbag), recém-divorciada.
Palma
de Ouro do último Festival de Cannes, o filme chega à Mostra SP com o hype lá em cima. Belissimamente
fotografado, as cores quentes dão o tom das discussões cada vez mais acaloradas
– em contraponto ao frio glacial que faz do lado de fora das casas. 
Ainda
assim, há muita frieza no que se diz e em como os personagens se portam,
especialmente em Aydin e sua arrogância velada, seu cinismo senhoril, numa
espécie de autoimposta superioridade diante dos que o cercam. Winter Sleep nunca deixa de ser duro, uma
quase contradição com a beleza e apuro com que Ceylan filma esse microcosmo tão
específico. Um filme de peso, ainda que excessivamente demorado.
Permanência (Idem, Brasil,
2014)
Dir:
Leonardo Lacca 

 
Permanência é muito eficiente
em estabelecer um clima, mas é uma pena que esbarre na sua própria intenção. O filme
busca captar uma sensação de desconforto, permeado por um desejo latente de duas pessoas, impedidos pelas circunstâncias. Ao mesmo tempo em que isso é o propósito do filme,
é também o que deixa a história no mesmo tom, pouco avança nos conflitos dos
personagens.
Ivo
(Irandhir Santos) é um fotógrafo pernambucano que viaja a São Paulo para sua
primeira exposição solo numa galeria. Fica hospedado na casa de sua ex-mulher, Rita
(Rita Carelli), já casada com outro homem (Silvio Restiffe). Há suspeita de uma término mal resolvido entre Rita e Ivo. O passado
não os deixa em paz.
De
fato, há uma sintonia evidente entre os dois protagonistas, algo de atração e
repulsa que mexe com seus sentimentos, reavive impulsos adormecidos. Mas se logo
nos primeiros dez minutos de projeção, quando eles se reencontram, essa inquietude
se instaura, pouca coisa o filme consegue construir para além disso. É uma narrativa toda anticlimática.
Resta
a Ivo respirar o ar de uma cidade pulsante e mecanizada, começa um caso
fortuito com uma mocinha bonita que trabalha na galeria e ainda tem de se
confrontar com o pai distante que lhe teve fora do casamento. Mas nada disso torna-se
uma grande questão, uma rede de conflitos que se amontoam e pesam. É um terreno
parcimonioso esse em que o filme prefere se movimentar, modesto demais talvez.
Não
deixa de ser bem articulada a forma como Leonardo Lacca, à frente de um primeiro
longa-metragem, estabelece essas relações com muito cuidado e atenção aos personagens.
Mas também não deixa de haver certo maneirismo nas atuações que se esforçam em
deixar evidente essa sensação de desconforto, escorregando para um tom meio forçoso,
demarcado demais. Permanência é esse
filme (sobre gente) que vacila.
Filha (Dukhtar, Paquistão,
2014)
Dir:
Afia Nathaniel 

A
história já não é das mais instigantes: garota pequena é obrigada a se casar
com um velho líder de um grupo extremista no Paquistão. É o velho tema dos
casamentos arranjados que ganha um ar de thriller
aqui porque a mãe da garota logo foge com a garota para impedir tal absurdo
(embora seja ato comum em países árabes). O filme, então, torna-se um road movie involuntário.
Mas
Filha é negativo em vários aspectos:
roteiro rocambolesco, texto fraco e expositivo, abusa do maniqueísmo e tem atores
fraquíssimos que não conseguem dar nuances a personagens já convencionais por
si só.
A
diretora Afia Nathaniel, sua estreia no longa-metragem, filma da forma mais banal
possível, apostando no senso de urgência que a fuga provoca, mas querendo
sempre aliviar a barra de suas protagonistas (a cena final é desastrosa nesse
sentido). Curioso que no meio de todo o perigo elas encontram e se afeiçoam a
um rapaz que dirige uma caminhonete toda enfeitada de bugigangas cor-de-rosa,
elemento kitsch que injeta certa estranheza
naquela correria. 

Há também a convencional opção em contrapor a
dureza da vida e do destino daquela garota com a ingenuidade e fantasia do
mundo infantil, uma espécie de batalha do bem contra o mal defendida pela
própria narrativa que já escolheu o lado vencedor. O resultado só poderia ser
rasteiro e piegas.

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