Mostra SP: Não Há Mal Algum

São bem raros os filmes episódicos em que todos ou ao menos a maioria deles apresenta-se acima da média. Não Há Mal Algum, de Mohammad Rasoulof, Urso de Ouro no Festival de Berlim deste ano, é um desses casos ideais, conjunto muito coeso e pertinente em forma e conteúdo. Ajuda muito a fato do filme ser dirigido e escrito pela mesma pessoas e por já na sua concepção apresentar uma proposta muito coesa e segura, tematicamente falando.

Não Há Mal Algum toca na questão da pena de morte, num país fundamentalista e de leis tão rígidas como o Irã, e o faz a partir de histórias aparentemente desconexas, mas todas muito fortes entre si. O primeiro episódio é um exemplo muito bom de condução introdutória porque, em grande medida, não sabemos exatamente aonde aquela narrativa quer chegar (vemos um homem fazendo tarefas cotidianas e banais com a esposa, dirigindo, buscando os filhos no colégio, pagando contas, descansando em casa), até que o tema do longa apresenta-se da forma mais crua e acachapante possível, com considerável impacto.

Mas o filme não vai se escorar nessa trama de choque, muito menos explorar a morte (e a sua iminência) como drama a ser encarado – o filme está mais interessado nas consequências da morte. O filme pinça personagens que fazem parte dessa cadeia brutal de violência institucionalizada, mas expõe os dilemas de tais indivíduos diante das circunstâncias adversas, especialmente aqueles que estão do lado de lá da linha da morte. Curiosamente, nenhum dos episódios apresenta personagens condenados à sentença fatal, algo que seria de algum modo óbvio demais. O caminho que Rasoulof busca é mais complexo e coloca seus personagens em um conflito muito mais moralizador frente às escolhas e atitudes que eles devem assumir.

O mesmo tipo de estratégia narrativa em que as situações vão se tornando mais claras para o espectador à medida que os episódios transcorrem é usada nos demais episódios, todos concentrados numa trama que se encerra em si mesma (mas que se potencializa pelo conjunto do filme). O terceiro episódio, sobre o jovem agente carcerário que volta ao interior para visitar a namorada e sua família, a fim de oficializar o matrimônio dos dois, ganha contornos tão inesperados e ao mesmo tempo tão firmes e bem amarrados, que o filme poderia se bastar apenas em poucas tramas, ampliando-as (cada episódio renderia um longa em si). Mas Rasoulof sabe bem a hora de terminá-los, sem pressa de concluí-los. Assim também acontece com o episódio final em que a ideia de pena de morte só aparece nos últimos instantes, ensaiando antes disso um conflito familiar que envolve paternidade e os erros do passado.

O que faz de Não Há Mal Algum um desses casos de prêmio máximo muito bem dado dentro da competição de um grande festival de cinema é o seu conjunto de aptidões: dirigido com firmeza e sem firulas, escrito com competência, habilidade e consistência, muito bem atuado por todo o time de atores, bem composto visualmente, sem que isso ganhe maior destaque que as histórias que estão sendo contadas – é difícil até mesmo escolher qual delas é a melhor, sendo todas muito competentes. E claro, há a dimensão humana, com suas dores e cicatrizes, que inevitavelmente eleva-se diante da barbárie.

Não Há Mal Algum (Sheytan Vojud Nadarad, Irã/Alemanha/ República Tcheca, 2020)
Direção: Mohammad Rasoulof
Roteiro: Mohammad Rasoulof

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