Mostra Cinema Conquista – Parte II

Riocorrente (Idem, Brasil,
2013)
Dir:
Paulo Sacramento 


É
muito pertinente ver num filme brasileiro uma vontade tão grande de registrar e
dar conta da sensação de morar numa grande cidade de um país tão desigual como
o Brasil. Riocorrente busca fazer um
retrato impetuoso dessa cidade cão que São Paulo pode ser, num filme que nos
chega sob a marca do simbolismo, exalando brutalidade a cada cena. Por isso é
uma pena enorme que uma proposta tão corajosa emperre num problema grave de
roteiro: falta história e faltam personagens.
Os
tipos quase marginais que Sacramento escolhe para guiar sua narrativa são
cheios de inquietações e vibrações, mas é muito difícil dimensioná-los no
filme. Renata (Simone Iliescu) divide-se num relacionamento com seu namorado
Marcelo (Roberto Audio) e com o mecânico Carlos (Lee Taylor). Esse último, por
sua vez, possui uma proximidade quase paternal com o menino de rua Exu
(Vinicius dos Anjos), a marginalidade estampada em sua feição dura. Todos
sujeitos à vibração esmagadora de São Paulo.
Sacramento
apresenta uma condução curiosa na forma como cria uma série de metáforas
visuais para representar a ebulição da cidade. Riocorrente rege-se pelo signo do fogo, elemento presente em várias
cenas (a do carro incendiado em disparada na estrada é uma das imagens mais
fortes do filme em termos simbólicos). A iminência da combustão parece guiar
esses personagens, em especial Marcelo e sua agressividade latente.
O
problema é quando toda essa vontade de mostrar a cara bruta da cidade esbarra
num mero preciosismo simbólico de cenas que gritam a “força” do filme. E todo o
decorrer da história parece exercitar o mesmo dispositivo simbólico, tornando a
narrativa morosamente redundante.
É
difícil entender, se importar ou acreditar naquelas pessoas que se machucam, às
vezes de forma a mais gratuita possível. Parecem reféns de um estado de coisas
socialmente conturbadas, mas tudo que o filme nos dá são possibilidades muito
abertas de interpretação.
Certamente
este não é um filme clássico de personagens realistas e bem aparados, mas o
filme acaba ruminando o tempo todo as mesmas questões e não parece haver consistência
nos atos e comportamentos daquelas pessoas. O filme termina e não se sabe ao
certo aonde quer chegar.
Tatuagem (Idem, Brasil, 2013) 
Dir: Hilton Lacerda

 
Vem de
Pernambuco mais um belo exemplar de cinema com personalidade. Hilton Lacerda, à
frente de seu primeiro longa-metragem de ficção depois de um logo trabalho como
roteirista nos filmes do conterrâneo Cláudio Assis, chega com um filme que faz
alarde, mas cercado de afetos.
Tatuagem vem (e vence) pela marca do escracho.
Logo em um dos primeiros números apresentados pela trupe de teatro Chão de
Estrelas, um dos personagens diz que “nossa arma é o deboche”. É a dica para
que encaremos com muito bom humor e anarquismo contestador as apresentações do
grupo, cheios de um subtexto (pan)sexual – e por isso político.
Clécio
(Irandhir Santos) é o líder do grupo que batalha para continuar mantendo de pé
o seu ganha-pão com os poucos recursos de que dispõe, e ainda tendo de
enfrentar a censura militar em fins dos anos 1970. Um dos grandes acertos de
Larceda é nunca transformar seu filme numa mera bandeira contra os ditames da
Ditadura, mas antes em dar relevância a um tipo de comportamento duramente
oprimido, inclusive socialmente.
O
romance que vai surgir entre o protagonista e o soldado Fininha (Jesuíta
Barbosa), cunhado do melhor amigo de Clécio, o espalhafatoso Paulete (Rodrigo
Garcia), já dá conta de contrapor lados que se chocam, mas ganhando nuances
mais picantes aqui. É, portanto, um filme que clama por liberdade, artística e
sexual, via comportamentos que desafiam a moral vigente. Lacerda conduz com
muita delicadeza o que está na esfera dos sentimentos, e as pessoas que se
reúnem em torno do grupo não deixam de formar uma bela e desordenada família,
apesar das desavenças que surgem em certos momentos.
Desprovido
de todo moralismo, o filme navega pelo âmbito do questionamento de valores e
hipocrisias sociais. A Polka do Cu, canção-desbunde cujo número é apresentado
na parte final (e deflagrador de consequências duras), é um desses momentos não
só carregado de coragens e escracho, mas que representa muito bem uma visão de
mundo que aquelas pessoas (e o filme) compartilham harmoniosamente.
Há de se
destacar um cuidado muito conceitual na textura do filme vinda de uma
fotografia em tons granulados que denunciam a época passada (quase como um
registro nostálgico) e também um momento ainda opressor, apesar da alegria que
aquele grupo quer propagar com seus espetáculos. A trilha sonora, uma feliz
parceria com DJ Dolores, é outra marca que faz a ponte do filme com o gênero musical,
porém de forma muito pessoal. 

Dos
trabalhos que roteirizou para Cláudio Assis, Lacerda mantém a veia
contestadora, de tons anárquicos que afrontam o mais tacanho dos moralismos.
Mas Tatuagem é também dotado de um
lirismo e carinho por seus personagens que o coloca bem longe daquilo que Assis
já dirigiu (com exceção, talvez, do mais poético A Febre do Rato). Nesse equilíbrio de atmosferas, Larceda
acrescenta mais uma peça na filmografia pernambucana recente que faz o cinema
nacional pulsar, contestadora e afetuosamente.

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