Mostra SP – Parte 1


Um
Alguém Apaixonado
(Like Someone in Love, Japão/França, 2012)
Dir: Abbas Kiarostami
É
bastante interessante acompanhar os caminhos de um cineasta como Abbas
Kiarostami. Deixando para trás a vertente neorrealista do cinema iraniano que
vigorou há algumas décadas, o diretor é um dos poucos que busca novas direções
e questionamentos para seu cinema. Assim, Um
Alguém Apaixonado
dá prosseguimento aos propósitos vistos em Cópia Fiel, mas avançando um passo à frente,
ambos realizados fora do Irã natal do cineasta. 

É
como se Cópia Fiel se estabelecesse
como um tratado sobre as ideias de originalidade/imitação, real/representação, verdade/mentira e suas validades (sobre os quais eu escrevi mais detalhadamente aqui); e esse Um Alguém Apaixonado fosse a aplicação
dessas propostas numa história totalmente diferente. Daí que a ambientação no
Japão não chega a causar estranhamento (embora evidencie as dificuldades de
fazer cinema num Irã opressor).

na primeira cena do filme, ouvimos a protagonista dizer “Eu não estou
mentindo”, e saberemos depois que ela falta com a verdade para o namorado ao
dizer que está num lugar que não está. Estamos mais uma vez no terreno das
incertezas. O filme tem dessas pequenas armadilhas, a partir das quais é possível
duvidar das intenções e afirmações dos personagens.
Kiarostami
não perde oportunidades para brincar com reflexos em espelhos e vidraças,
visões embaçadas por cortinas, imagens sem nitidez, contraplanos não visíveis, tudo
nessa dualidade do que a imagem é ou pode vir a ser. Para exercitar esses
truques e imprecisões, o filme acompanha os descaminhos de uma acompanhante de
luxo (Rin Takanashi) que
despista o namorado super ciumento (Ryo Kase) enquanto ela atende um velho
senhor (Tadashi Okuno) em seu
apartamento.
Enquanto
mise-en-scène, a mão de Kiarostami
filma com delicadeza e sem pressa, moldando o tempo com uma leveza absurda, sendo
guiado por seus personagens aonde eles querem ir. Nesses deslocamentos, observa
os papéis assumidos por esses tipos e cada nova situação que se apresenta. O
namorado da jovem prostituta soa como um dos mais interessantes pela oscilação
entre o arrogante e o gentil, nessa dualidade que pode acometer um alguém louco
de amor, esse que emana, calmamente, da bela música homônima de Ella Fitzgerald
que ouvimos durante o filme e o intitula, belissimamente.
Brutal (Die Raeuberin, Alemanha, 2011)
Dir:
Markus Busch
Uma mulher
de meia idade chega a um pequeno lugarejo, quase como uma cidade fantasma pela
ausência de vida nas ruas, mas parece que ali se sente em casa. Seria um ponto
de partida interessante, mas o filme se perde na sua própria atmosfera de pesar,
principalmente por insistir num tom melancólico que faz prolongar os encontros
e conversas entre dois personagens e a dualidade de confrontos e atrações que
surgem entre si. 

A outra figura
desse polo de união é um jovem adolescente, inconsequente e imaturo, um quase arruaceiro
de comportamento difícil. A improvável atração entre os dois é o que de mais
curioso o filme carrega. Tentamos nos situar em meio a essa relação prestes a
implodir. É como se essas duas pessoas desencontradas na vida (ela por conta de
uma tragédia do passado, ele por sua própria condição de jovem irresponsável) precisassem de suporte mútuo, estando próximos um do outro.
Mas ao
filme falta um certo tato no (des)arranjar entre os protagonistas, tudo soa muito
confuso, estranho. Os diálogos entre os dois, funcionando quase como um jogo de
vontades e imposições (que ela, em particular, tem prazer em jogar,
demonstrando sua personalidade forte, por vezes agressiva) se demoram demais ao
longo do filme, com a desculpa de desenhar os contornos psicológicos dos dois.
Ao final, quando a mulher revela de fato sua história trágica, o filme parece
querer justificar suas ações, como se pedisse a complacência do espectador. Até
aí, Brutal já se tornou cansativo e
mesmo repetitivo.

