Mostra Cinema Conquista – Parte IV

Quando Eu Era
Vivo

(Idem, Brasil, 2014) 
Dir:
Marco Dutra


 É
fato que o cinema brasileiro hoje tem uma predisposição para o filme de gênero.
O terror tem despontado em algumas produções recentes, mas é muito interessante
acompanhar a trajetória de um cineasta como Marco Dutra (e também Juliana
Rojas, que assina a montagem aqui, parceiros de criação) e sua incursão
pelo filme de suspense/horror, seja no longa de estreia dele com a Rojas, Trabalhar Cansa, e nos diversos curtas
que fizeram antes.
Dutra
está longe de ser um mero apaixonado pelo gênero com vontade de só reprocessar, à
brasileira, os elementos batidos dos filmes de horror, tipo de ação fetichista
que tem mais prazer em cuspir referências na tela do que construir algo
consistente em termos de narrativa. A abordagem do diretor tem algo de
anticlimático, de criação de atmosfera, com uma pitada de crítica social e de
classes numa sociedade brasileira em transformação.
Quando Eu Era
Vivo

talvez seja muito mais pessoal, um trabalho de adaptação (em parceria com Gabriela Amaral Almeida) muito livre do romance A
Arte de Produzir Efeito Sem Causa
, de Lourenço Mutarelli. Enquanto o livro
trazia muito mais da insanidade do protagonista e a estranheza de seu
comportamento, o filme injeta mais suspense nos descaminhos de um homem mentalmente
perturbado, num processo de piração que
esconde algo de macabro.
Júnior
(Marat Descartes) foi abandonado pela mulher e vai para a casa do pai (Antônio
Fagundes), que aluga um quarto para a jovem estudante de música Bruna (Sandy
Leah). O irmão dele é interno num manicômio. Revirando os pertences antigos da velha
casa, ele descobre objetos estranhos da mãe já falecida e fitas de vídeo em que
ela experimentava com os dois filhos rituais de ocultismo.
A caracterização de Marat é acertada na sua
persona que exala esquisitice, na iminência da loucura. Nesse sentido
é curioso como o filme usa e desconstrói espertamente as figuras de Sandy e
Fagundes. A garota virginal surge mais arisca, mais segura de si (apesar de não
ser uma grande atuação), enquanto Fagundes dissocia-se da imagem de galã de
novela para viver um pai que vai tomando consciência de que algo está errado
com seu filho.
É angustiante estar preso àquele apartamento (poucas
vezes o filme sai dali, como na sequência em que pai e filho visitam o irmão
louco). A forma como a própria casa parece ser tomada de obscurantismo,
encabeçada pela angústia do protagonista em desenterrar fantasmas do passado, cooptando
outro personagem na sua obstinação, já garante boas doses de pavor no espectador. E
essa sensação só vai crescendo, culminando num final nada óbvio, bizarro por si
só, apreensivo. É a melhor das sensações para um genuíno filme de horror.
Praia
do Futuro
(Idem, Brasil/Alemanha, 2014) 
Dir: Karim Aïnouz


