Mostra de Tiradentes – Parte II

O Animal Sonhado (Idem, Brasil,
2015) 

Dir:
Breno Baptista, Luciana Vieira, Rodrigo
Fernandes, Samuel Brasileiro, Ticiana Augusto Lima e Victor Costa Lopes

Um
coletivo de jovens realizadores trouxe para o festival de Tiradentes o primeiro
filme da competição na Mostra Aurora. O
Animal Sonhado
é um esforço conjunto de jovens que estão concluindo ou acabaram de terminar o curso
de cinema no Ceará. Impressionam mesmo pela maturidade com que exploram um tema
tão subversivo.
O
filme possui alto teor erótico e acompanha pequenas histórias de jovens que
lidam com a pulsão sexual e os desejos do inconsciente. Trata-se um filme-mosaico,
formado por vários episódios, mas muito coesos entre si. A própria maneira
muito fluida com que passamos de uma história a outra já revela a unidade do
filme.
A
coerência narrativa encontra-se tanto na temática, quanto na estrutura formal, o que revela uma sintonia muito grande entre seus realizadores: Breno Baptista, Luciana Vieira, Rodrigo
Fernandes, Samuel Brasileiro, Ticiana Augusto Lima e Victor Costa Lopes. É importante
citar cada um deles porque, sendo muito jovens, alimenta uma curiosidade de
vê-los seguindo adiante, já que todos filmam sexo muito bem, artigo cada vez
mais difícil no cinema recente.
O sexo aqui é visto ausente de moralismos e também
sem fetichismos baratos. Trata-se um retrato muito cru das relações entre
jovens quando o tesão fala mais alto. Um filme altamente provocador,
mas nunca gratuito, ainda que algumas histórias não passem de uma situação
pontual (os amigos mais que amigos do início, o pai tarado), enquanto outras investem
pesado na introspecção (a garota mais gordinha) e no subconsciente (o bacanal
que fecha o filme). 
Todas as histórias exploram muito apropriadamente os
corpos dos seus atores e também as taras que muitas vezes permanecem encerradas
nos pensamentos. Em muitos momentos é possível questionar o que
está acontecendo de fato e o que é fruto da imaginação deles. É talvez essa
marca dos desejos reprimidos e inconfessáveis (somos, nós, espectadores, os privilegiados
então) que faz unir tão bem esses contos que exploram a tensão do tesão.
Teobaldo Morto,
Romeu Exilado

(Idem, Brasil, 2015) 
Dir:
Rodrigo de Oliveira

O
segundo dia da mostra competitiva em Tiradentes trouxe um filme mais
desafiador. Teobaldo Morto, Romeu Exilado,
do capixaba Rodrigo de Oliveira, é um conto solene e introspectivo sobre dois
homens que se confrontam em situação inusitada. Tem lá seus preciosismos de
encenação (talvez muito disso), mas é possível colher ali bons momentos.
O filme começa com algo de muito afetuoso na
maneira como João (Alexandre Cioletti) deixa a mãe e a esposa grávida para
partir numa espécie de retiro numa fazenda. Lá ele tem a inesperada visita de
Max (Rômulo Braga), um antigo amigo dado como morto, o que reacende traumas e
feridas do passado.
A história logo assume um tom mais duro, com algo
também de onírico (e posteriormente mitológico), além de marcar desde o início
um tom muito não-naturalista. Tudo acentua o desconforto que aquele encontro
gera, à medida que vamos entendendo os embates que existem entre eles, fazendo
aflorar as mágoas e obrigando o acerto de contas.
É
certamente um trabalho que exige do espectador um tipo de entrega que o filme
pouco retribui. As duas horas de duração podem cansar até mesmo os mais
exigentes e a impressão é de um diretor que não consegue enxugar sua narrativa,
deixando-a inchada, em prol de um tom misterioso e nunca óbvio que a história
assume. Existe um apego nítido por uma plasticidade que corre o risco de soar
gratuita muitas vezes.
Mas
não deixa de ser uma evolução no cinema que Rodrigo de Oliveira faz. Seu filme
anterior, Horas Vulgares, é bem mais
pretensioso esteticamente, verborrágico e pouco acessível. Afasta mais do que
gera interesse. Aqui nesse novo projeto o diretor se mostra muito mais seguro
das opções estéticas de que lança mão, só precisava de um pouco de freio. 

O plano longo, com
poucos e lentos movimentos de câmera, o apreço pelo tempo morto, tudo é muito
melhor trabalhado aqui, o que demonstra um cineasta que domina o tipo de
linguagem que prefere utilizar para compor um certo estilo. O filme tem momentos
de muita força estética e dramática (a entrada em cena de Max, a briga entre os
dois em campo aberto, o inesperado “entendimento” que surge entre
eles da forma mais íntima possível), mas teria maior impacto se exercitasse
melhor a síntese.

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