Speed –
Em Busca do Tempo Perdido 
(Speed
– Auf der Suche Nach der Verlorenen Zeit, Alemanha, 2012)
Dir: Florian
Opitz
Florian
Opitz tem uma grande bronca com o tempo. Sente que sua vida se aprisiona aos
desmandos dos ponteiros que não param de girar. Florian é o próprio diretor do
filme que se coloca como personagem central em busca de compreensão e respostas
para entender a relação do ser humano com o tempo na sociedade atual, ao mesmo
tempo em que quer encontrar uma forma de viver em harmonia com esse mal da
modernidade. 

Até aqui
nada de novo, não é? Pois até o final do filme não vai ser diferente. Ninguém
precisa tirar o mérito de Speed em
investigar as agruras do tempo e suas consequências em nossas vidas (também eu
gostaria de entender como dobrá-lo a meu favor), mas o filme insiste em lugares-comuns
ao relacioná-lo com os avanços da tecnologia, a lógica do mercado capitalista,
as novas relações interpessoais.
Se
existe um interesse maior no filme, está na forma como o cineasta-sujeito se
coloca como figura central à procura de respostas, alcançando esse tom mais pessoal,
o que facilita bastante uma identificação com o espectador. Ele visita gurus,
especialistas, empresários e cientistas, interrogando e se colocando quase como
um paciente em busca de um diagnóstico. Da mesma forma, viaja a lugares remotos do
globo para entender como alguns grupos sociais, especialmente no interior dos países, vivem
em harmonia com um estilo de vida longe das preocupações dos grandes centros.
Mas no
fim das contas, o filme pregoa ideias óbvias. Não muda muita coisa nem
acrescenta novas perspectivas sobre como lutar contra a imposição do tempo,
para além do que já temos em mente (fuja da cidade! parece implorar o filme).
Mas a questão volta sempre como uma dor de cabeça, como algo que o filme não dá
conta de responder: por que anda tão rápido o mundo? Vamos ao próximo filme.
Ladrão (Booster, EUA, 2012)
Dir:
Matt Rusking

Esse
filme começa como o típico conto do bom ladrão. Simon (Nico Stone) promove uma
série de pequenos furtos em lojas para revender mais tarde os produtos roubados,
mas faz isso para sobreviver no submundo de uma Boston criminosa (a avozinha
que vive num asilo e de quem ele ajuda a cuidar é mais um pretexto nobre para o
crime). Logo nos primeiros minutos, o filme desenha essa situação, mas vai impor
ao protagonista um dilema: seu irmão é preso e acusado de um assalto; para livrá-lo,
Simon precisa cometer uma série de outros furtos no mesmo esquema para
despistar a polícia e livrar o irmão.
O
filme passa todo sem julgamentos a esse modo de vida, a criminalidade é uma
constante naquele universo, enquanto acompanhamos a rotina tortuosa, desoladora
e sem grandes perspectivas desse jovem. A pressão em tentar ajudar ou não o
irmão equilibra-se com envolvimento com uma bela jovem. Mas então o filme dá um
tratamento morno ao estabelecer os dilemas do protagonista, tudo sem
grandes atrativos depois de postas as questões. Até o tremular da câmera parece
meio contido, o que acaba funcionando bem para o filme, sem abusar demais da
inquietação emocional e também sem cair no cacoete da câmera na mão.

Mas parece que todo o filme está à espera de sua
cena final, essa sim colocando o filme pra cima, apresentando uma contundência
surpreendente na narrativa, vide a morosidade do que vimos até então. É também
a grande chave de interpretação moral do filme. Porque Simon pode não saber o
que quer da vida, quais serão seus próximos passos, que planos de futuro podem
dar certos, mas ao menos ele descobre aquilo que não quer ser. Ladrão é um filme sobre destinos que,
profundamente, não desejamos.

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