Mostra de Tiradentes – Parte III

Revoada
(Idem,
Brasil, 2014)
Dir:
José Umberto Dias 
 
Ao apresentar seu filme na Mostra Autorias, reservado a
cineastas veteranos, o cineasta José Umberto Dias fez uma relação entre a arquitetura e arte barrocas vistas em Tiradentes com a estética de seu próprio
filme. Nada mais apropriado, pois Revoada
alimenta-se do excesso e do rebuscamento formal para olhar para o fim do
cangaço, tema tão caro ao cineasta.
O filme acompanha um grupo de cangaceiros liderados por Lua
Nova (Jackson Costa). Eles recebem a notícia da morte de Lampião e seu bando.
Resta então seguir em fuga ou partir para o enfrentamento, já que a polícia (ou
os macacos, como são chamadas) está em seu encalço.
A
escolha de José Umberto é menos fazer um apanhado de cunho histórico e mais uma
alegoria visceral, ainda que o filme permaneça num mesmo tom até o fim. Corisco
e Dadá, os mais fieis seguidores de Lampião, sobreviventes da chacina que matou
o líder, surgem diluídos em outros personagens, nunca explicitamente nomeados. Mas
são suas figuras de resistência e destemor que compõem esses tipos que enfrentam
aquele mundo de poderes opressores.
São
evidentes no filme referências cinemanovistas, especialmente com ecos de
Glauber Rocha. José Umberto parte do excesso, seja nos cortes rápidos e secos,
nos diálogos marcados pela fala sertaneja bem carregada, uma trilha sonora
retumbante e até mesmo no colorido das roupas dos personagens, tudo para dar
uma atmosfera quase operística ao longa.
É certo que esse o tom excessivo por vezes soe exagerado ou
até mesmo cansativo em alguns momentos, já que o filme mantém esse ritmo do
início ao fim. É fácil confundir o que há de atropelo com a própria estética vivaz
do filme. Mas sua proposta é mesmo de ser uma narrativa de urgência, potente e
desafiadora.
As Fábulas
Negras
(Idem,
Brasil, 2015)
Dir:
Rodrigo Aragão, Joel Caetano, Petter Baiestorf e José Mojica Marins

A
Mostra de Tiradentes programou uma sessão pós meia-noite para exibir um
exemplar sui generis do cinema de horror trash
que vem sendo cultivado numa certa cena independente do Brasil. O responsável
apaixonado por esse tipo de produto B cult
é o capixaba Rodrigo Aragão, já um expoente contemporâneo do gênero.
Aqui,
ele se reúne com outros cineastas, com presença luxuosa de José Mojica Marins,
para criar um mosaico de narrativas deliciosamente aterradoras, com algo
de humor, mas muito de podridão, sangue e vísceras.    
Monstros
de esgoto, Saci, a loira do banheiro, lobisomem, Iara. Figuras míticas e lendas
urbanas tão brasileiras são reinventadas aqui em outra chave de gênero. Se temos o costumeiro longa
dividido em episódios dirigidos por cineastas diferente, é fácil perceber uma unidade
plástica que agrupa o espírito travesso dos contos. Certamente
alguns são melhores que outros.
O
segmento da loira do banheiro, comandado pelo Joel Caetano, é o que mais se
sobressai. Olhando com cuidado, nota-se ali uma noção muito apurada de
encenação, rendendo bons momentos de suspense, numa história não tão previsível
como poderia ser. 

Mojica, o eterno Zé
do caixão, que também faz uma ponta no episódio do lobisomem dos pampas gaúchos,
é mais do que uma presença ilustre – seu curta é mais interessante por tê-lo de
volta à ativa do que por criar uma narrativa de destaque, apesar do Saci
macabro ser uma novidade. Mas como pai de uma estética trash no cinema de horror nacional, sua presença só coroa um
projeto muito coeso – e aterrador – como esse.

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