Mostra de Tiradentes: Rosa Tirana

É ao mesmo tempo estranho e muito estimulante começar a ver Rosa Tirana e dar de cara com a logo da Prefeitura de Poções como apoiadora do filme. Pois o longa de Rogério Sagui é feito no interior da Bahia, sertão do Estado, na pequena cidade cujo entorno árido serve de paisagem para o filme que é a estreia no longa-metragem do realizador baiano, nascido em Poções – assim como Poções é terra natal também de Geraldo Sarno. De qualquer forma, é sempre salutar que a produção de cinema se mostre cada vez mais descentralizada, e ver um filme do interior baiano como parte da seleção da Mostra Aurora não pode ser tratado como algo qualquer – ainda mais se pesarmos que Rosa Tirana parece um filme muito distinto daquilo que costumamos ver na Aurora.

E apesar de Sarno e Sagui compartilharem uma mesma conterraneidade, não se trata aqui de tecer paralelos entre os trabalhos de ambos, principalmente pela distância histórica e de experiência que os separam, mas simplesmente pelo fato de compartilharem um mesmo interesse pelo imaginário sertanejo, em muitas vertentes, no caso de Sarno, e mais voltado para a fábula, no caso de Sagui – e vale notar que foi nessa mesma Mostra de Tiradentes que estreou no Brasil o último e notável longa de Sarno, Sertânia (o imaginário sertanejo mais uma vez revisitado, só que de um ponto de vista interno, reprocessado num corpo de obra tão significativo como é o de Sarno). Essa lembrança, no entanto, nos permite voltar o olhar para esse gesto de tornar o sertão como matéria-prima dos filmes e no que isso reverbera atualmente.

Sagui não possui a mesma trajetória que seu conterrâneo – ninguém compartilha uma mesma trajetória, na real –, e o que lhe vale nesse jogo parece ser um imaginário que já estava aí constituído pela cultura massiva, algo que o realizador apenas rearranja em seu filme. Rosa Tirana crava seu lugar num imaginário de sertão que possui uma carga claramente mais mítica e fabular, não sem antes fincar seus pés na realidade das mazelas de sofrimento e labuta da terra rachada que tanto dificulta a vida dos moradores, dos mais pobres e desvalidos, do sertanejo raiz e sofredor. Eles podem não ter posses materiais, mas ao menos não são desvalidos de fé, e a religiosidade é parte fundante da narrativa aqui.

Pois a menina Rosa (Kiarah Rocha), diante das intempéries climáticas e dos caminhos de desfavorecimento e miséria em que vive sua família – a mãe adoentada (Stela de Jesus) e o avô velho e cego (José Dumont) –, por conta da seca castigante e da ausência de chuvas, parte em peregrinação para encontrar a padroeira do sertão e pedir que as águas precipitem. Ela simplesmente decide sair e fazer algo em prol de si e da família. Obviamente que nesse percurso passarão por seu caminho uma série de figuras e elementos que representam a cultura sertaneja, e aí reside uma armadilha da qual o filme não consegue se desvencilhar: a de se prender às marcas de representação de um sertão já tão desgastado no imaginário popular.

Ora, o roteiro do filme parece cumprir uma espécie de check-list sertanejo: tem que ter seca (claro!), cego cantador, procissão e velório, carroça de retirantes, teatro mambembe de rua, velho do saco que caça criancinhas, criaturas de lama que povoam a imaginação e a capela da Nossa Senhora Imaculada no fim do percurso. Tudo isso embalado por uma trilha sonora que comenta com doçura, lamento ou gravidade cada ação da protagonista a depender de sua carga emotiva mais imediata.

É certo que se tais elementos existem e são parte constituinte de uma paisagem que o filme abraça por inteiro, não há problema algum que eles estejam lá, na tessitura do filme, da forma mais objetiva possível. O problema em Rosa Tirana é que, em grande medida, eles apenas funcionam como meros significantes cujo único intuito é reforçar sua presença enquanto símbolo de algo. Qual a função narrativa do cego cantador, por exemplo, a não ser a de marcar presença enquanto um cego cantador que já vimos por aí em tantas outras obras que retratam aquele mesmo ambiente? Falta ao filme extrapolar o mero desejo de mostrar e representar, ir além dos seus significados mais latentes – e isso não significa necessariamente subverter tais elementos, mas apenas dar a eles funções mais amplas e menos ilustrativas.

A jornada que Rosa empreende é uma tomada de consciência provinda da pureza, calcada também na força da fé, não necessariamente cega, mas aparentemente codificada por ela diante do ser sertaneja, simples assim. A criança não acredita no milagre da chuva (a ideia pura de que se pedir chuva à santa, o desejo será concretizado) por convicção própria, mas antes pela força de um imaginário que já a constitui como integrante daquela paisagem, que já faz parte do seu universo de existência – não há um despertar em Rosa, mas antes um caminho natural das coisas que ela apenas vai seguindo. Assim, o gesto da pequena Rosa tem o mesmo sentido e ímpeto do próprio filme e do seu diretor-roteirista: seguir um caminho indiscutível e basilar do que seja retratar uma jornada sertaneja em um filme. O resultado alcançado é dos mais nobres, muito bem composto como realização de cinema, mas também muito confortável no seu lugar de representação.

Rosa Tirana (Brasil, 2021)
Direção: Rogério Sagui
Roteiro: Rogério Sagui

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