Mostra SP: Joana D’Arc

Bruno Dumont não teme o ridículo. No seu filme anterior brincou como pôde ao recriar, muito livremente, a primeira idade de um ícone da História da França em A Infância de Joana D’Arc, jovem já muito precoce, numa mistura muito particular de musical com teatro farsesco. Agora, o cineasta dá continuidade à curta vida dessa mulher, já tantas vezes representada e explorada não só no cinema como nas artes em geral.

Tem sido muito refrescante essa fase free-to-create do Dumont, com os dois pés na comédia absurda, algo que começou com o estranhamente engraçado O Pequeno Quinquin (originalmente uma minissérie para a TV, posteriormente lançada nos cinemas). Porém, o que poderia ser visto como uma mudança de ares e total renovação do seu cinema, na verdade guarda muitas semelhanças com certa provocação e as não concessões que sempre fez parte dos interesses narrativos do cineasta. Só que agora ele trabalha na chave da comédia e do deboche.

Na dobradinha aqui, há algo de deslocado na figura da personagem a partir de um imaginário já solidificado por aí: a Joana D’Arc de Dumont é vivida por uma criança (a super expressiva Lise Leplat-Prudhomme) – e realmente ela era muito nova quando liderou tropas do exército francês na Guerra dos Cem Anos, sendo queimada na fogueira aos 19 anos de idade. Nesse sentido é mais uma fidelidade e menos uma reinvenção do dado histórico, ainda que deixe lá sua marca de estranheza. No entanto, preservam-se os mesmos traços com os quais ela é largamente reconhecida: o suposto contato transcendental, as vozes que ouvia e as visões que tinha, para além da bravura e do destemor em se disfarçar de homem para guerrear e defender seu país.

Nesse caminho entre a reinvenção narrativa e a lealdade histórica, há claramente uma tentativa de despreendimento com qualquer lógica narrativa, procurando ser disruptivo até mesmo com aquilo que insere como registro de estranheza (seja o musical ou o tom burlesco do drama). Logo no início do filme, há uma dessas cenas musicais muito intrigantes: ouvimos uma música cantada fora da cena enquanto a câmera enquadra a personagem, em trajes de luta, no centro do quadro, imóvel encarando a câmera. Ela não canta nem dança, como se esperaria de um momento musical, e a cena se prolonga num misto de desconforto e graça enquanto a música segue em bom som. É nesse sentido que a mise-èn-scene de Dumont possui algo de firme e ao mesmo tempo inventiva: ele não está seguindo cartilha nenhuma, nunca sabemos o que virá a seguir.

Porém, há um descompasso entre esse filme aqui e seu antecessor, quando tudo ganhou essa forma nova de se apropriar de uma biografia. Dumont foi muito mais radical, anticlimático e corajoso em apostar no risco do ridículo antes; neste novo projeto, especialmente na segunda metade, abandona as escolhas narrativas que fez, ou pelo menos as dilui em uma construção de cena que se aproxima mais da reprodução dos fatos, com alguns poucos momentos de maior invenção. As próprias cenas “musicais”, mesmo as mais estranhas, são deixadas de lado, aparecendo muito pontualmente.

O revisionismo histórico que passava longe dos interesses do cineasta, por exemplo, ganha centralidade aqui numa longa sequência de interrogatório, com alguns elementos estranhos, alguns personagens caricatos. Mas no geral, o diretor se apega aos fatos para seguir uma ordem de acontecimentos que já conhecemos. Tal postura não deixa de ser também uma maneira de frustrar expectativas, de não se curvar a uma espécie de modelo narrativo que ele mesmo empreendeu nesses últimos trabalhos e do qual não quer se tornar refém. Gesto válido, e ainda assim ousado, mas perde um tanto em frescor.

Joana D’Arc (Jeanne, França, 2019)
Direção: Bruno Dumont
Roteiro: Bruno Dumont

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