Mostra SP (curtinhas): O Mosquito / Another Round / 17 Quadras / Dezesseis Primaveras / Escondida

O Mosquito

O colonialismo português sob o ponto de vista de quem se fiou nele e acabou se despedaçando. A trajetória do jovem soldado que queria partir para uma missão aventurosa, grandiosa e formativa, pensando apenas em si. A grande sacada de Mosquito, no entanto, é individualizar essa jornada a partir do acidente de “desgarramento” de Zacarias (João Nunes Monteiro), personagem inspirado nas aventuras reais do avô do diretor João Nuno Pinto, que serviu Portugal nas missões em África durante a Primeira Guerra Mundial. A partir do momento em que ele se perde do seu regimento e precisa enfrentar a selva africana, seus medos e seus delírios, em meio a nativos e estrangeiros, as tramas do colonialismo ganham outras nuances e camadas – cruéis, enlouquecedoras, míticas, fantasiosas – e um tanto de complexidades nas representações dos indivíduos que o personagem encontra pelo caminho. Os primeiros minutos de filmes, com a chegada das tropas em Moçambique – já numa cena a sublinhar o estado de dominação e opressão sobre a população africana – apenas reforçam os dados escabrosos que circundam qualquer tipo de dominação de um povo sobre o outro – e parecia até que o filme ia apenas reprocessar esse tipo de imaginário perverso. Mas Mosquito reverte essa posição e constrói uma jornada de amadurecimento que é também registro possível e perverso das cicatrizes legadas pela ânsia colonialista.

Mosquito (Portugal/Moçambique/Brasil, 2020)
Direção: João Nuno Pinto
Roteiro: João Nuno Pinto, Fernanda Polacow e Gonçalo Waddington

 

Another Round

Vejamos se entendemos direito: o professor de meia-idade Martin (Mads Mikkelsen), depois de passar por problemas de concentração e perda de foco em sala de aula (na vida?), resolve, junto com um grupo de colegas seus, embarcar numa teoria maluca de que o nível de álcool no sangue ativa uma percepção maior para o mundo, o que de fato acontece quando eles passam a beber já nas primeiras horas da manhã. Tudo bem que Another Round cria essa premissa estranha, um tanto cômica e traquinamente irresponsável, para no fundo falar das crise de meia idade, tratar sobre envelhecimento e aquilo que representamos para as pessoas ao nosso redor, mas o filme de Thomas Vinterberg escora-se demais em situações e tramas pouco verossímeis. Um bom exemplo: a diretora do colégio está fazendo uma reunião com todos os professores para falar de garrafas de bebida que têm sido encontradas nas dependências da escola, quando um dos amigos de Martin entra na sala visivelmente embriagado e trocando as pernas; o que poderia ser a comprovação das suspeitas da diretoria, torna-se apenas um momento engraçado que passa batido e não volta a ser discutido mais. As intenções do filme são ótimas – a catarse da sequência final é um dos momentos mais icônicos dessa Mostra – e é mais do que puramente um elogio à embriaguez, mas precisa de um suporte narrativo bem frágil para alcançar seus intentos.

Another Round (Druk, Dinamarca/Suécia/Holanda, 2020)
Dir: Thomas Vinterberg
Roteiro: Thomas Vinterberg e Tobias Lindholm

 

17 Quadras

Os caminhos tortuosos de uma família negra nos Estados Unidos, filmados ao longo de 20 anos, são descortinados de forma muito seca e direta por esse documentário conduzido por Davy Rothbart, mas que encontra sua força no fato de que os membros da família Sanford foi que filmou amadoramente seu cotidiano ao longo de todo esse tempo. Eles estão ali, na vizinhança do tigre, num bairro de Washington a poucas quadras do Capitólio norte-americano, mas sofrem com as circunstâncias sociais que envolvem os membros da família: violência, tráfico de drogas e dependência química, enquanto as crianças tentam crescer num lar que os adultos tentam moldar para eles, tentando se moldar e encontrar seu próprio caminho em meio aos erros e falhas de cada um. 17 Quadras é esse filme cru que lida o tempo inteiro com a dimensão moral do que as imagens revelam – sobre eles mesmos, uma exposição que é sempre muito delicada de confrontar no cinema. Mas não deixa de ser uma opção também corajosa, sobretudo da parte dos próprios membros daquela família, em se revelarem tão desnudados diante das câmeras que eles mesmos empunham. O filme, por sua vez, abusa de um tom um tanto piegas (musiquinha triste que se repete demais em muitas cenas) e de certo apreço pelo sofrimento (as imagens das manchas de sangue na casa, a matriarca que se emociona ao visitar a antiga casa onde morou – cena abre o filme e ainda será repetida nos minutos finais), mas aposta firmemente no poder desestabilizador das imagens autogeridas, não menos reveladoras e autoexpositivas por esse motivo.

17 Quadras (17 Blocks, EUA, 2019)
Dir: Davy Rothbart

 

Dezesseis Primaveras

Suzanne Lindon tinha por volta de 19 anos de idade quando dirigiu e escreveu esta sua estreia no cinema. Ela também protagoniza o filme que conta a história de uma adolescente de 16 anos que se apaixona por um homem mais velho, um ator de teatro com algumas crises na profissão, mas nada muito sério. Dezesseis Primaveras aponta, portanto, para um talento precoce, uma investida corajosa de uma jovem artista por um campo que exige dela uma postura adulta. Mas o filme, na mesma medida em que possui essa maturidade precoce, revela nos seus pormenores também algumas ingenuidades narrativas. Vale lembrar que a atriz/diretora/roteirista é filha de atores famosos (Vincent Lindon e Sandrine Kiberlain), o que sugere uma clara proximidade com esse universo teatral/cinematográfico, mas fica latente especialmente um campo muito protegido e confortável onde Lindon trafega para construir seu filme. Falta, por exemplo, maior consistência dramática da metade do filme em diante, quando os personagens se dão conta dessa paixão improvável, e o filme não sabe bem o que fazer com eles, como aprofundar esse conflito. É aí que a pouca experiência de Lindon transparece em maior grau, assim como ela abusa de certos cacoetes indie/juvenis das cenas de danças e/ou coreografias repentinas e se refugia no tom de melancolia juvenil do primeiro e doloroso amor. Ele deve achar tudo isso um barato, e o filme é mesmo, só não alça grandes voos e nem parece ter pretensões para tanto.

Dezesseis Primaveras (Seize Printemps, França, 2020)
Direção: Suzanne Lindon
Roteiro: Suzanne Lindon

 

Escondida

Por se tratar de um curta que faz de um projeto maior sobre cantoras, encomendado pela Ópera de Paris, Escondida – visto fora desse contexto – é não só mais um grande acerto de Panahi como também algo muito fiel ao tipo de cinema que ele tem feito nos últimos anos. Para quem foi preso e impedido de filmar, a história de uma mulher que vive praticamente presa em casa, impedida de cantar, perfaz um jogo de espelhamento impressionante que faz dessa história pontual e tão individual, algo muito maior. É um retrato de um país, seus costumes e suas duras leis, mas também versa sobre o ímpeto do artista que é o de continuar, sob todos os empecilhos, a fazer a sua arte.

Escondida (Hidden, França/Irã, 2020)
Direção: Jafar Panahi

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