Mostra de Tiradentes – Parte IV

O Signo das
Tetas

(Idem, Brasil, 2015)
Dir:
Frederico Machado

Esse
segundo longa-metragem do cineasta maranhense Frederico Machado faz parte de
uma trilogia que começou com O Exercício
do Caos
. Acabam sendo filmes bem distintos, mas não deixam de revelar um
diretor ainda apegado a certas marcas de um dito “cinema de arte”, mais interessado
em construir momentos estranhos e/ou viscerais do que contar uma história de
fato.
Talvez
seja um filme mesmo mais sensorial e introspectivo, mas existe uma procura
constante por essas imagens que justifiquem uma estética “arrojada”, com ecos oníricos
de um inconsciente tumultuado. É quando o estilo se agiganta e olha com desdém
para a história, o que só dificulta o estreitamento emocional com seu
protagonista.
O Signo das
Tetas

é um filme de busca, marcado pela jornada pessoal de um homem (Lauande Aires)
em viagem de volta a sua terra natal. A figura materna lhe persegue como uma
imagem que remete a uma infância de momentos felizes ao lado da mãe, mas
que deram lugar um crescimento rígido, sem muitas felicidades. A vontade é de
fazer as pazes com esse passado que o atormenta.
A
impressão maior aqui é que Machado busca certa estranheza nas imagens oníricas
ou alucinantes que povoam a trajetória desse homem, confundindo nossas próprias
percepções. No fim, fica uma sensação de que o filme poderia se alongar no
mesmo tipo de investida narrativa, para chegar no exato mesmo lugar que, ainda
assim, não diz muito sobre o fim da viagem emocional do personagem.
Mais do que Eu
Posso Me Reconhecer

(Idem, Brasil, 2015)
Dir:
Allan Ribeiro

Filme vencedor da Mostra Aurora, Mais do
que Eu Possa Me Reconhecer
, é uma produção de poucos recursos e equipe. Sua
originalidade está na maneira como filma um cotidiano e acaba fazendo uma
grande reflexão sobre o autorretrato e as imagens que fazemos de nós e dos
outros, em muitos sentidos.
Darel Valença Lins é um artista plástico que vive sozinho numa bela casa no Rio de Janeiro. Amante
de cinema, não só cultiva o hábito de ver filmes clássicos, como tem uma
obsessão em brincar com sua pequena câmera digital. Filma trivialidades que podem
ser vistas como videoartes ou meros recortes de encenações prosaicas.
O
diretor Allan Ribeiro, ao trazer sua câmera para a rotina desse senhor, acaba
filmando suas ações triviais, mas inclui na montagem final do longa trabalhos do
acervo do próprio Darel. Filmado de maneira analógica, o diretor cria unidade entre
essas imagens e reforça seu tom cotidiano.
Num
momento em que o termo “selfie” já
foi incluído no vocabulário do brasileiro, o documentário questiona o que fazer
com essas imagens que se produz aos montes no dia a dia e mostra o quanto elas
podem estar carregadas de força criativa. O encontro com esse homem e sua
maneira serena (talvez banal?) de encarar a vida retira o peso de um personagem
atrativo e o filme passa a interessar bem mais nas relações entre imagens que
se confrontam ali.
A
vitória do longa na Mostra Aurora de um festival que valoriza tanto o
experimental e o novo revela o alcance de um filme aparentemente simples (mas
nunca simplista), cheio de camadas interpretativas. Quando menos se
espera, Darel faz uma observação sobre os autorretratos de Rembrandt, algo que
ressignifica muito do que vimos até então no filme. Do pouco se faz muito e do
banal, arte sensível.
A Casa de
Cecília

(Idem, Brasil, 2015) 
Dir:
Clarissa Appelt

Um
olhar apurado sobre a juventude é a base de A
Casa de Cecília
, longa que surgiu como produto final de concussão de curso
da diretora Clarissa Appelt. O filme pode ser visto na chave do suspense porque
carrega marcas da clássica história de casa mal assombrada. Mas nos parece
muito mais forte no filme um aspecto intimista de uma garota e seus fantasmas
pessoais.
No
filme, Cecília (Carol Pita) encontra-se sozinha em casa por um tempo e vai
receber a visita de uma misteriosa garota, Lorena (Tainá Medina). Inicialmente
estranhas, as duas começam um processo de aproximação que faz revelar os
anseios de uma menina diante de uma existência cheia de dúvidas. A inocência da
primeira se contrapõe à malícia da segunda. É aí que o tom de “horror” perde
força diante das revelações do íntimo.
Mas
Appelt é muito sutil ao retratar esses conflitos particulares, além do que, de
fato, está se dando ali com aquelas personagens, algo que vamos compreendendo
aos poucos. Nada é dado ao espectador de cara, apesar do filme se apegar muito
a diálogos. As duas personagens travam conversas prosaicas enquanto matam o
tempo na casa vazia e é aí também que o filme parece se alongar em conversas
que assumem muitos rumos possíveis. 

Isso aproxima muito o
filme de certo cinema verborrágico (como o de um Eric Rohmer, por exemplo, embora
sem a leveza do mestre da Nouvelle Vague). Também poderia ser um pouco mais
enxuto nas diversas questões que coloca sobre sua personagem, apesar de construir
um retrato sensível da adolescência.

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