 Com exceção do personagem explosivo de Madame Satã, todos os protagonistas
seguintes dos filmes de Karim Aïnouz têm muito em comum. São pessoas
melancólicas, angustiadas com sua atual situação, aprisionadas por sentimentos
controversos, postas à prova pela vida ingrata que lhes machuca e lhes causa
certa inadequação de estar no mundo (ou no seu “mundinho”). E é por isso que
todos eles buscam uma forma de fuga.
É um terreno muito arenoso esse que o diretor
escolhe para desenvolver os conflitos de seus personagens porque muitas vezes
eles são de difícil apreensão. Praia do
Futuro
sofre muito com isso, na maneira como nem sempre consegue dar a
dimensão exata do que está em jogo para aquelas pessoas, exceto aquele que
aparece na terça parte do filme.
O salva-vidas Donato (Wagner Moura) falha ao impedir
que o amigo de Konrad (Clemens Schick) seja engolido pelas águas turbulentas da
praia do Futuro, em Fortaleza. No entanto, ele estreita relações com Konrad e
logo passam a viver um relacionamento amoroso tórrido, embora não
necessariamente sólido.
É aí que o filme revela tipos que sofrem uma
confusão latente de sentimentos. É difícil entender o que move os personagens,
o que eles sentem de fato, muito porque nem eles mesmos parecem saber
exatamente como definir isso e como lidar com essas questões. Praia do Futuro investe na introspecção
e observa, vagarosamente, como aqueles homens vão seguindo, mesmo que
tropeçando pelo caminho e por sobre seus próprios sentimentos. Escondem-se de
si e buscam maneiras de se completarem e se entenderem na presença um do outro,
mesmo que daí saiam algumas faíscas.
A opção de se mudar para a Alemanha com Konrad surge
para Donato como forma de se afastar de uma rotina que não lhe satisfaz, não
lhe oferece segurança e que não lhe oferece o ambiente mais propício para assumir
seus desejos. A ideia de desterritorialização é uma marca muito forte no cinema
de Aïnouz. Seus personagens vivem em trânsito e a casa onde sempre viveram não
é mais um lugar de conforto. Estar longe dela é uma maneira de libertação,
ainda que os fantasmas pessoais continuem a assombrar e perseguir.
Mas esse afastamento também deixa marcas,
especialmente nos que ficam. Donato vai ter de lidar com o irmão (Jesuíta
Barbosa, em fase adulta) que chega para lhe cobrar uma posição sobre a família.
É o personagem mais bem desenhado do filme, carrega no rosto uma ira por ter
sido preterido pelo irmão mais velho tempos atrás. Não à toa uma das melhores
cenas do longa está no reencontro dos dois, um belo momento que equilibra
agressão e afeto. O personagem de Barbosa, mesmo que a seu modo rude, passa
então a habitar esse universo nebuloso em que o irmão e Konrad vivem.
Praia do Futuro é um filme sensível, busca no silêncio e nos
olhares de seus atores a revelação dos desejos humanos, mas parece ter uma
dificuldade em comunicar para o espectador essa interioridade tão difícil de
apreender, soa moroso muitas vezes. Resolve-se melhor quando revela de cara a
vulnerabilidade de seus personagens, perdidos, indefinidos, tentando entender a
si e o que acontece ao seu redor.
Depois da Chuva (Idem, Brasil,
2013)
Dir: Cláudio Marques e Marília Hughes

“Sejamos
realistas, façamos o impossível”, diz o protagonista Caio já no início do
filme. Não há como não pensar na eterna frase “Abaixo a gravidade”, perpetuada
no clássico media-metragem baiano SuperOutro,
de Edgard Navarro. A anarquia e a vontade de enfrentamento estão presentes em
ambas as falas, espírito esse que é mola propulsora de Depois da Chuva.
E
de seus jovens protagonistas também. Caio e Nanda (Pedro Maia e Sophia Corral)
são adolescentes de classe média que estudam juntos num colégio da Salvador dos
anos 80. Mais precisamente no momento das Diretas Já, quando o Brasil deixa pra
trás a Ditadura e começa seu processo de redemocratização e abertura política
através da implementação da democracia.
E
é muito importante pensar no filme como retrato de uma época que foi essencial
para forjar o que se tem hoje no Brasil em termos de sistema político. A cena
final, carregada de pessimismo, obriga o espectador a pensar na vida política
do presente. Daí que não é mero clichê dizer que Depois da Chuva é um filme atual ou, antes disso, que seja tão
revelador sobre o nosso tempo.
Mas
embora marcado pelo traço do político, é também um filme sobre os ritos de
passagem da adolescência. Caio vive o primeiro amor com Nanda, entra em
conflito com a mãe e sente falta do pai divorciado com quem fala raramente ao
telefone. Parece um terreno muito arriscado, pois é o tipo de filme que pode
facilmente cair no tom mais panfletário, impostado e rasteiro, seja no discurso
político, seja no âmbito mais intimista.
Pois
é muito bom ver que Cláudio Marques e Marília Hughes vão driblando cada um
desses possíveis lugares-comuns. Tudo surge e evolui com uma naturalidade que
deve muito a um texto verdadeiro, enxuto, ancorado num elenco que funciona
exemplarmente bem num filme tão à vontade nas questões que mobiliza. Algumas
cenas, no entanto, demoram-se demais numa estética de tempo marcadamente
alongado (traço que reverbera filmes como Amantes
Constantes
e os da fase mais autoral de Gus Van Sant). Essa preferência
cria um universo muito próprio ao filme, mas em certos momentos prende o ritmo
da narrativa.
Mesmo
assim, Depois da Chuva é um filme
pulsante. O punk rock da trilha
sonora não está ali por mero capricho, por fazer parte da cultura underground dessa Salvador pré-axé music. Ele traduz muito bem o próprio
espírito inspirador de luta, de embate, via vontade jovem de mudar o mundo. E o
roteiro encontra no movimento da criação e eleição de um grêmio estudantil no
colégio de Pedro o microcosmo perfeito para pensar esse período de mudanças no
Brasil. 

O filme acompanha a passagem política do país a
partir de uma transição que se dá nesse pequeno espaço de disputas políticas e
individuais por onde Caio trafega. É por onde ele também tropeça, arrisca,
aprende, decepciona-se, mas que ajudou a moldar esse Brasil que vivemos hoje.

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