Mank

O outro gênio*

Por muito tempo e ainda hoje Cidadão Kane é tido com o melhor filme de todos os tempos segundo estudiosos e especialistas que volta e meia participam dessas votações de acordo mundial. A obra-prima dirigida por Orson Welles, uma dos marcos para o cinema moderno, não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo, sempre foi tido como de grande influência por grandes cineastas e marcado como obra revolucionária em termos formais.

O gênio de Orson Welles nunca foi negado, e ele sempre demonstrou isso por toda a sua tortuosa carreira. Mas há quem defenda que os méritos autorais de Cidadão Kane, em específico, recaiam sobre o corroteirista do filme, Herman J. Mankiewicz. É sobre essa figura um tanto excêntrica e de olhar sagaz que se debruça Mank, novo filme dirigido por David Fincher e que estreou este final de semana na Netflix, sendo um dos filmes mais cotados para a próxima edição do Oscar.

No entanto, o filme de Fincher não trata de comprar a briga sobre a tal autoria – diferente, por exemplo, da influente crítica Pauline Kael que publicou um longo artigo na revista New Yorker, nos anos 1970, buscando comprovar que o verdadeiro autor de Cidadão Kane é, na verdade, Herman Mankiewicz.

Fincher, por sua vez, não é um polemista. Ele não quer comprar essa briga e ajuizar a superioridade artística de um sobre o outro. Seu filme busca mesmo é lançar luz sobre o trabalho de Mankiewicz, sua personalidade e as intrigas com as quais se envolveu, o que acaba sendo também uma crônica de costumes sobre a Hollywood dos anos de 1930 – e de relance, um retrato da sociedade norte-americana abastada e conservadora da época ligada à indústria cinematográfica.

O ponto de partida, de fato, é a escrita do roteiro de Cidadão Kane – à época, Welles era influente diretor de teatro e radialista, já conhecido pelo seu talento dramatúrgico, e chegou a Hollywood com carta branca para fazer o filme que quisesse com a equipe que escolhesse. Cidadão Kane foi um dos seus primeiros longa-metragens e ele quis contar com o trabalho de Mankiewicz que já era um roteirista de profissão, experiente e muito conhecedor das manhas e do modus operandi tanto do ofício quanto da relação com os estúdios na Era de Ouro de Hollywood.

Escrevendo Kane

Mas é claro que o filme, ao se colocar ao lado de Mank (vivido magistralmente por Gary Oldman), tenta pontuar sua dose de talento e as contribuições geniais que ele fez para a construção desse que seria um dos filmes mais importantes de todos os tempos. Ou seja, o filme sublinha os méritos dele ao escrever aquele primeiro tratamento de roteiro – e fica evidente no filme que Mankiewicz e Welles, apesar da parceria, não trabalharam juntos.

O filme começa com Mank, com a perna engessada após um acidente de carro, indo se instalar em um rancho para poder se dedicar integralmente à escrita daquele roteiro encomendado, em sossego, apesar do prazo de 60 dias que lhe deram. A ideia da reclusão é que ele também pudesse ficar longe da bebida, sendo ele um alcóolatra incorrigível – e o plano, de alguma forma, não irá dar muito certo.

De qualquer forma, praticamente preso a uma cama e com uma secretária que escrevia e datilografava o que ele ditava, Mank segue seu trabalho esforçando-se para escrever não um roteiro qualquer, mas algo que ele mesmo irá reconhecer como uma obra-prima. E o filme de Fincher, abusando propositalmente do uso de flashbacks (recurso explorado e potencializado no próprio Cidadão Kane), vai mostrar quais as inspirações do roteirista para a história que estava desenvolvendo.

Mesmo à época, quem lia o roteiro de Mank já conseguia notar que o protagonista do filme era claramente inspirado na vida do poderoso magnata das comunicações William Randolph Hearst (vivido por Charles Dance), figura inclusive muito próxima de Louis B. Mayer (Arliss Howard), um dos superpoderosos donos da MGM, um dos maiores estúdios hollywoodiano da época – e apesar de Cidadão Kane ser um filme da rival RKO Pictures, Mank trabalhou por um tempo na MGM, subordinado a Mayer e também a outro famoso produtor, Irving Thalberg (Ferdinand Kingsley).

Por conta disso, Mank trava contato com estes grandes nomes, participa de festas e recepções em suas mansões e escritórios. Estabelece até uma curiosa amizade com Marion Davis (Amanda Seyfried), atriz de cinema e amante de Hearst, que também será emulada no roteiro de Cidadão Kane, como uma personagem fútil e impertinente.

Homem de princípios

No campo político, Mank vai deixar explícito seu lado democrata e de inclinação progressista quando todos aqueles ao redor não escondem sua posição republicana e conservadora, claramente anticomunista – e isso vai se tornar bem evidente no embate eleitoral para o governo da Califórnia que Fincher usa para explorar as inclinações ideológicas daqueles personagens.

Havia o embate político com seus superiores, mas Mank nunca vai abaixar a cabeça para eles. O filme de Fincher, aliás, pinta um retrato muito complexo do escritor e, justamente por isso, muito interessante de acompanhar.

Beberrão, homem sagaz, de personalidade um tanto difícil, mas também amoroso com as pessoas próximas a ele; era meio cínico, mas também honesto a seus princípios e amizades. Tinha uma língua afiadíssima, o que atesta o talento para escrever ótimos diálogos nos filmes, encantar seus interlocutores, mas também podia lhe colocar em maus lençóis porque, por vezes, falava antes de pensar, depois do estrago já feito.

Fincher utiliza essa habilidade para fazer de Mank um filme ágil, de embates deliciosos entre o roteirista e demais personagens. Suas conversas com Welles (Tom Burke), também um homem culto e muito inteligente, são ótimas e rende aquele tipo de confronto amigável, mas cheio de farpas. E assim será com vários outros personagens, sejam amigos ou detratores, vencendo ou perdendo os embates. Afinal, o caminho dos gênios não pode ser assim coisa fácil de trilhar.

Mank (EUA, 2020)
Direção: David Fincher
Roteiro: Jack Fincher

*Publicado originalmente no Jornal A Tarde (edição de 06/12/2020)

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