Mostra SP – parte 6


  

Norte, O Fim da
História

(Norte, Hangganan ng Kasaysayan,
Flipinas, 2013)
Dir: Lav Diaz 
Pode-se
reclamar muito de um cineasta que costuma fazer filmes gigantescos (estou
falando de longas de 5, 8, 11 horas de duração!). Pois essa é um das marcas
que perseguem os trabalhos do diretor filipino Lav Diaz, que recebe uma corajosa
retrospectiva nessa edição da Mostra. Mais corajoso ainda é quem se aventura
nessas jornadas fílmicas, desse que muita gente considera uma dos grandes
cineastas contemporâneos.
Nesse
primeiro contato com seu trabalho, justo o mais recente dele, fica muito
evidente uma marca clara de um estilo próprio, baseado no óbvio interesse em
desenvolver e acompanhar muito de perto os conflitos de seus personagens.
Nessas Filipinas rodeadas de violência, um intelectual assassina uma mulher,
mas segue livre depois que um homem mais humilde é acusado pelo crime e vai
para a prisão.
Diaz
consegue dimensionar muito bem a história desses dois homens e da família do
preso, abusando muito dos planos longos e das intermináveis conversas que os diversos
personagens mantêm. É como se o interesse pelo cotidiano ganhasse um espaço que
de fato lhe proporciona a percepção dessa vida que passa. No caso desses personagens
aqui, é uma existência árdua, que vai se intensificando cada vez mais em dor e
autocompreensão, para o bem e para o mal de cada um.
Não
é um filme fácil (são 4 horas de duração), mas não demora muito para passar
porque o cineasta consegue manter uma fluidez muito interessante no ritmo da
narrativa. Funciona também como um conto moral e sócio-político num país
marcado de injustiças.
Child’s Pose (Pozitia Copilului, Romênia, 2013)
Dir:
Calin Peter Netzer 
Depois
dos créditos iniciais sobrepostos em tela preta, corte seco para Cornelia,
filmada em câmera na mão, conversando com uma amiga sobre a ingratidão de seu
filho que mal a vê e a trata mal. Child’s
Pose
é todo assim, direto, sem firulas, tenso, com uma protagonista
fortíssima, metida numa situação desagradável. É a força do cinema romeno mais
uma vez mostrando que eles fazem um dos cinemas mais interessantes da
atualidade.
Barbu
(Bogdan Dumitrache) atropelou e matou acidentalmente um garoto pobre quando
corria na estrada à noite. É aí que entra a mãe dele a seu socorro, fazendo de
tudo para livrar seu filho das garras da justiça. Eles são de família rica e
influente, não parece haver dificuldades nesse jogo de poder, o que já revela
as mazelas político-sociais de um país que se livrou há poucas décadas de um
regime opressor.
Mas
Child’s Pose é menos um filme sobre
os meandros do sistema jurídico e sim uma história ancorada numa conturbada
relação mãe e filho. Apesar da amargura que existe ali, Cornelia, interpretada
maravilhosamente por Luminita Gheorghiu, ama incondicionalmente esse filho
ingrato. Isso porque Barbu é como um adulto mimado que ainda não aprendeu a se
portar como adulto e nem a se livrar da saia da mãe. É a postura de criança do
título.
O
filme opera o tempo todo nesse clima de tensão entre os dois, misturado à
destruição de uma família pobre que perdeu o filho pequeno. Child’s Pose é desde o início um filme
duro, sem piedades. Mas quando menos se espera, ele consegue também
complexificar seus personagens, até então muito marcados em suas personalidades
cruas, numa dos momentos finais mais emocionantes de um filme dessa Mostra. O
encontro de mãe e filho com a família do garoto morto é dilacerante e diz muito
sobre esse amor materno, o mais forte deles.
Centro Histórico (Idem,
Portugal, 2012)
Dir:
Aki Kaurismäki, Manoel de Oliveira, Pedro
Costa e Victor Erice 
É
sempre muito difícil e até mesmo lugar comum apontar a irregularidade de filmes
coletivos. Seria o caso desse aqui, mas somente poucas coisas podem realmente
ser criticadas. Olhando para os nomes que compõe essa seleção de diretores,
nota-se o motivo da segurança dessa afirmação. O longa faz parte de um projeto
em que cineastas utilizam como ponto de observação a cidade histórica de
Guimarães, berço do reino português.
Aki
Kaurismäki é quem abre os trabalhos e parece o mais distante geograficamente
porque filma uma história que se aproveita muito pouco daquele espaço histórico
e prefere criar mais um conto melancólico desses que abundam em seu cinema. As
agruras são do dono de um restaurante tentado conquistar mais clientes. O curta
é visivelmente um filme de Kaurismaki, com suas cores e tons bressonianos
habituais.
Pedro
Costa também deixa evidente sua marca autoral e retoma um antigo personagem
seu, Ventura, um velho cabo-verdiano que mora em Portugal. Visivelmente abalado
psicologicamente, o filme promove um estranho diálogo entre essa figura soturna
e a estátua de um soldado dentro de um elevador. É de um rigor impressionante o
que curta traz em termos de encenação e fotografia, um filme hipnotizante.

