Mostra de Tiradentes – Parte VI

Animal Político
(Idem, Brasil, 2016)
Dir: Tião

Filme dos mais irreverentes e irônicos, com toques de nonsense, Animal Políticoé um belo e estimulante corpo estranho na programação da Mostra Tiradentes. O cineasta pernambucano Tião elege uma vaca como protagonista de uma jornada existencial do animal diante do mundo e do seu lugar nesse mundo como indivíduo – apesar de estabelecer a própria discussão de que indivíduo seria esse tão peculiar animal que pensa e age como um humano.
A vaca vai à academia, come em bons restaurantes, vai à balada, joga vôlei. Vive uma vida pacata de classe média, sem percalços. Uma voz off dá conta de expor os pensamentos do animal, sendo ele dotada de uma inteligência média notável. Nesse sentido, há mesmo uma antropomorfização do animal – que ganha mudança na terça parte do filme –, passando a abrir possibilidades várias de metáforas sobre a condição existencial do ser.
Isso porque, na reflexão que faz de sua vida e de sua trajetória até então, a vaca sente que algo está faltando, uma inquietação, uma sensação de vazio que a coloca em crise diante daquela vida pacífica em que tudo parece funcionar em ordem. Assim, Animal Político abre-se para o caos de ser quem se é, ainda que nunca cheguemos a entender com exatidão a ontologia de si mesmo. É a partir dessa perturbação interna que o filme acompanha a personagem numa procura, inicialmente, pelo conhecimento, pela informação que a faria compreender os porquês que a afligem para, depois, alcançar o estágio de iluminação e total entendimento de si.
Certamente que toda essa busca filosófica é retratada da forma mais irônica possível, repleto de humor rápido e perspicaz que o filme injeta a cada reflexão proferida pelo animal. O filme trabalha no registro do nonsense, mas nunca se apaixona por ele. Nunca se conforma – assim como seu personagem – com aquilo que se forma diante de si. Quando a vaca parte para o deserto, para o que ela chama de “natureza selvagem”, como forma de se isolar do mundo e buscar sua essência animal, o filme também lhe (nos) prega peças.
Se há ali um estranhamento pelo próprio conceito da história, o filme não se prende a um lugar de conforto e apresenta outras possibilidades à narrativa. Daí que causa uma estranheza interessante quando surpreendentemente o filme rompe com a trama da vaca e nos joga em outro tempo, nos apresentando à curiosa sequência intitulada “A pequena caucasiana” – a grosso modo um digressão sobre o passado de formação do povo e da História do Brasil e América Latina, obviamente com claros toques de irreverência, inquietude e desfaçatez, evidentes nos pensamentos dessa personagem altiva e peculiar que outrora desembarcou nessa terra inóspita.
Essa sequência, apesar da forma abrupta como surge, nos interpela sobre as marcas históricas de nossa formação por um motivo que talvez seja a tentativa de oferecer um princípio de resposta às inquietações existenciais que rondam o filme: podemos nunca chegar à conclusão do que realmente somos, do que é a nossa essência ou de algo que explique o sentido de nossa existência – como bem coloca o ice-borg, espécie de oráculo cibernético que a vaca encontra no deserto, citando Buda: “A vida não é uma pergunta a ser respondida, é um mistério a ser vivido”; ainda assim, um pouco daquilo que somos passa pelo entendimento do como e do por que chegamos até aqui, ou seja, de como nossa formação histórica pode conferir pistas sobre quem sou eu e o que eu faço aqui nesse lugar nesse momento.
Mas essa sequência serve também para incluir um elemento que será fundamental para a jornada da vaca: o livro de normas da ABNT, legado a nós pela pequena caucasiana e encontrado pela vaca no deserto em suas buscas existenciais. Mais uma vez o alerta de ironia soa forte no filme sendo a ABNT essa representação instituída e reconhecida da regra e do rigor. É a partir daí que o filme entra em outro registro, ainda mais estranho porque a vaca retoma seus rumos de busca e peregrinação transfigurado agora num animal bípede.
É certo que existe certa ingenuidade nessa transformação, sendo a ABNT espécie de detentora de respostas às coisas do mundo – ela funciona mais como forma, como organização do pensamento e do conhecimento, não como conteúdo. De fato, a personagem continua sua busca por respostas mesmo depois de encontrada essa joia do deserto.
E é como todos esses elementos e tantos outros detalhes que Animal Político divaga sobre seu próprio eixo de criação narrativa, oferecendo, ao sabor da dúvida e da graça, uma jornada de inquietação tanto quanto de interesse pelo que vemos surgir no caminho do animal. Tião brinda o espectador com irreverência e humor, ainda que suas muitas ideias precisem passar pelo crivo do tempo para atestar sua real força, ou antes estabelecer-se como peça de chiste. Enquanto isso, sonhamos com a possibilidade do conhecimento pleno.

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