o espanhol Victor Erice, no capo do documentário de memórias pessoais, cria uma
das mais deliciosas reuniões de depoimentos íntimos. A partir de uma antiga
fotografia de funcionários de uma fábrica têxtil, ele reúne algumas dessas
pessoas que contam suas experiências de vida. Mas eles estão tão à vontade
diante da câmera que as falas nunca são previsíveis, nem os direcionamentos do
filme seguem padrões rígidos, muito menos piegas, embora o curta vai encontrar
o tom certo de emoção, congelada no tempo.
E,
por fim, a cereja do bolo. Manoel de Oliveira, sóbrio, preciso, sem perder
tempo, vai direto ao ponto. Subverte a ideia do conquistador, antes senhor de suas
terras, mas agora, na modernidade, passa a ser conquistado pelos turistas que
visitam seus monumentos e estátuas para aprisioná-los em suas máquinas
fotográficas. Com humor habitual e certa desfaçatez, Oliveira fecha o projeto com
um primor que só esse jovem senhor é capaz de estampar na tela.
Um Toque de
Pecado

(Tian Zhu Ding, China, 2013)
Dir:
Jia Zhang-ke 
Jia
Zhang-ke continua seu percurso de observação do povo e da vida cotidiana da
China atual, com todas as suas transformações político-sociais, mas dessa vez
sob o foco da violência. Conta quatro histórias de personagens em diferentes
lugares da imensidão do país asiático, todos marcados pela tragédia e os sinais
de dor e ira que as pessoas deixam pelo caminho.
Ao
invés de embaralhar essas histórias, Zhang-ke prefere deter-se em cada uma delas
para finalizar seus contos (embora haja um pequeno retorno no momento final).
São histórias de gente que querem seguir seu rumo de vida, mas esbarram nas impertinências
da própria vida. Na maioria são trabalhadores infelizes em seus postos. Do
minerador que se rebela contra seus patrões, até a atendente de uma sauna de
massagem que é assediada por clientes ricos, todos eles serão capazes de
momentos de explosão e crueldade. São essas pessoas comuns que sucumbem à opção
da violência que o próprio mundo condiciona.
Se
essa é uma reflexão que permeia todo o filme, Zhang-ke é hábil também em filmar
violência, com brutalidade explícita, quase pornográfica, mas nunca gratuita. É
certo que nem todos os segmentos são tão bons em desenvolvimento de enredo,
demorando muitas vezes a dizer ao que veio. Mas é um filme brutal sobre um
estado de coisas que bagunça e destrói a vida de seus personagens, e também
daqueles desafortunados que cruzam seu caminho.
Pais e Filhos (Soshite Chichi ni Naru, Japão, 2013)
Dir: Hirokazu Kore-eda 
Para
falar de relações familiares, Kore-eda é mestre. Seu novo filme é uma beleza na
forma como lida com as questões entre pai e filho a partir da situação
inusitada que toma de assalto duas famílias distintas no Japão: eles descobrem
que seus filhos, agora com seis anos, foram trocados na maternidade. O contato
das duas famílias faz surgir a dúvida se as crianças precisam ser destrocadas
ou não.
Apesar
do tom emocional que o filme carrega desde o início, não há lugar aqui para
pieguices, isso porque as coisas acontecem no seu tempo, muito bem colocadas na
história, sem alarde. Kore-eda assina um roteiro delicadíssimo ao tratar das
suas questões, desenhando os personagens de forma sempre tridimensional, com
foco em Ryota (Masaharu Fukuyama), esse pai de família mais abastada que
reprova totalmente a atitude brincalhona do outro pai que cria seu filho de
sangue, numa casa e ambiente muito mais humildes. O trabalho com os atores
mirins é mais um trunfo que torna as situações tão críveis e profundas no abalo
emocional que aquela situação provoca.

um evidente embate social aí também, mas acima de tudo esses dois pais verão o
quanto podem ser falhos na criação de seus filhos, mas também o quanto podem
aprender um com o outro. É a situação ideal para que o cineasta ponha em xeque
a importância da família e, especialmente, dos laços sanguíneos enquanto continuidade
da tradição familiar, algo muito conectado à ancestralidade da cultura
oriental. O mais difícil é se readaptar nesse processo doloroso, mas bonito, de
reaprender a ser pai.
Cães Errantes (Jiao You, Taiwan/França, 2013)
Dir: Tsai Ming-liang 
Um
dos filmes que encantaram parte do público da Mostra é esse objeto estranho e
hipnótico, extremamente simples no seu conteúdo, mas cheio de significados,
dirigido por Tsai Ming-liang. Um pai e seus dois filhos pequenos vagam pelas
ruas de Taipei, sem lar, sem família, sem aparo. Dormem em lugares abandonados
e tentam conseguir comida de uma forma ou de outra. São como cães vira-latas sem
dono, sem alento.
É
incrível como um filme tão contemplativo, desse que parece testar a atenção e resistência
do espectador, consegue resultados tão interessantes em termos de reflexão
sobre a solidão. Pois o que mais temos aqui são os habituais planos longos e
estáticos do diretor, que servem muito bem a essa história de gente jogada, deixada
à própria sorte. Mas longe de caprichos estéticos e maneirismos de cena, essa
opção narrativa acaba sendo uma tradução ideal para o estado de apatia em que
vivem esses personagens.
Interessante
como há muita fome no filme, e o comer, sempre muito raivoso (como na cena da
cabeça de repolho), torna-se uma estranha forma de expurgar toda uma raiva
contra o mundo. O abandono também pode ser uma chave interessante de
interpretação já que na primeira cena vemos uma mulher que vai embora e deixa
os meninos dormindo profundamente. Essa possível figura materna será retomada
depois com a aproximação de uma estranha mulher ao grupo. 

Mas
ainda assim, a marca do desamparo está toda ali distribuída no filme,
dilacerante, crua. A recusa de Tsai em cortar o plano e, principalmente, de tirar
a câmera do rosto de seus atores (como no sensacional plano final de Vive l’Amour, por exemplo) é uma maneira
de rivalizar a plateia com essa dor, com esse desespero, essa angústia que não
parece ter fim. Ninguém sai incólume disso.

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